Memória do Carnaval: Papagaio na Vara, em 1922, precisou de habeas corpus para desfilar

O Papagaio na Vara,  fundado, como troça, em 12 de fevereiro de 1920, na Rua da Macaíba, na Torre, sob presidência de Theotônio José de Souza. Essa troça, depois tornada clube, inspirou o surgimento de uma troça homônima em Olinda em 1923. O que era bem comum então. Em Olinda, por exemplo, havia Lenhadores, Vassourinhas, Bola de Ouro. O Papagaio recifense teve uma das histórias mais tumultuadas do carnaval pernambucano.

Há cem anos o Papagaio na Vara fez história ao se tornar, provavelmente, a única (ou primeira) agremiação carnavalesca recifense, a entrar com um pedido de habeas corpus para que participasse da folia, no caso, o badalado carnaval de 1922, o do Centenário da Independência do Brasil.

A troça estreou em desfile no carnaval de 1921, promovendo animados acertos de marchas, com uma orquestra dirigida pelo maestro Joaquim Gonzaga, autor da marcha nº1 do Papagaio na Vara, intitulada A Urucubaca Ainda Não me Deixou, descrita como “uma belíssima composição, em ré-si-fá, rigorosamente moldada em fins de harmonia e princípios de pancadaria grossa”. Escrita em tom de gozação em A Provincia, a marcha era premonitória. A troça inclusive já começou com uma urucubaca. Noticiou-se nos jornais que fora criado um segundo Papagaio na Vara, no bairro da Boa Vista. Como os fundadores do Papagaio original em boa parte era militar de patente da força publica do estado, entende-se porque não se soube mais da troça homônima. Aliás, o Papagaio na Vara não saiu no carnaval de 1920, segundo  a imprensa devido a um “incidente”.

Próximo ao carnaval, houve um desentendimento numa reunião dos próceres do Papagaio na Vara, tendo como pivô o professor Gaspar Regueira, que indicou o seu amigo Gaspar Uchoa para “sócio benemérito do clube”, um cargo de alto nível. Conforme os estatutos da agremiação, seriam indicados ao posto os que contribuíram financeira e fartamente com o Papagaio na Vara. O que era não era o caso do professor Uchoa, que nem era conhecido dos associados do clube. O tempo esquentou.

Mesas viradas, cadeiras quebradas, gente caindo. O futuro ex-sócio benemérito Gaspar Uchoa, saiu do clube aos gritos de socorro. Confusão que resultou no Chefe da Polícia mandar fechar o prédio onde funcionava o Papagaio na Vara. A diretoria, imediatamente contratou um advogado de renome, doutor Jones Filho, que impetraria um habeas corpus para derrubar a decisão da autoridade policial.

Tentou-se uma conciliação com a autoridade. No dia seguinte, os principais dirigentes da agremiação foram conversar com  o doutor Luiz Correia, Chefe da Polícia, que se mostrou irredutível.  Confirmou que pretendia manter a sede do clube fechada devido às desordens lá acontecidas. Não adiantou o doutor Jones atgumentar que as desordens foram levadas a cabo por pessoas estranhas ao clube, com a finalidade de tumultuar, integrantes da troça rival Come Mas Não Paga. O Chefe da Policia perdeu a paciência. Deu um murro na mesa, e bradou que não permitiria a abertura da sede.    

Quem recebeu o habeas corpus foi o Juiz de Direito da 5ª Vara Criminal, que designou o dia 28 de janeiro, às 13h, para que comparecem as partes interessadas, incluindo o senhor Chefe de Polícia. O local estava apinhado de foliões. Pelo caminhar do andor,  o juiz parecia propício a conceder o habeas corpus.

A justiça trafegava com rapidez um século atrás. No dia 31 de janeiro, o resultado seria pronunciado pelo magistrado, a partir das 14h. Logo cedo muita gente esperava o veredito do lado de fora do Fórum da capital. Foi um episódio badalado. Entre a turba estavam jornalistas, presidentes da várias agremiações carnavalescas, estudantes de direito, advogados. 100 guardas civis faziam o policiamento interno sob o comando de um capitão da força pública, enquanto uma patrulha de 50 praças da cavalaria se achava postada em frente às salas de audiência.

Ao cabo de muito nervosismo, ameaça de desfalecimento, diretores pedindo água com éter para se reanimarem, o juiz ordenou silêncio para enunciar o veredito, que tem argumentos, no mínimo, peculiares. Citando vários nomes signatários do documento etc, etc, etc, um resumo:

 “(…) perante este juízo (o clube) impetra uma ordem de habeas corpus para poder continuar livremente a realizar suas sessões em sua sede, à Rua 89, residência do seu referido presidente, uma mesa que foi fechada por ordem do Chefe da Polícia, em face de recentes desordens ali verificadas.

O Chefe da Polícia, na sua informação de fls, declara que ultimamente a sede  do clube  é forte ponto de desordeiros, não tendo sido esta a primeira vez em que ocorrem ali fatos iguais aos recentemente havidos, e que determinou o fechamento da sede. O doutor 4º Promotor Público, na sua cota de fls, opinou pela concessão do habeas corpus, baseado no artigo 72, § 8º da Constituição Federal, invocado pelo paciente. Considerando que o instituto do habeas corpus, conforme a jurisprudência unânime dos tribunais do país, e opiniões dos mestres, não assegura apenas a liberdade individual, garante também o livre exercício de um direito qualquer. Considerando que, embora a sede do Clube Carnavalesco Papagaio na Vara seja hoje ponto de desordeiros, como informou o doutor Chefe da Policia, não se pode impedir que ele realize suas sessões, desde que os seus associados estejam desarmados (cita artigo e incisos), competindo à autoridade pública intervir para manter a ordem pública (…). E assim fecha a peça: “Julgo procedente o pedido constante da fls 2, para conceder, como efetivamente concedo, o habeas corpus impetrado pelo clube  carnavalesco Papagaio na Vara, garantindo-lhe assim o direito de livremente se reunir em sua sede e realizar as sessões eu quiser”.

No dia seguinte houve memorável comemoração na casa do presidente do  clube, Baldomiano Nilo dos Santos Ferreira, o popular Badu, com comes e bebes e um baile que transcorreu até as primeiras horas do dia seguinte. Indiferente aos 30 praças que o Chefe da Polícia mandou ficar de plantão diante da casa do presidente Badu. Não seria a única vez. o Chefe não deve ficado contente com o habeas corpus.

 As 20h do dia 10 de fevereiro, os integrantes da agremiação reuniam-se diante da casa do presidente, quando chega uma patrulha de praças da cavalaria para acompanhar o clube. O presidente brandiu habeas corpus acusando a atitude do chefe de polícia um desrespeito à autoridade pública.

O Papagaio na Vara foi sem dúvida o clube mais tumultuado da  primeira metade do século 20. Enquanto os clubes de pedestre brigavam uns com outros, nele eram os próprios integrantes que se engalfinhavam. Numa reunião acontecida em Olinda, entrou um dos sócios e meteu a mão no presidente do clube, que vivia mudando de sede. A urucubaca do hino cantado nos primórdios do clube parecia ter grudado na agremiação. Em 1926, anunciou-se que o clube não desfilaria nos três dias de carnaval:  “Essa infeliz resolução foi determinada pelo choque de ideias entre seus dignos sócios na última reunião havida” (do jornal A Provincia). No ano seguinte, na primeira reunião, na casa do então presidente Alfredo Gaspar, o pau voltou a cantar. Sendo preciso convocar a guarda noturna, com seu comandante acompanhado por vinte homens. Apesar do policiamento rolaram bengaladas, bofetões, e os que estavam na reunião foram-se sem dar bolas aos guardas, que pretendiam revistá-los para saber quem se encontrava armado.

 Em 1929, o errante Papagaio na Vara conseguiu uma sede no Pina. Mas não mudou. Numa reunião para tratar do carnaval daquele ano, um dos sócios pediu o ingresso de um novo sócio. O presidente alegou que a reunião não era para se tratar desse assunto. E o pau comeu mais uma vez o que não o impediu de desfilar no carnaval. Sabe-se do Papagaio na Vara até meados dos anos 50, quando foi fundada a troça do mesmo nome em Olinda, de existência fugaz.

Um comentário em “Memória do Carnaval: Papagaio na Vara, em 1922, precisou de habeas corpus para desfilar

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  1. O Papagaio na Vara, com essas balbúrdias e desordenadas de idas e vindas, é a cara do Brasil na sua essência.

    O Brasil é um puteiro, sempre, e se alguém tentá-lo consertar por qualquer motivo, sempre vai dar com os burros nágua, ter à sua frente a balburdia do Papagaio na Vara, que começou como uma festa colorida e acabou como um desastre carnavalesco:

    Isso é a cara do Brasil em cada esquina..

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