Castro Alves poderá deixar de ser nome de rua em Olinda, pela política do cancelamento

Não é sensato julgar pessoas e acontecimentos históricos sem a devida contextualização. Em Olinda fala-se em trocar nomes de ruas, praças, prédios públicos e afins, batizados  em homenagem a personagens com máculas na biografia, sobretudo, quem foi escravocrata. Doravante, será escrutinado o passado de pessoas candidatas a este tipo de homenagem.

 Por esta linha de raciocínio, a prefeitura vai precisar tomar um volumoso empréstimo pra trocar placas., porque serão muitas. Uma das ruas que ganharão placa nova é a Castro Alves, em Águas Compridas.
O baiano Antonio de Castro Alves (1847/1871), morou no Recife entre 1863 e 1865. Veio pra cá estudar direito. Literato, culto, polêmico, pela catilinária a favor do abolicionismo. Ficou conhecido como “O Poeta dos Escravos”.

Naquela época, quase todo moço fidalgo tinha um criado para cuidar das suas necessidades e afazeres pessoais. Esses criados, geralmente eram escravos. Castro Alves era um moço fidalgo, logo, tinha um criado. O criado de Castro Alves era escravo.
É o que se deduz do recorte de jornal que ilustra a postagem. Ele foi pinçado da sessão, no Diário de Pernambuco, em que se publicava a lista de passageiros que desembarcaram no Recife. Este se refere a dia 21 de maio de 1865. Da lista consta o nome de Antonio de Castro Alves, e 1 um escravo. Provavelmente vinha de Salvador para retomar o curso na Faculdade. Talvez fosse um homônimo que viajasse com um escravo, mas é pouco provável.

 O nome de Castro Alves estava constantemente nas páginas dos jornais do Recife. Esteve, por exemplo, por mais de um mês, num anúncio pago pelo locatário de uma casa que alugou nos Coelhos. O anúncio avisava que enquanto o acadêmico Antonio de Castro Alves não saldasse seu débito do imóvel que alugou na Rua dos Coelhos, seu nome continuaria saindo no jornal. Saiu durante vários dias. A novela acabou quando o fiador mandou publicar um anuncio no Diário de Pernambuco, confrontando o locatário. Deu rolo entre os dois. O fiador pagou,  e Castro Alves saiu bem na fita.

Contextualize-se também o mau pagador. Castro chegou ao Recife com 16 anos incompletos, deve ter alugado a casa, com 17. Quando é citado acompanhado de 1 escravo estava com 18 anos. Ele é um personagem do seu tempo e circunstâncias. Caso viesse estudar no Recife em 2022, talvez ficasse devendo o aluguel. Mas não teria criados, muito menos escravo. São outros costumes, outros modos, outra sociedade.

Um comentário em “Castro Alves poderá deixar de ser nome de rua em Olinda, pela política do cancelamento

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  1. Grande matéria, José Teles. O contraditório existente em nós, humanos!

    Castro Alves, o grande abolicionista, servia-se de escravo para ajudá-lo na lide. Mas isso não o afastava da luta por ver os escravos livres.

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