Oswald de Andrade e Chico Buarque abalaram o teatro brasileiro nos anos 60

Anúncio de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade (grafado “Oswaldo), mas não da estreia da peça no Recife, o que aconteceu no Santa Isabel, em 1968, depois de toda badalação de que foi alvo, no Brasil e na gringa. Esse anúncio (ou tijolinho no jargão jornalístico) é de 1971, quando Zé Celso aportou por aqui com três peças de uma só tacada, todas as polêmicas, O Rei da Vela, Os Pequenos Burgueses, de Máximo Gorky, e Galileu Galilei, de Bertolt Brecht.

O Rei da Vela voltou com algumas modificações. A montagem original tinha música do maestro Damiano Cozzella. A de 1971 foi acrescida de um viés tropicalista, com música de Caetano Veloso, e do maestro Rogério Duprat.

É provável que tivesse sido encenada antes O Rei da Vela não tivesse tanto sucesso de crítica e público, e fosse tão picotada pela censura. Em 1965, Alfredo Marques Viana, da Edições Tempo Brasileiro, decidiu se dedicar também ao teatro. O TB Teatro prometeu estrear com a primeira montagem nos palcos de O Rei da Vela, que Oswald de Andrade escreveu em 1933, onze anos, depois, da Semana de Arte Moderna. A peça seria dirigida por Luiz Carlos Maciel (um dos fundadores de O Pasquim e, em 1972, da edição da Rolling Stones brasileira. Mas O Rei da Vela continuou inédita.

Em maio de 1967, Zé Celso Martinez anunciava que o Teatro Oficina, reconstruído depois de ter se incendiado em 1966, reabriria com uma montagem de O Rei da Vela. Que gerou admiradores e desafetos. Mas não tanto quanto Roda Viva, de Chico Buarque, também dirigida por Zé Celso. Roda Viva chegou a ser anunciada no Recife. Em 6 de outubro em Porto Alegre repetiu-se o massacre acontecido em São Paulo, com grupos anticomunistas agredindo de várias formas os atores e pessoal da produção, que retornou no dia seguinte para São Paulo. Em 18 de outubro Roda Viva foi proibida em todo o território nacional.

A canção Roda Viva composta para a peça, dirigida por Augusto Boal, em 1968, seria antecipada, e inscrita no III Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record. Roda Vida, defendida por Chico Buarque e o MPB-4 ficou em terceiro lugar (atrás de Ponteiro, de Edu Lobo e Capinam, e de Domingo no Parque, de Gilberto Gil). As canções do festival chegavam às lojas, em compactos, se fossem classificadas nas eliminatórias.  Os disquinhos chegavam rapidamente às emissoras de rádio, e tocavam muito. Se conseguissem entrar na final, independente da classificação eram incluídas no LP da finalíssima.

Roda Viva quase que repetiu a Banda (campeã do festival em 1966, com Disparada de Geraldo Vandré e Theo de Barros), foi um imenso sucesso. A expressão já existia, mas virou, como se diz agora, “trend”. Onipresente na imprensa, no cotidiano das pessoas. Com a peça passou a estar também na cabeça dos militares, e de grupos paramilitares de direita. Acrescente-se a isto que Chico Buarque já não era muito bem visto pelo regime. Até então por pecadilhos. Foi acusado de apoucar um dos heróis da farda, o Almirante Tamandaré, no samba Tamandaré, inspirada pelo nota de um cruzeiro que estavam a efígie do almirante. A música foi censurada em 1965. No ano seguinte, o estrondo sucesso da banda levou a que ele fosse adotada por bandas militares. E Chico não autorizou.

Roda Viva não tinha viés explicitamente político, mas sua montagem era agressiva, recheada de impropérios. A censura ficou de olho. O elenco foi agredido ferozmente por extremistas de direita em São Paulo, e em Porto Alegre (os integrantes voltaram no dia seguinte para São Paulo de ônibus). No Recife, em maio de 1968, lotaram a Igreja do Rosário dos Pretos, em Santo Antonio, para atender a uma missa pela alma do estudante secundarista Edson Luís, assassina no restaurante O Calabouço, no Centro do Rio. Quatro deles foram presos. Não por gritarem o slogan mais popular da época, “Abaixo a ditadura”, mas por cantarem o Hino Nacional e Roda Vida durante a cerimônia, e depois quando saíram em passeata pela Avenida Nossa Senhora do Carmo. Os universitário foram detidos por policiais militares, que consideram que estavam sendo infligidos artigos da Lei de Segurança Nacional, por três infrações que não eram ilegais: assistir missa, cantar o Hino Nacional, Roda Viva, cujo autor era um dos artistas mais celebrados do país. A música não estava censurada, nem nunca foi.

Anunciou-se que a peça seria apresentada no Recife. Não foi. Roda Viva foi proibida em todo o território nacional em 18 de outubro de 1968, dez dias depois da agressão ao elenco em Porto Alegre.

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