Ian Anderson volta com o Jethro Tull, num disco influenciado pela política, com referências bíblicas.

Ian Anderson, e banda, apresentaram-se no Teatro Guararapes, em março de 2013.  Quem esperava releituras do Jethro Tull surpreendeu-se. O concerto foi baseado em Thick As a Brick, de 1972, um clássico do prog rock dos anos 70, e na sequência desse disco, Thick as a brick II – whatever hapenned to Gerald Bostock?, lançada um ano antes. Porém Ian Anderson foi além de um show convencional. Fez um espetáculo, com interatividade, uso de tecnologia, um musical contemporâneo, sem nada de nostalgia.

23 anos depois do último álbum de inéditas com o Jethro Tull (em 2018, houve um álbum natalino) Anderson reuniu o grupo para gravar The Zealot Gene, um disco que também surpreenderá quem espera mais do mesmo do grupo. Os traços, detalhes, sotaque continuam, mas o Jethro Tull lançou o disco de estreia This Was, há 54 anos, muito águas se passaram. Embora as água sejam parecidas, não são as mesmas.  O Jethro Tull permanece fiel ao rock progressivo, contrabalanceado com folk inglês, mas acompanhou os tempos.

 Ian Anderson entende os fãs, sobretudo os que acompanham a carreira da banda por décadas.  Numa recente entrevista à revista Rock Cellar Magazine, ele comentou esta característica da maioria dos admiradores, sobretudo dos mais antigos: “Eles querem um álbum que soe como os álbuns preferidos que têm dos Rolling Stones, do Yes, ou do Jethro Tull. Querem um novo álbum velho do Jethro Tull. É difícil pra mim não soar feito o Jethro Tull, mas ao mesmo tempo introduzimos elementos musicais que eles nunca escutaram antes. Dá pra fazer as duas coisas, e deixar o pessoal feliz”.

Anderson confessa que não pensa no publico quando cria uma canção. Depois é que imagina como ela será recebida: “Nosso público é composto por gente de várias idades, diferentes formações, de preferências musicais diferentes. Tem uns que vêm o Jethro Tull como um grupo folk, neste disco tem canções acústicas que são meio folk na construção e na sonoridade. Já para os que consideram o Jethro como uma banda de hard rock, estes vão se decepcionar com as canções mais suaves e reflexivas, mas não se pode agradar a todos”.

Ian Anderson foi o único frontman do rock inglês nos anos 70, que se destacou tocando flauta, inclusive influenciando muita gente a aprender o instrumento (claro, várias bandas usaram flautas, Chris Wood, do Traffic, por exemplo), mas não como o instrumento que era a marca sonora da banda). Ele começou como guitarrista, com uma Fender Stratocaster que pertenceu a Lemmy Kilmister, que tocava ainda com The Reverend Black & The Rock Vicars: “Até os 19 anos, eu tocava guitarra. Então vi Eric Clapton tocando com os Blubreakers de John Mayall, e reconheci que o cara tocava infinitamente melhor do que eu. Depois ouvi Jeff Beck, Jimmy Page, Ritchie Blackmore. Descobri que a cena era de muita competitividade, e eu não me daria bem ali”. Assim ele trocou sua valiosa guitarra, um Fender vintage, por um flauta de 50 dólares. Segundo ele, o melhor investimento que fez.

The Zealot Gene chega próximo de ser um disco conceitual. É permeados por referências bíblicas, mas não é exatamente religioso. Começou a ser feito em 2017, foi feito durante os dois anos seguintes. Quando eclodiu a pandemia, ele concluiu o restante do repertório em isolamento social. Valeu de personagens e situações bíblicas para refletir sobre os tempos atuais, ou sobre o passado mais ou menos recente. Mrs.Tibbetts, refere-se à mãe de Paul Tibbetts, o piloto do avião que bombardeou Hiroshima em 1945.  Mas à frente ele cita possibilidades de fato conhecidos não aconteceram: “Se Pedro não tivesse se afastado/e se Judas não tivesse roubado aquele beijo/e se, e se o Enola Gay?” referindo-se ao avião que lançou a bomba sobre Hiroshima. The Zealot Gene sobre o ressurgimento do autoritarismo. O zelota é o seguidor de líderes, de direita, ou de esquerda, que obedece a uma ideologia, e são instrumentos de polarização da sociedade. A música surgiu no pior momento de Trump no governo dos EUA.  

Aos 75 anos, a voz de Ian Anderson não perdeu o brilho, é certo que ele evita forçar, canta mais suavemente. Tampouco perdeu o talento para belas melodias com mudanças bruscas de roteiro harmônico. Este é o primeiro álbum do grupo sem Martim Barre (que entrou em 1968), e também o primeiro com uma formação que não tocou no Jethro Tull, mas acompanha Ian Anderson já há alguns anos. O que não faz muita diferença. Ian Anderson é o Jethro Tull.  

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