Orquestra Malassombro injeta sangue novo no frevo de bloco, sem mexer em sua estrutura

A primeira coisa que me chamou atenção no álbum Orquestra Malassombro, primeiro do grupo homônimo, lançado nessa sexta-feira, 18 de fevereiro, foi que eles cantam e tocam frevo de bloco como deve ser tocado. Já há alguns anos o frevo de bloco, nos moldes formatados por Nelson Ferreira, em 1956, com Evocação, incorpora cada vez mais a marcha rancho carioca. Aliás, o maior sucesso do repertório dos chamados blocos líricos, depois de Evocação, é Turbilhão (Victor Simon/David Raw), lançada por Moacyr Franco em 1979. De melodia inegavelmente bonita, é provavelmente a letra com mais metáforas na música brasileira.

Outras marchas rancho também foram incorporadas ao repertório de marchas de bloco do carnaval pernambucano, Máscara Negra (Zé Kéti/Pereira Matos), e A Noite dos Mascarados (Chico Buarque). São clássicos, mas não são frevos de bloco, nem são interpretados como tal. Pelo contrário, os frevos de bloco estão sendo cantados como marcha rancho. Não neste álbum da Orquestra Malassombro. A faixa de abertura Me dê é a irresistível composição de Martins (que a interpreta), porém com roupagem de frevo de bloco. A música já é um grande sucesso, se tocar no rádio vira hit nacional.

A OM tira também do frevo de bloco a nostalgia, e melancolia que também vêm de Evocação (que o pessoal costuma chamar de Evocação nº 1). Os blocos carnavalescos dos anos 20 não ecoavam tristeza pelas ruas do Recife. Pelo contrário. Basta lembrar dos nomes de dois deles, Apois Fum e Ratos Cinzentos. O Apois Fum é corruptela de “Apois, sim”, pronunciada por um matuto, ou fanho. Também os títulos das marchas dos blocos acompanham a alegria da festa de Momo. No Carnaval de 1922, um século atrás, pois, o Quintandeiras do São José saíram às ruas cantando, entre outras Se Eu Não Sair Ninguém Repare, As Proezas de Filó ou Paulina, Olha o Buraco.

A gréia faz parte da música da Orquestra Malassombro. Em Amargo Regresso: “Amargo regresso/voltando pra casa/depois de um dia inteiro subindo ladeira/descendo ladeira/ com o sol na cabeça/ levaram minha carteira, levei uma carreira, perdi a sandália/ e aquele relógio que eu tanto gostava”, versos que estão mais próximos da realidade do carnaval do século 21. Mas há espaço para o lirismo, como em Inspiração de um Carnaval, interpretada por Monica Salmaso e Rafael Meira (autor da música, que tem participação incidental de Teco Cardoso, marido da cantora). Curiosamente esta é a faixa que mais se aproxima do que se entende por MPB e da marcha rancho. Bem diferente da faixa seguinte, Carnaval Malassombrado (Guitinho de Xambá) com participação do grupo Bongar, um frevo de bloco bem humorado, com uma segunda parte que lembra a melodia de Bloco da Vitória (Nelson Ferreira, 1958).

Aliás, Nelson Ferreira inspirou Evocação 2100. Aberto com Mozart Ramos (autor da música) anunciando a canção, o autor, gênero e intérpretes, feito se faziam nos discos da Casa Edison, no início do século 20 (a voz que anunciava era de Carlos “Nozinho” Vasquez), citando gente que fez o frevo num passado distante: os maestros, Duda, Forró ou Spok, Clóvis Pereira, Ademir Formiga, e interpretes Claudionor Germano, Expedito Baracho, Alceu Valença e Antúlio Madureira, Edson Rodrigues, Getúlio Cavalcanti e Hugo Martins, e grande elenco. Uma melodia que evoca melodias conhecidas, com temática saudosista e bem humorada. Outra que recorre à nostalgia e ao lirismo é Boêmio Sentimental.

São 14 faixas, apenas uma instrumental, Fantasia Sobre os Blocos, que tem participação do trompetista Silvério Pontes. Orquestra Malassombro é um disco de colaborações. As composições têm várias assinaturas. PC Silva é autor de Carnavais na Aurora, Juliano Holanda fez Amargo Regresso e Pra Despertar Vulcões (parceria com a cavaquinista Maira e a bandolinista Moema Macedo) Frevo de Inverno é de Vinicius Barros.

As canções são cantadas por um coral, formado por Isadora Melo, Clara Torres, Sonia Cristina, Sue, Audrey Nunes, Rafael Meira, José Demóstenes com abertura para interpretações solo e em dupla. Em Anarquia a voz é de Tonfil, Carnavais da aurora é cantado por Clara Torres e PC Silva, Resta Sorrir, que fecha o disco, tem Zé Manoel e Isadora Melo, numa das mais belas composições do álbum, recriando o clima de Aquela Rosa, um folião e folia no meio da folia, só que no Bairro do Recife, com citações do Marco Zero, Rua Tomasina, Cais do Alfândega, cenários de um amor de carnaval. Outro clima assemelhado está em Marli, este um frevo canção.   

Gravado no estúdio Muzak, o álbum tem produção do músico Rafael Marques, que também assina os arranjos. (O projeto é uma parceria com a produtora Página 21, viabilizado por edital do Funcultura). A Arte é de Vladimir Barros. Um disco que estava pronto, com músicas testadas diante do público, quando irrompeu a pandemia. Por outro lado a parada serviu para se aprimorar as músicas, arranjos, interpretações. Feito durante a pandemia, seguiram-se os devidos cuidados sanitários. Os instrumentos, por exemplo, foram gravados um de cada vez. As canções têm acompanhamento de pau e corda. A única exceção é a sanfona, tocada por Júlio César em várias faixas, uma delas é Fantasia Sobre os Blocos.

Um trabalho impecável que revitaliza o frevo de bloco, retoma o humor dos anos 20, faz o gênero falar a linguagem de hoje, mas sem experimentações harmônicas ou sonoras que lhe mexam na estrutura, sem acrescentar informações relevantes. Um disco que deve, e merece, ser conferido por quem gosta de frevo ou de boa música.

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