Curto e Grosso (crônica): Qual a árvore que dá peixe?

 “O essencial é invisível aos olhos”, acho que é assim a frase em O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, que li criança, sem tirar minhas conclusões. Era um livro que se dava pra ler, e se queria saber o que se extraiu dele. Não extrai nada. Aliás, esse foi um livro que nunca frequentou minha estante. Nada contra. E nem sei por que comecei esta conversa mole citando O Pequeno Príncipe, que já foi o preferido das candidatas à miss, que sobreviveram a O Pequeno Príncipe. Concurso de miss só perde em relevância pra BBB.

Queria falar sobre uma data que passou em branco, pelo menos não me recordo de nenhuma citação na imprensa. Nesse dia 17 de fevereiro completaram-se 146 anos de uma das invenções mais importantes para a humanidade: a sardinha em lata. Aliás, um dos mais importantes legados dos americanos ao mundo. Foi um americano chamado Julius Wolff que inventou a sardinha em lata no estado do Maine, que foi, até uns poucos anos atrás, o centro desta indústria nos EUA. Não sei o que tem o trabalho em fábrica de sardinha enlatada com a profissão de manicure, mas em ambas as labutas há o predomínio de mulheres.

Elas ficavam em East Port, no Maine, em suas casas cuidando dos afazeres. Quando soava um apito longo e agudo, paravam, tudo e corriam pra fábrica. O apito avisava que os barcos pesqueiros com sardinhas chegaram ao porto. Mais ou menos como se diz que acontece nas favelas, perdão, comunidades, quando chegam as drogas. O pessoal solta fogos, ou atira pro alto, pra avisar. Daí era pegar as sardinhas, cortar a cabeça e o rabo, e colocar nas latinhas, que na etapa seguinte eram lacradas. Aliás, assim como a do bacalhau, cabeça de sardinha em lata é mais difícil de ver do que rapariga de óculos.

Quando as sardinhas começaram a ser enlatadas eram artigo de luxo. Servidas em bares requintados como petisco. Uma época em que lagosta era peixe que se servia aos porcos, ou seja faz tempo. Sardinha só me lembra de Portugal, e do tempo em que o Centro do Recife era um lugar decente. Vez por outra, aos sábados, a gente ia ao Galo de Ouro, na Camboa do Carmo, entornar umas cervas com sardinhas assadas. No Centro havia vário restaurantes portugueses. Foram sumindo, aos poucos. Hoje acho que não tem mais nem vendedor de figo de alemão.   

 O que seria de nós, sem queda pra chef de cozinha, nem pra cozinha, não fosse a sardinha em lata? Parafraseando Vinicius, a sardinha em lata é o amigo enlatado do homem. Se chega em casa com fome. E lá está a lata de sardinhas. Abrimo-la e descortina-se uma janela para infinitas possibilidades, do sanduíche, ao reforço da macarronada (o único bregueço que sei fazer, com molho pronto, claro). A sardinha enlatada me leva de volta à infância. Tempo de pulha, ou puias, como se falava. Uma pergunta de resposta engraçada. Qual a árvore que dá peixe? A resposta: Coqueiro, a marca mais famosa de sardinha enlatada.  

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