Armando Lôbo reprocessa os sertões em Veneno Bento

 Armando Lôbo é um dos compositores pernambucanos contemporâneos mais premiados, paradoxalmente, um dos menos conhecidos. Seu trabalho não é fácil. Sobretudo numa época que o brega e o popularescos são exaltados, embotando o gosto do consumidor de música, levando-o a ter dificuldades de digerir canções um pouco mais complexas. Entrevistado, em 2011, sobre o disco Técnicas Modernas do Êxtase (para o extinto caderno de cultura do Jornal do Commercio) Lôbo adiantou suas pretensões: “Já fiz tanta coisa em música, que agora quero gastar meus conhecimentos com uma coisa nova. Pretendo fazer uma música experimental e erudita, com referências cruzadas”. Intenção que manifestou no disco citado, em que imprimiu referências que iam de Thomas Mann, de A Morte em Veneza, ao bizarro poeta mineiro Conde de Belamorte, pouco conhecida versão literária de Zé do Caixão.

Em junho de 2021, Armando Lôbo lançou, no Youtube, a micro-ópera Último Dia cujo leitmotiv é o frevo de rua homônimo, de Levino Ferreira (1890/1970), considerado o mais belo do gênero. Último Dia é uma produção audiovisual com referências a Freud, Nelson Rodrigues, Ingmar Bergman, Bakhtin e Antero de Quental. (confiram em youtube.com/c/ArmandoLôboMusic).

Dias atrás, Armando Lôbo fez uma live no youtube para divulgar o álbum, também audiovisual, Veneno Bento, que contou com participação da dupla de repentistas Antonio Lisboa e Edmilson Ferreira. Os dois violeiros, entre os melhores de sua geração, não estiveram no vídeo como uma tirada aleatória de Lôbo.

 Veneno Bento tem o sertão como inspiração e tema, incluindo no repertório A Morte do Vaqueiro, um baião da trilha da Missa do Vaqueiro, assinado por Nelson Barbalho e Luiz Gonzaga. Mas a Morte do Vaqueiro, assim como o baião de viola de Edmilson Ferreira e Antônio Lisboa, na live, são pontos cardeais no mapa da música nordestina que Armando Lobo compôs para Bendito Veneno. Ele não adentra apenas o sertão, mas os sertões.

Armando circulou pela música pop no inicio da carreira, com o grupo Santa Boêmia, na época que se começava a sentir os eflúvios vindos do mangue, fez doutorado em composição na Universidade de Edimburgo, na Escócia, é professor do Conservatório Brasileiro de Música, entre outras funções que exerce. Nele o popular e o erudito se entrelaçam nos, aparentemente, antagônicos modos de fazer música. Em Veneno Bento, o compositor tornara difusa a fronteira entre o show e o concerto, gravou um álbum com parte do repertório composto de canções, e outra parte de peças para orquestra.

CANÇÕES

Sertão Sartori, que abre o disco, é um baião, no qual  combina simbolismo religioso hindu com uma imagética sertaneja. A melodia claro, se pauta por exclusivos caminhos harmônicos. Um eletrobaião, de letra compatível: “Correndo na mata/assum preto mudo/sem olhos, nem asas/novilho corcundo/imundo Sidarta/vagando no mundo/no mundo, êêê ôôô”; A cantora Luiza Fittipaldi, uma das melhores vozes da nova geração pernambucana, mostra seu ecletismo cantando com Armando na faixa A Fera do Sol, que tem ecos do vanguardista Arrigo Barnabé que, 40 anos atrás, levava aos palcos harmonias assemelhadas e tempos a que plateias de MPB estão pouco afeitas.

Mas são outras eras, e a música de Armando Lôbo é a escola do eu sozinho. Ele vem trilhando esta estrada há tempos. Ano que vem completam-se duas décadas da estreia solo, o álbum Alegria dos Homens). Lobo surpreende em Veneno Bento pela retomada da canção, não exatamente tradicional. O que acontece, por exemplo, em Abismo, Disparo e Incelenças (as duas últimas com participação de Surama Ramos), ambas embasadas na música sertaneja (entenda-se: dos sertões, nos dias atuais conspurcadas por breguices que usurpam a etiqueta forró). A primeira Armando classifica como aboio psicodélico, com inspiração na poesia de Ariano Suassuna. Enquanto Disparo é um xote, em que a letra segue a metrificação rígida empregadas nas modalidades da cantoria de viola. Já Incelenças adentra o campo branco do baiano Elomar, o da chula de terreiro. A composição é do paulista Luciano Garcez.

A partir daí entra a música de concerto, quatro temas, Aboio e Disparada, Tocaia, Hubris Cabocla, e Alquimia da Zabumba. A primeira reúne influências do húngaro György Ligeti em Aboio, enquanto Disparada, contém influências de Villa-Lobos e do compositor russo Alfred Schnittke, Tocaia e Hubris Cabocla. Daí, Armando Lobo alcança o DNA da música popular nordestina, as bandas de pífanos. Em Hubris Cabocla combina 2 pífanos com 2 violoncelos, baixo, trombone e percussão. Já em Tocaia, flauta, acordeom, violino e violoncelo, “uma alucinação sonora” (segundo o compositor), que fantasia os últimos momentos de Lampião e seu bando. Poderia ser uma encomenda de Gláuber Rocha para o final de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964, musicado por Sérgio Ricardo).

O álbum é fechado com uma experiência eletroacústica, Alquimia da Zabumba, com os sons do instrumento, e de bolas de gudes. Veneno Bento é uma forma original de fazer a música tradicional do Nordeste sem concessões. Um disco que pede mais de uma audição para ser devidamente assimilado. A cada uma, descortinam-se sonoridades e possibilidades.

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