Borboleta Não É Ave, de Nelson Ferreira e J.B Diniz, sucesso do carnaval de cem anos atrás.

“O maestro Nélson Ferreira, diretor da orquestra do Teatro Moderno. Compôs uma linda marcha carnavalesca, Borboleta Não É Ave, com letra do poeta J.B Diniz, especialmente dedicada ao referido bloco” (Jornal A Provincia, janeiro de 1922). Neste caso “o referido bloco” é o da Concórdia. O nome, porque surgiu no final da rua homônima, entre a Rua São João e a Campina do Bodé. Então com 20 anos, o jovem Nélson Ferreira, já famoso na capital, certamente procurava agradar às foliãs, que no Bloco da Concórdia já eram 60 inscritas para brincar na agremiação.

Dias depois, noticiava-se o surgimento de mais um bloco, o Faz Que Olha, fundado na Rua da Palma, 19, residência do seu presidente. O Faz Que Olha anunciou uma para o domingo, a fim de realizar o primeiro ensaio, no qual seriam cantadas as marchas do seu repertório, incluindo Borboleta Não é Ave, também oferecida pelo maestro Nélson Ferreira ao bloco. Porém, no carnaval, o compositor desfilou, tocando triângulo, no Bloco da Concórdia, em meio a gente fina e elegante, advogados, políticos, senhoritas da sociedade. A marcha mais cantada pelo Concórdia foi Borboleta Não É Ave, cuja partitura, com letra já estava sendo comercializada na Casa Ribas(Rua da Imperatriz, 173)

Borboleta Não É Ave foi um dos maiores sucesso do carnaval de um século atrás. É considerado o primeiro frevo gravado, embora na verdade nem seja exatamente um frevo. Está mais para samba.

Vale ressaltar que, há cem anos, o termo frevo nem designava ainda um gênero musical, mas a ebulição provocada pela música dos blocos, troças e clubes pedestres, então chamada de marcha pernambucana. Algo comum a quase todos os gêneros musicais populares. O maxixe, por exemplo, no início era a dança, ou o local onde se dançava.

O Dia do Frevo é celebrado neste 9 de fevereiro, tomando como referência o dia em que o termo teria aparecido pela primeira na imprensa do Recife, uma descoberta do folclorista Evandro Rabello (na verdade, o termo apareceu antes). No entanto, quando foi publicado nos jornais, como foi citado acima, frevo ainda não era a música. Mas o rebuliço que provocava nos foliões pelas marchas tocadas nas agremiações carnavalescas. Frevo só passa a ser a designar a música da segunda metade para o final da década de 20, e tem o tem o batismo consolidado nos primeiros anos da década de 30. Tanto que o próprio Nélson Ferreira lançou em 1923 o sucesso Cavalo do Cão Não É Rioplano (aeroplano) como um one-step, originalmente uma dança de salão nascida nos Estados Unidos, e muito popular no clubes recifenses, na década de 20, porém devidamente pernambucanizada.

Borboleta Não É Ave fez sucesso há um século, porém somente seria gravada no final de 1922, no Rio, para o Carnaval de 1923, pelo Grupo de Pimentel, e o cantor Baiano (Manuel Pedro dos Santos 1870/1944), nascido em Santo Amaro da Purificação (conterrâneo, pois, de Maria Bethânia e Caetano Veloso), um dos mais requisitados intérpretes da gravadora Casa Edison.

A letra, de Jota Borges Diniz, hoje não seria considerada nem um pouco politicamente correta. Ei-la:

Borboleta não é ave/

borboleta ave é/

borboleta só é ave/na cabeça da muié (refrão).

Borboleta quando é preta/

tem parência de urubu/

borboleta quando é roxa

/deixa gente jururu/

borboleta, borboleta, de voar nunca se cansa/

menina da perna fina/

de socó tem semelhança/

borboleta quando fores/

lá para as bandas do Norte/

da coruja minha sogra/

leve o gênio da má sorte/

borboleta não tem perna/

borboleta tem cabelo/

toda velha solteirona/

tem a vida em pesadelo”

Na foto, de meados dos anos 30, Capiba, Fernando Lobo e Nelson Ferreira

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