Eleição presidencial na Quarta-Feira de Cinzas

Imaginemos que estamos em tempos normais, o carnaval acontecerá, como acontece praticamente desde que o país foi descoberto. Só que não será feito os carnavais anteriores. Como assim? Ora, na quarta-feira de cinzas, com muito gente ainda insistindo em brincar, é um dia em que se exige um dever cívico a todos cidadãos e cidadãs. Votar para presidente.

Foi isso que aconteceu há um século, o Carnaval de 1922 transcorreu em clima de refrega política. Entregues a Momo, muita gente não queria saber de eleição, a não ser pela marchinha Seu Mé, o maior sucesso do carnaval do centenário: “O doutor Arthur Bernardes foi entronizado como o Rei do Carnaval e Imperador da Pândega. A cerimônia de coroação verificou-se no sábado. O Jornal do Brasil, à meia-noite, fez soar a sirene ensurdecedoramente. Todos os foliões guardaram um silêncio religioso. As atenções voltaram para o término dos silvos formidáveis. Daí a pouco a sirene calou-se.

O povo que enchia avenida ele aos ares o atroante Seu Mé. Foi um verdadeiro delírio. Os automóveis buzinavam e as quadras populares e hinos saíam de todas as bocas. A polícia assistia serena a glorificação do maior dos foliões. Seu Mé foi entoado em todas as ruas, avenidas, casas de famílias e hotéis”.

Mas como se marca uma eleição presidencial para uma quarta-feira de cinzas? Pela Constituição vigente na época,  no artigo 48, estipulava-se que a eleição presidencial se fará no dia 1º de março. Se ela se fizer no dia 2, será nula. A disputa entre o mineiro Arthur Bernardes versus o fluminense Nilo Peçanha foi polarizada, com fake news (surgiram várias cartas falsas atribuídas a Arthur Bernardes). Pernambuco apoiou Nilo Peçanha, com Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro.

Nas cidades em que aconteciam os dois grandes carnavais do país, Recife e Rio, Seu Mé foi a marchinhas mais cantada pelos foliões. Composta Por Freire Junior e Careca (Luiz Nunes Sampaio), a música disseminou-se pelo país, infernizando os comícios e demais aparições públicas de Arthur Bernardes.  O “Seu Mé” foi adaptado a outras músicas das quais fizeram-se paródias. Bem antes de ser gravada por Baiano gravá-la  na Odeon.

Quando Arthur Bernardes iniciou a campanha, enfrentou o povo na Avenida Rio Branco, Centro do Rio. Considerava estar diante de uma plateia hostil. E estava. Depois de instantes de silêncio, a multidão irrompeu num coro só: “Ai, Seu Mé, Mé, Mé/Lá no Palácio das Aguias, olé/não hás de por o pé”. O “Palácio das Águias” era como também se chamava o Palácio do Catete. Arthur Bernardes teve o seu momento mais constrangedor da campanha. Eleito passou a infernizar as vidas de Freire Junior e Careca. O primeiro era mais conhecido, autor do clássico Malandrinha,  dezenas de canções populares nos anos 20 e 30, ficou marcado pela polícia, de vez em quando era levado a uma delegacia. Careca sumiu do Rio pra só voltar quando achou que o episódio estava esquecido. Não ficou esquecido. A marchinhas Ai Seu Mé teve diversas regravações. Agora votar numa Quarta-Feira de Cinzas, não é mole.

A letra de Ai Seu Mé (reproduzida do site immub.org)

O Zé-povo quer a goiabada campista
Rolinha, desista, 
Abaixe essa crista
Embora se faça uma bernarda [sinônimo de revolta em Portugal e brincadeira com o sobrenome do presidente] a cacete
Não vais ao Catete!
Não vais ao Catete!
 
Aí, seu Mé! Aí, Mé Mé!
Lá no Palácio das Águias [refere-se ao Palácio do Catete que tem suas fachadas adornadas por águias de metal], olé,
Não hás de pôr o pé (bis)
 
O queijo de Minas está bichado, seu Zé.
Não sei porque é, não sei porque é.
Prefira bastante apimentado, Iaiá,
O bom vatapá, o bom vatapá [refere-se ao político baiano Seabra, vice na chapa do candidato Nilo Peçanha].
 
Aí, seu Mé!
Aí, Mé Mé!
Lá no Palácio das Águias, olé
Não hás de pôr o pé

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