Erasmo Carlos evoca suas reminiscências das, já não tão jovens, tardes de domingo

A fase mais ingênua e bem comportada do rock and rol americano surgiu no vácuo que deixado pela ida de Elvis Presley à Alemanha servir às forças armadas na Alemanha ocupada. A indústria fonográfica aparou as arestas, embranqueceu a interpretação e as canções, e investiu numa geração de intérpretes com rostinhos de anúncio de dentifrício. Uma fase de muitos descendentes de italianos, ídolos adolescentes como Frankie Avalon, Fabian, Frankie Valli e The Four Seasons, e de Bobbys: Bobby Darin, Bobby Vinton, Bobby Vee e Bobby Ridell, os mais conhecidos.  Dessa turma Dion di Mucci foi o único com atitude, canções e interpretações viscerais. Fez sucesso com canções que seriam regravadas por gerações seguintes. Um desses é The Wanderer, de Ernie Maresca, um italiano, que participou do grupo The Regents, mas fez fama como compositor. Dion exerceu forte influência em Erasmo e Roberto.

 The Wanderer é o original do primeiro hit marcante de Erasmo, Lobo Mau (versão de Hamilton de Giorgio). Assinada por Maresca e Dion di Mucci, Runaround Sue é o original de Fim de Amor, obscura gravação de Roberto Carlos lançada há 60 anos (com Malena no lado B), versão de Gilberto Rochel. Os futuros astros da Jovem Guarda começariam nessa fase anódina do rock americano, que acabaria abruptamente com a chegada dos Beatles às paradas em 1964.

Isto posto, não é por acaso que o álbum O Futuro Pertence à Jovem Guarda (Som Livre), de Erasmo Carlos, lançado nesta sexta-feira nas plataformas de músicas para streaming, abre com Nasci pra Chorar, no original Born to Cry, sucesso de Dion di Mucci em 1962, e gravada por Roberto Carlos em 1964 (em versão de Erasmo Carlos). São oito canções, das quais Erasmo Carlos só gravou O Bom (Carlos Imperial), numa participação de um disco do Raça Negra, dedicado à Jovem Guarda. Este álbum de Erasmo (com produção de Pupillo, direção artística de Marcus Preto), a reverencia, mas não se trata exatamente de um tributo a Jovem Guarda, embora recorra a frase de Lenine, que teria inspirado o nome do programa (na verdade, jovem guarda já era empregada no cotidiano. Foi até nome de uma coluna de Ricardo Amaral num jornal carioca no final dos anos 50).  

As duas faixas iniciais são de 1964, um ano antes do programa da TV Record: a citada Nasci para Chorar, e o Ritmo da Chuva, sucesso com Demetrius, versão para Rhythm of the Rain, do grupo The Cascades, sucesso em 1962 (composta pelo vocalista John Gunmoe).

O álbum pelo repertório soa mais com uma incursão de Erasmo Carlos pelos desvão das suas memórias afetivas, depois de completar os simbólicos 80 anos em 2021. Com exceção das duas canções citadas, as demais foram grandes hits nos dois primeiros anos do programa Jovem Guarda, onde o rock tornou-se brasileiro, e como tal, em parte lúdico e ingênuo, até pela idade dos que o faziam. Ao mesmo tempo, de um romantismo derramado, marca dos bolerões mexicanos e baladões à italiana que ainda frequentavam as paradas brasileiras na primeira metade dos anos 60.

Alguém na Multidão (Rossini Pinto), com Erasmo é uma balada melancólica, realçando a melodia, simples e bonita. Contrasta com o original, motivo de efervescência no palco do teatro da TV Record, onde era gravado o Jovem Guarda. Os Golden Boys a cantavam com todo o pique que o auditório exigia. Tijolinho é a mais, digamos, singela, do repertório. Foi o maior hit do paulistano Bobby de Carlos, e composta por Wagner Benatti, mais tarde um dos fundadores dos Pholhas. Tijolinho era um dos pontos altos do programa da TV Record. Assim como Devolva-me, com Leno & Lilian. Gravada por Roberto Carlos, Esqueça é versão de Roberto Corte Real para Forget Him (Mark Anthony), um hit de Bobby Ridell. Cada uma dessas músicas deve ter um lugar reservado carinhosamente no peito do Tremendão. Com exceção das duas faixas iniciais, todas as demais são de 1966, ano em que o iê-iê-iê (e também o programa Jovem Guarda) chegou ao auge.

Os Vips fazem parte da história de Roberto e Erasmo. Os irmãos Antonucci, Márcio e Ronaldo gravaram seis canções inéditas dos dois (Perdem apenas para Cleide Alves, que gravou sete composições de Roberto e Erasmo, algumas de Roberto com outros parceiros).  Entre as que Os Vips tiveram um dos seus maiores sucessos com A Volta. Erasmo faz uma versão mais roqueira da canção, que Roberto Carlos tirou do baú em 2004. A produção é equilibrada, nem vai de sonoridade retrô, nem tampouco incrementa de programações e afins o disco. O acompanhamento, os arranjos são contemporâneos, e de bom gosto, assim como Erasmo Carlos sempre procurou ser.

Em 1969, com o fim da Jovem Guarda, ele se reinventou. Tornou-se o ex-Tremendão. Incluiu-se na nova música brasileira, surgida imediatamente depois da virada de mesa tropicalista. Um período em que gravou os seus discos mais elogiados. O Futuro Pertence à Jovem Guarda não se encaixa na obra de Erasmo, que nunca foi de saudosismo, tanto que, ao longo desses anos, acrescentou poucas canções dos anos 60 ao seu repertório de shows. Este álbum é um presente que oferece a si próprio, suas reminiscências das, já não tão jovens, tardes de domingo.

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