The Beatles 60 anos (4) – A importância de disquinhos obscuros na música da banda

Um dos grandes sucessos do Renato e Seus Blue Caps foi Meu Bem Não Me Quer (do LP Um Embalo com Renato e Seus Blue Caps, 1966). A música é uma versão de uma obscura banda de garagem de Greenwood, Mississipi, The Gants. A turma da jovem guarda recorria aos discos que as matrizes das gravadoras mandavam pras filiais brasileiras, que se amontoavam em discotecas, ou iam pra divulgação. Por isto a quantidade de canções que recebeu versões em português, e roupagem iê-iê-iê sem ter nada a ver com rock and roll. Um bom exemplo é Goodnight Irene, do repertório de Huddie Leadbetter, ou Lead Belly, que acabou virando Boa Noite Meu Bem, sucesso de Wanderléa, em 1966. Foi assim que The House of the Rising Sun ficou conhecida no Brasil como A Casa do Sol Nascente (versão de Fred Jorge), na potente voz de Agnaldo Timóteo.

Com os Beatles aconteceu coisa parecida. Eles importavam  muitos discos dos Estados Unidos, davam preferência a catálogos de pequenas e obscuras gravadoras. Até Help, sempre incluíam regravações. Larry Williams (Bad Boy) e Arthur Alexander (Anna), ídolos do quarteto, passaram do sucesso paroquial para nomes nacionais depois de serem gravados pelos Beatles. Muito da música do grupo tem a ver com esses disquinhos. Um dos preferidos de John Lennon (na foto, de1969, com Yoko, na casa de Paul) era um compacto do grupo Rosie and The Originals, com Angel Baby e Give me Love (1960). A primeira emplacou um quinto lugar nas paradas. A segunda para um ouvinte comum seria um desastre. Pra devolver o disco à loja. Tem momentos em que a voz de Rosie Hamlin desaparece, e só se escuta a guitarra base. Há um descompasso no volume. Em trechos precisa-se de fazer esforço pra escutar a band. O baterista parece perdido. =É vanguarda sem intenção.

Give me Love iria influenciar uma das mais experimentais lucubrações dos Beatles no final da banda, a escalafobética You Know My Name (Look Up the Number). Um piano em compasso de rhythm & blues, toca quatro acordes, Paul McCartney irrompe, com um voz impostada, com um You Know My Name (Look Up the Number), súbito entre o ritmo de chá-chá-chá, Paul volta a cantar o título da música (que também é a letra completa), os ritmos sucedem-se com Lennon ou McCartney emitindo sons incompreensíveis. A versão que foi lançada como lado B do compacto com Let it Be, em 1970, tem pouco mais de quatro minutos, o que é longo prum compacto. A versão completa passa dos seis minutos (foi lançada na série Anthology 2).

O envolvimento com gravação, com as novas sonoridades extraídas dos estúdios, desde que abandonaram os palcos, e o sucesso popular, permitia que o quarteto se deixasse levar por experimentações que outros grupos não ousariam incluir em disco. A intenção seria lançar You Know My Name (Look Up the Name) num compacto com What’s the News Mary Jane? canção assemelhada, em que a letra se resume a “What a shame Mary Jane had a pain at the party       (“Que vergonha, Mary Jane Sentiu uma dor na festa”). A EMI achou que uma era aceitável, mais duas passavam do demais.

Em 1969, em entrevista John Lennon citaria Angel Baby, de Rosie Hamlin, como uma de suas canções favoritas (ele a gravaria para o álbum Rock ‘n’ Roll, de 1975), mas a música só seria lançada em Menlove Avenue (1986). Com seu único hit, Rosie (filha de pai mexicano, nascida no Alasca) conseguiu atrair admiradores como o Led Zeppelin, que a cita na contracapa do álbum Houses of Holy (1973), com a pergunta: “O que aconteceu a Rosie e Os Originais? É citada pelo grupo também na letra de How Many More Times? (do álbum de estreia, de 1969).

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