Orlando Dias, pioneiro do brega, um pernambucano ignorado em sua terra

Hoje é o Dia do Brega no Recife, também data do aniversário de Reginaldo Rossi (1943/2013). O Rei do Brega demorou a aceitar ser adjetivado como tal. Só assumiu o título quando não tinha mais volta. A maioria de seus sucessos seguia o estilo que o consagrou: o iê-iê-iê, geralmente baladas românticas. Enquanto o brega veio do bolerão mexicano, lacrimosas cançonetas italianas do início do século vinte, e do passionalismo latino. Sua primeira grande onda aconteceu em 1960. Os principais ídolos: o fluminense Silvinho (1931/2019), o baiano Waldick Soriano (1933/2008), o também baiano Anísio Silva (1920/1989) e o pernambucano Orlando Dias (1923/2001). Quando a bossa nova de João Gilberto, e o rock and roll infanto-juvenil de Celly Campello eram os  ritmos do momento, estes quatro cantores foram campeões de vendagens. E tocavam país afora, tanto nas casas de família, quanto nos milhares dos cabarés espalhados pelo Brasil.

Cabaré em vários estados nordestinos era chamado de brega (que provavelmente vem de xumbregar. Xumbregava o casal que praticava contatos libidinosos). Como a música que tocava na zona era a de vozes na linha dos citados, acabou sendo adjetivada de brega. Desses quatro, apenas Waldick ainda é lembrado, certamente por causa de um doc , que retrata um personagem que, os que o descobriram, já no final de carreira, achavam que ele fosse.

Se o pessoal que escreve sobre o tema não imaginasse que o brega foi inventado por Odair José, é provável que Orlando Dias fosse nome de festival de brega pernambucano, ou uma escultura no Bairro do Recife, onde se localizavam os mais célebres cabarés da cidade até começo dos anos 80. José Adauto Michiles (tio do compositor J.Michiles), que os conterrâneos ignoram. Uma lacuna na grande maioria dos livros, teses de mestrados, e afins, que se escrevem sobre o brega.

Entre 1960 e 1965, foi um dos maiores vendedores de discos do país, e frequentador assíduo das paradas com bolerões, tangos, sambas canção, e de passionalismo e romantismo derramados. Mas era nas performances de palco que incendiava plateias, e insuflava a ira dos árbitros do bom gosto, mesmo assim copiado por muitos. Cinco anos antes de Roberto Carlos, Orlando Dias lançou um LP com o título de O inimitável Chegou a afirmar que o Rei também o imitava quando gravou, em 1968, Ciúme de Você (Luiz Ayrão) não por acaso no LP igualmente intitulado O Inimitável. Tenho Ciúme de Tudo (Waldir Machado), foi um dos maiores sucessos de Orlando Dias, há 60 anos.

“Minhas queridas fãs”, “Fãs do meu coração”, “Meu coração é de vocês”, “Devo o meu sucesso a todos os meus queridos fãs”, alguns dos bordões que Orlando Dias bradava durante as apresentações na TV, rádio, ou ao vivo em palcos patrocinados em festa populares. Para mostrar sua devoção aos admiradores, ajoelhava-se, abria a camisa, desabotoando-a, dramaticamente, rasgava paletós e lançava-o na plateia. Fazia o mesmo com lenços com que enxugava as lágrimas, quando exacerbava a emoção em determinadas canções, como Maior Amor da Minha Vida: “Tu és o maior amor da minha vida/tu és uma estrela guiando meus passos/nas horas boas/nas horas tristes/ minha querida/tu és o maior amor da minha vida”.

“O cantor que morre no palco” um de seus epítetos. Em junho de 1960, programa Parada Feminina, apresentado pela atriz Lourdes Mayer, na Rádio Tupi, depois dos obrigatórios salamaleques aos fãs, Orlando Dias canta mais um bolero de sucesso: “Você ainda há de chorar por mim”, mete a mão no bolso, saca um lenço, finge que chora, abre os braços, ameaça abrir a camisa. A plateia vai à loucura. Uma fã não gostou e mandou-lhe uns conselhos, através do Jornal das Moças (do Rio): “Meu caro Orlando, você causou tanta hilaridade, que eu cheguei a ter pena. Quer um conselho? Coloque suas mãos em posturas físicas educadas. Os gestos são apropriados para cantores líricos e, mesmo assim, são comedidos”.

Contenção de gestos e de tons altos não constava no cardápio que Orlando Dias servia às suas adoradas fãs. E trafegava na contramão da contida e sofisticada bossa nova, que tornou démodé o bolero, o samba canção e a interpretação arrebatada. Era de bom tom o cantar intimista, exigia-se um fiozinho de voz. Não para Orlando Dias, que lançava, em 1960, Tu Hás de Pensar em Mim, o segundo naquele ano. O LP emplacou vários sucessos, os boleros Nunca Mais, e Espera Um Pouco Mais, O Que me Importa (todas de Waldir Machado).

 Nesta última, antecipa-se a Odair José, lixando-se para o que digam sobre a mulher ama: “Que me importa que outros digam que te quero/que me importa que outros falem mal de ti/o eu me importa é ser teu amor sincero”. Bolerões assim o tornaram um dos mais populares artistas do cast da Rádio Nacional, e o mais vendedor da Odeon. No citado Jornal das Moças, um comentário sobre o astro pernambucano: “Bossa nova de cantor é o que tem feito Orlando Dias em todos os auditórios. Ele faz uma porção de coisas enquanto está no palco. Até canta”.

CARREIRA

Quando estourou no Brasil no começo da década de 60, Orlando Dias já estava com muitos anos de estrada. Começou ainda de calças curtas, com um conjunto vocal mirim, A Turma dos Onze (o onze, pela idade dos integrantes). Apresentavam-se por dinheiro, em troco de comida, em reuniões famílias, clubes sociais. Em 1940, estava na Rádio Clube como parte do Conjunto de Anjos Rebeldes. Tentou lançar-se como cantor, mas foi gongado, interpretando uma valsa. O público protestou, ele voltou a cantar a mesma música e ganhou o primeiro lugar. A família, no entanto não via com bons olhos sua inclinação pelo rádio. O pai, que trabalhava na alfândega o queria também funcionário público.  Certamente profissão mais estável do que de cantor, no Recife, onde, até 1948, só havia uma emissora, a Rádio Clube, e nenhuma possibilidade de gravar um disco (a Rozenblit só seria criada em 1954).

“A minha vida no rádio, em Pernambuco, foram dez anos de esforços perdidos, tive que vencer a resistência da família para conseguir mudar-me para o Rio em busca de uma carreira sólida”, o comentou, numa longa matéria na Revista do Rádio, em 1954, já relativamente famoso, mas ainda distante do auge. Quem continua no auge ainda era o rádio, cantores e cantoras eram disputados a peso de ouro, a concorrência entre eles era igualmente grande.

Orlando Dias sobressaiu-se pela performances histriônicas, que levavam cronistas a duvidarem de sua masculinidade (ele casou jovem e enviuvou cedo). Quando, em 1967, apresentou, na TV Excelsior o programa A Hora do Sino, ao lado de Ary Leite (ocupando o horário vago com a saída de Chacrinha da emissora), na revista O Cruzeiro publicou-se o comentário maldoso: “Seus animadores são o que existe de pior em matéria de loucura em televisão. Mil vezes o Chacrinha com suas baboseiras. No primeiro programa Orlando Dias ficou muito empolgado e mostrou que o lugar ideal é mesmo Petrópolis. Lá não faz calor. É mais fresco.”. O pernambucano não tinha limites no palco. Às vezes fingia chorar, mas outras vezes desmaiava de verdade.

Ele foi contratado da Odeon (chegou a grava alguns 78 rotações pela pernambucana Rozenblit, nos anos 50), durante mais de 15 anos, mesmo que os sucessos tenham minguado por volta de 1968, com a mudanças de gosto do público. Seu último sucesso nacional foi Com Pedra na Mão (parceria com Maury Câmara), já num estilo mais apelativo, feito Eu Não Sou Cachorro Não, de Waldick Soriano (que não costumava compor músicas neste nível).

Quando morreu, em 11 de a gosto de 2001, aos 78 anos, em consequência de mal de Parkinson, segundo informou a família, Orlando Dias estava esquecido. A imprensa deu obituários. Somente no Jornal do Brasil foi lembrado como “O primeiro rei dos bregas”.     

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