Hermeto Pascoal e grupo tirando sons do outro mundo no Planetário da Gávea em 1981

O Planetário da Gávea. Não havia local mais apropriado no Rio, naquela noite de fevereiro de 1981, para Hermeto Pascoal reunir uma plateia, da qual fazia parte Milton Nascimento, e se apresentar com sua nova banda, que acabou sendo batizada de O Grupo. Uma banda de luminares com a qual tocaria vários anos: Carlos Malta (sax soprano, flautas), Zé Eduardo Nazário (bateria, percussão), Marcio Bahia (bateria e percussão), Itiberê Zwarg (contrabaixo, elétrico e acústico e piano), Jovino Santos Neto (piano, clarinete, harmonium), Pernambuco (percussão). Hermeto, por sua vez, foi de piano, trompete, sax tenor, flauta e vocais.

Devidamente gravado, com tapes devidamente preservados, o concerto de Hermeto no Planetário, chega ao disco, CD e vinil, duplos, pelo selo inglês, Far Out Recordings, especializado em música brasileira, que não interessa às grandes gravadoras, dedicadas ao fácil e descartável. E Hermeto não trilha estes caminhos.  Todos os temas do concerto são assinados por Hermeto Pascoal, boa parte estava sendo tocada pela primeira vez em público.

A faixa que abre o concerto, Paz, Amor e Esperança/Homônimo Sintróvio chega perto dos 35 minutos de duração. Ela pega um baião de viola e vai desenrolando a curta linha melódica como se desenrola um carretel. É puro som espacial nordestino no Planetário, com espaço para cada músico mostrar a que veio (os dois bateristas estavam impossíveis).

Inevitavelmente, o som de Hermeto Pascoal é rotulado de jazz. Invariavelmente, recorrem aos elogios feitos a ele por Miles Davis (que passou a mão na música de Hermeto). Prefiro MIP, ou música intuitiva brasileira. Jazz tem o blues no cerne, mesmo no estilo free, no cerne do som de Hermeto Pascoal estão os sons que escutava em Lagoa da Canoa (AL), mais tarde em Caruaru, depois no Recife, na Rádio Jornal do Commercio (da qual fala sempre com entusiasmo).

Não que não haja jazz neste concerto. O tema Vou Pra Lá e pra Cá tem estrutura de jazz fusion, mas a nordestinidade de Hermeto permeia praticamente todo o álbum. Ele figura entre um pequeno número de músicos do instrumental brasileiro universalizou ritmos nordestinos. Disseque-se Vou pra Lá e pra Cá e tem-se um tema que poderia estar num disco do Quarteto Novo (ele, Airto, Theo de Barros e Heraldo do ontem, este também expandiu os ritmos que apreendeu quando morava e tocava no Recife)

É o free lúdico brasileiro. Depois de Vou pra Lá e pra Cá, Hermeto pede que ponham a luz no baixista Itiberê Camargo, depois entra com Bombardino, fazendo trocadilho com “bombardeio”. O começo é empolgante, com um diálogo entre o bombardino, tocado por Hermeto e o contrabaixo elétrico de Camargo. A música vai se construindo com a entrada dos demais músicos, seguindo a linha mestra do baixo. Hermeto abre espaços para cada música tecer seu improviso, com duas faixas escritas por ele para os dois bateristas, Duo de Bateras, e Duo de Bateras II. A banda tocava com ele há tão pouco tempo, que ao apresentar os bateristas, Hermeto se esquece do nome de Márcio Bahia

Hermeto Pascoal pode ir do lírico, mesmo que o nome não condiga com o tema, a exemplo, de São Jorge/Ilza na Feijoada, que interpreta em piano solo, ou Jegue, uma dos temas mais suingados de concerto, que fecha o disco 2, uma das mais contagiantes do álbum. Hermeto manda ver um riff de teclado, e os músicos vão criando em cima, num movimento circular, em que novos riffs vão se repetindo, com um baião, surgindo do nada. São 10m14s de mais puro improviso.    

Em duas horas de improvisos, No Planetário da Gávea não tem momentos maçantes, pela dinâmica da banda, e senso harmônico e melódico de Hermeto Pascoal, quando o tema vai expandindo-se súbito ele dá um refresco puxando um trecho de uma melodia assoviável. Formado por músicos que começavam a tocar juntos, O Grupo é admirável. Privilegiados os que tiveram a sorte de assisti-los com Hermeto no planetário.

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