Josildo Sá traz o samba de latada para a tela do cinema

Samba de Latada, documentário de João Lucas Melo, produzido pela Jacaré Filmes, com patrocínio da Coopergás, foi lançado na semana passada em Tacaratu, e estreia no Recife, nesta sexta-feira, 11 de fevereiro, no Teatro do Parque, às 19, com show especial de Josildo Sá, e banda. O samba de latada, ou de matuto, tocava-se no sertão na época em que Luiz Gonzaga ainda era aprendiz de sanfoneiro. No entanto, somente há 15 anos gravou-se um disco dedicado inteiramente a este samba de pesado sotaque nordestino. Josildo Sá é o autor do feito, e celebra com o documentário os 15 anos do CD Samba de Latada, em parceria com o multi-instrumentista paulista Paulo Moura. 

Quando a fuleiragem music passou a acuar o forró, aí pelo final dos anos 80, se passou a falar em forró pé-de-serra, para diferenciá-lo das bandas que faziam lambadas estilizadas, e autodenominaram o que tocavam de forró. Forrozeiros, querendo realçar sua autenticidade, voltaram-se para a engenharia acústica criada por Luiz Gonzaga: sanfona, triângulo e zabumba. Porém esta instrumentação, o próprio Gonzagão, se valia dela pela praticidade. No estúdio, desde o inicio da carreira, ele gravou com o trio de forró e conjunto regionais. Nos anos 60, os conjuntos que animavam os sambas (no Nordeste, uma festa em que se dançava) reforçava o instrumental básico do forró com banjo, violão de7 cordas, tocado com dedeira (colocada no polegar da mão que dedilhava as cordas),  cavaquinho, às vezes melê (zabumba que em lugar de pele animal tinha borracha de câmara de ar)
Por forró entenda-se um balaio musical que açambarca também ritmos não nascidos no interior do Nordeste, choro, frevo e samba. Um samba com outra ginga, dançante, e com letras próximas à temática passional do bolerão mexicano. O samba de matuto ou de latada, até então, com uma ou outra faixa incluída em discos dos forrozeiros, sem maior destaque. É aí que entra o paraibano Abdias (de Taperoá, 1932/1991), um dos mais importantes nomes da história do forró, exímio tocador de pé de bode (oito baixos), e durante anos produtor do setor de música nordestina da CBS. Em 1965, Abdias gravou mais um LP. Sai do Sereno, em que além dos instrumentais (que ainda vendiam bem no Nordeste), trazia canções de autores renomados, como Rosil Cavalcanti, Januário Gonzaga (irmão de Luiz Gonzaga), Onildo Almeida, ou João Silva.

Sai do Sereno é um dos melhores discos de música brasileira dos anos 60 (a faixa título, de Onildo Almeida, foi gravada por Gilberto Gil no álbum Expresso 2222). Este disco tornaria o samba de latada uma, como se dizia na época, coqueluche no meio do forró. Uma faixa foi sucesso nacional, o samba de latada, Pra Não Morrer de Tristeza, de João Silva e K-Boclinho (este pegando carona na parceria). Também fez considerável sucesso, no Nordeste, Fulô da Fuloresta, outro samba de latada (João Silva/Geraldo Nunes). Sai do Sereno tinha um segredo. João Leocádio da Silva (Arcoverde, 1935/2013), o João Silva, o autor mais gravado por Luiz Gonzaga, sem ser creditado, era o dono da voz que cantava no LP.

A popularidade de Pra Não Morrer de Tristeza levou muita gente a tentar repetir o sucesso. Jacinto Silva, Osvaldo Oliveira, Ari Lobo, Elino Julião, alguns dos forrozeiros que enveredaram pelo estilo, que teve carreira curta. Em 1969, o forró descobria outro filão, o duplo sentido, agora como um modismo que tomou conta do país, e foi além dos limites do forró. Dos Golden Boys a Orquestra Som Bateau ou Jair Rodrigues, muita gente embarcou no duplo sentido.

 Reentra Josildo Sá, que gravou o primeiro CD, Virado Num Palitó Véio, em 1998. O segundo, Coreto, veio em 2003, este recheado de sambas de latada (das 12 faixas, sete são assinadas com Anchieta Dali). Com esses dois CDS, Josildo já delimitou seu espaço no forró, que finalmente passara a música de ano inteiro, não mais restrita ao ciclo junino. Eis que no caminho do forrozeiro que veio do sertão surgiu o paulista do interior (de São José do Rio Preto), Paulo Moura, um dos instrumentistas mais importantes da música brasileira. Moura andou pelo Recife nos anos 90, animando gafieiras chiques, produzida pelo festeiro Paulo Braz. Tinha, pois, afinidades com o Recife.

Ele e Josildo se conheceram, Paulo Moura ganhou os dois discos do forrozeiro, e apreciou o que escutou. Claro, com ressalvas, senão não seria o Paulo Moura, virtuoso e exigente. Josildo iria gravar o álbum Samba de Latada com Arlindo dos Oito Baixos (1942/2013), mas teve a petulância de convidar Paulo Moura para uma participação. Convite aceito. Paulo diria que o samba de latada lhe lembrava do son cubano, que tocava com o pai, quando adolescente nas gafieiras de sua cidade.

Foi assim que um estilo esquecido, considerado por muitos como um subproduto do samba, chegou aos mais ilustres palcos do pais, do Santa Isabel, ao Teatro Municipal do Rio. O disco Samba de Latada foi lançado em 2006. O estilo era ainda um ilustre desconhecido para os críticos do Sudeste (embora Ney Matogrosso tenha feito sucesso, em 1976, com Pra Não Morrer de Tristeza). Vários jornalistas escreveram que Paulo Moura estava levando a gafieira carioca para o forró, ignorando que o músico é que estava adentrando o forró de gafieira.

O disco Samba de Latada, que tem a sanfona impecável de Gennaro, teve indicação ao prestigiado Prêmio Tim, e virou turnê badalada. Seria o derradeiro trabalho que Paulo Moura levaria aos palcos. Ele morreria em 2010, aos 78 anos. Em 2018, Josildo Sá lançou o DVD Samba de Latada, gravado ao vivo em estúdio com, entre outros, Renato Bandeira, Maestro Formiga, Sérgio Cassiano (Mestre Ambrósio), mais o pai da matéria, João Silva, que entregou duas composições inéditas para o projeto, do qual foi um entusiasmado incentivador.

O documentário Samba de Latada realizado em Tacaratu, no sertão pernambucano (a cinco horas e meia do Recife), resume a história deste estilo, mas conta também como Josildo Sá, sem pretensão, entrou para a história do forró, em particular, e para MPB, no geral, em um inusitado trabalho com uma variante do samba cuja existência estava esquecida no Nordeste, e era ignorada no Sudeste.

 Mais samba de latada

Samba de Latada ao vivo – DVD de 2018

Abdias e seus Sambas de Sucesso (1971, CBS), coletânea de sambas de latada pinçada de discos de Abdias, que criou também o forró de brega.

Osvaldo Oliveira, Secretária do Diabo (CBS, 1967), É Caco Pra Todo Lado, com Jacinto Silva, (1968, CBS), Jogo do Amor, com Jacinto Silva (1969, CBS).

Elino Julião, Aquilo (1971, CBS)

Desses artistas pode-se encontrar apenas coletâneas. A quase totalidade do forró lançado nos anos 60 e 70 está fora de catálogo.

Na foto: Apolônio da Quixabinha e Josildo Sá, num still do doc

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