Miriam Makeba, cantora e ativista sul-africana, ganha tributo que vai além da regravação

Zenzile Miriam Makeba, cantora e ativista contra o apartheid, sul-africana completaria 90 anos nessa sexta- 4 de março. Na data ganhou uma homenagem da cantora Somi, o álbum Zenzile: The Reimagination of Miriam Makeba. Somo é americana por acaso. Nasceu em Illinois, quando o pai, de Zâmbia, veio aos EUA fazer um pós-doutorado. Mais tarde, ele retornaria para ensinar na Universidade de Illinois. Somi (no registro de nascimento Laura Kabasomi Kakoma), seguiu a carreira acadêmica nos EUA até 2007, quando lançou, aos 26 anos, o elogiado álbum de estreia (independente), Red Soil in My Eyes.

Desde então ela frequenta as paradas World Charts da Billboard, cantando jazz, mas com fortes influência de Zâmbia e outros países africanos, com cujos músicos mantêm ligações. Seu mentor musical foi o trompetista Hugh Masekela, sul-africano, que foi casado com Miriam Makeba (Masekela, falecido em 2018, foi uma das atrações do festival Monterrey Pop, em 1967). Assim como, Miriam Makeba, Somi é ativista, pelos direitos raciais, das mulheres, transnacionalismo.

Em Zenzile: The Reimagination of Miriam Makeba, Somi reúne 16 canções do repertório da cantora sul-africana, mas com interpretações de viés jazzísticos, e reinventa Pata Pata, uma das músicas mais tocadas no planeta em 1967 e que, desde então, é sazonalmente trazida de volta, em peças, filmes. Somi iria levar aos palcos um musical sobre Miriam, quando irrompeu a pandemia. A opção mais viável foi o álbum, em que faz um apanhado de canções constantes do repertório de Miriam Makeba. Um tributo oportuno, porque traz de volta à mídia o nome de um cantora que se tornou quase estigmatizada pelo seu maior sucesso, aliás, o primeiro sucesso internacional do continente.

Pata Pata, que significa “toca, toca” no idioma xhosa, uma das línguas nacionais da África do Sul, é uma música cujo nome vem de uma dança. Os casais rodopiavam e se tocavam na cintura. Uma versão mais crua fez sucesso no país nos anos 50. A dança acontecia em bares frequentados por negros, estabelecimentos clandestinos, que vendiam bebida sem licença. O envolvimento de Miriam Makeba com política fez com que ela fosse obrigada a viver nos EUA, já que não tinha permissão de entrar na África do Sul. Pata Pata a tornou bastante popular não apenas entre americanos, mas em vários países (no Brasil a música teve várias versões, a mais bem sucedida gravada por Wilson Simonal).  Miriam perdeu boa parte do seu público branco, quando se casou com Stokely Carmichael líder do partido dos Panteras Negras (Black Panther Party). A retaliações vieram também dos EUA, que cancelou seu visto, quando ela estava no exterior. O casal foi morar na Guiné.

 Somi trouxe os holofotes para Miriam Makeba, mas a interpreta sem concessões. Com sua voz de largo alcance ele explorou outras possibilidades nas canções. O objetivo do álbum é a celebração da mítica ativista e artista, mas também tem a finalidade de levar a que se reflita porque na terceira década do século 21, ainda se precise combater preconceitos, direitos, igualdade.

A versão de Pata Pata ratifica que Somi não se direcionou ao entretenimento. Originalmente balançada, carnavalesca, a música abre com violinos, e a voz de Miriam Makeba discutindo sua filosofia de vida, a melodia é cantada lentamente, com vocais fragmentados, art pop. Em Milele o beat é acelerado, e conta com participação de Seun Kuti (filho de Fela Kuti), e Thandiswa (vocalista da banda sul-africana Bongo Maffin). The House of The Rising Sun, é uma canção que não poderia faltar no disco. Miriam Makeba foi das primeiras a gravá-la, antes de Bob Dylan ou do The Animals. Está no seu álbum de 1960, e tem tudo a ver com a experiência do negro na América.

 Em Love Tastes Like Strawberry faz dueto com Gregory Porter, em Jike’lemanweni, tem participação de Angelique Kidjo (que foi convidada de Naná Vasconcelos na abertura do carnaval de 2012), e em Nokongo está com o Ladysmith Black Mambazo, contemporâneo de Miriam Makeba, que se tornou internacionalmente conhecido pela participação no álbum Graceland, de Paul Simon (1986). Zenzile: The Reimagination of Miriam Makeba é um tributo que vai além da regravação, Somi reinventa as canções de Miriam Makeba.

2 comentários em “Miriam Makeba, cantora e ativista sul-africana, ganha tributo que vai além da regravação

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  1. Show de bola, Teles, mais um gol!!! Vou procurar ouvir mais da Somi. Agradeço também a lembrança do ano, no qual produzi a Angelique Kidjo, na abertura do carnaval do Recife, comandada por Naná Vasconcelos, atendendo um pedido do nosso parceiro Fred Gluzman!

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