Isadora Melo em EP de canções ternas e autorais

Precisa-se realizar o levantamento dos discos lançados durante o período mais pesado da pandemia. A princípio, os artistas viram-se obrigados a engavetar projetos prontos, ou em andamento, prestes a serem lançados. Quando o isolamento estendeu-se, sem que ninguém tivesse uma ideia de quando as restrições seriam suspensas, o que se sabia era tão somente que o vírus permanecia uma ameaça invisível pairando no ar.

 Aconteceu assim com Isadora Melo, que produzira um disco em 2018, intitulado Anagrama aguardando o momento certo para entregá-lo ao público. Veio a polarização política, o governo que assumiu em 2019 escancarou que não aprovava as políticas e ações culturais praticadas até então no Brasil. Um momento de perplexidade compartilhado pela classe artística. O recolhimento em casa por causa da pandemia acabou impulsionando a criatividade de músicos, compositores e intérpretes. Por volta do outubro de 2020, discos catárticos foram sendo lançados virtualmente. Muitos, mundo afora.

Com Isadora Melo não foi diferente. No seu caso, não foi a pandemia apenas que a impulsionou a gravar mais um disco de inéditas, e sim o fato de ter sido mãe, sobretudo num período tão inusitado. Duas das canções do EP foram compostas para Sereno, o filho: Corpo de Uma Flor, e Como o Sol da Manhã. Ter um filho num momento desses é como parir em meio a uma guerra. O instinto materno torna-se ainda mais forte. Ironicamente o EP foi lançado em janeiro, um mês depois o mundo se vê envolvido numa guerra de verdade. Sereno ganhou dois acalantos otimistas.

Uma das vozes mais incensadas da nova geração pernambucana, Isadora Melo faz seu primeiro trabalho autoral recorrendo ao mesmo instrumental do álbum de estreia Vestuário, de sete anos atrás. Além dos dois acalantos para o filho, ela incorpora brejeirice maliciosa Azeite, Limão e Sal: “Tudo fica mais gostoso/se eu fico do seu lado/eu e tu feito um casal/azeite, limão e sal/não tem como dar errado”, acrescenta um clima de fado a Sábio Senhor. Por fim Todo Ar, um samba em andamento desacelerado, expurga males passados: “Esse jeito de andar/sem pudor/fala muito do que sou e o que sei/já sangrei mas já estancou/estou acendendo a fogueira/pra esquentar quem me queimou”.

 Isadora canta acompanhada pelo bandolim do marido, Rafael Marques, e do contrabaixo de Junior Areia (ex-Mundo Livre S/A), que gravou em Portugal, onde mora. O resultado é um disco pastoral, a voz suave de Isadora é como as águas de um riacho de água doce correndo pela floresta. A pedida para momentos tão conturbados.   A faixa Todo Ar tem clipe dirigido por Luara Olívia.

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