Áurea Martins celebra a música invisível das rezadeiras, benzedeiras e curandeiras

Áurea Martins aterrissou às 11h, deste 8 de março, Dia da Mulher, nas plataformas digitais com o álbum Senhora das Flores (Biscoito Fino/Natura Musical), um trabalho conceitual, em que canta onze canções do repertório pouco escutadas em disco: as benzedeiras, rezadeiras e curandeiras. Por conceitual não se entenda uma coleção de canções difíceis, extraída dos sertões do Brasil, de difícil assimilação para fãs da cantora, uma das mais importantes intérpretes contemporâneas da MPB.

Em Senhora das Flores, ela canta do rapper Projota (A Rezadeira), a um canto do povo Parakanã, a catártica composição de Flaíra Ferro, Me Curar de Mim, ou da avó de PC Silva, dona Joaquina, rezadeira de Serra Talhada, Sertão pernambucano. Ela abre Na Paz de Deus. Esta música, em boa parte atávica, recebe acompanhamento moderno e refinado, que não contrasta com a origem da maioria do repertório. Pelo contrário.  Violoncelo e moringa, arpejos de viola e violões, intervenções sutis da guitarra, só enriquecem a música, e adornam a voz privilegiada de Áurea Martins, que não se debruça apenas sobre a ancestralidade afro, mas sobre a arte de um povo miscigenado, em que se entrelaçam as influências das diversas raças que o formaram.

Na Paz de Deus teve na gravação o reflexo deste Brasil de complexidade étnica: Tocam com Áurea Martins, Alfredo Del Penho (arranjo, violão de 7 cordas e violão), Thiago da Serrinha (cavaquinho e percussão) e Paulino Dias (tambores e percussão), mais o coro da geração que faz nova ocupação da Lapa; Alice Passos, Mariana Baltar, Eliza Addor, Vidal Assis, Pedro Miranda e João Cavalcanti, sob as bênçãos de Arlindo Cruz, Sombrinha e Beto Sem Braço, que assinam a canção. Tanta gente boa só ratifica o quanto Áurea Martins é reverenciada por gerações variadas de músicos s intérprete. Com meio século de carreira, 82 de vida, ela celebra também o cinquentenário de lançamento do LP de estreia, O Amor em Paz, de 1972.

 Mas Aurea somente ganhou mais atenção para sua voz e música em 2008, com o álbum Até Sangrar, que lhe deu um troféu em 2009, no então prestigioso Prêmio da Música Brasileira. De obscura a cult, Áurea Martins, assim como Elza Soares, Lia de Itamaracá, ou Clementina de Jesus são matrizes do canto popular brasileiro.

 REPERTÓRIO

A música das rezadeiras, benzedeiras, curandeiras, carpideiras, os benditos das cantadoras de novena permanecem viva na periferia das grandes cidades, e no sertões do país. Eventualmente, alguém se propõe a fazer um projeto com este repertório. Uns cinco ou seis anos atrás, Sérgio Gonzaga, sobrinho de Luiz Gonzaga, produziu um projeto similar Rezas da Minha Avó/Forró do meu Avô, um álbum duplo, com a música vinha de o avô Januário tocar, e rezas e benditos que sua mãe e as tias aprenderam com mãe Santana (que, analfabeta, tinha-os de cor em latim). Infelizmente este álbum não teve repercussão.

Em Senhora das Folhas, a concepção é da diretora musical do disco, Renata Grecco que pretendeu lançar luz sobre esta teia invisível de música que não pretende apenas aliviar a alma, mas também sanar o corpo. Porém com um equilíbrio entre canções colhidas em pesquisas, e as compostas por artistas com carreira sedimentada, caso da paraibana Socorro Lyra. É dela O Ramo, que tem por temas as folhas e galhos de plantas empregadas pelas rezadeiras ou benzedeiras. A introdução é a vinheta Incelença da Chuva, com as cantadeiras de Souza.

Aliás é nesta música que se desvenda o título do disco, para os que desconhecem este ofício ainda relativamente comum nos sertões do Brasil. A rezadeira ou benzedeira vai murmurando sua oração, ou cantando um canto que vem de gerações, enquanto sacode as folhas, tocando de leve sobre a parte que incomoda a pessoa a quem veio ajudar. O tema retorna com a citação de Sem Folha Não Há Orixás, de Gerônimo e Ildásio Marques, na voz de André Gabeh. Aurea faz um dueto com Moyseis Marques em A Rezadeira, rap de Projota, que se encaixou perfeitamente neste projeto.

Ponto das Caboclas, de Camila Costa, celebra em levada pop suingada, com o pandeiro eletrônico de Marco Suzano, e a guitarra de Fred Ferreira. O samba do recôncavo é trazido por Roque Ferreira e une-se a Samburá. As canções estão quase sempre atada à outra que traga a mesma ideia Araruna ((Nahiri Asurini e Marlui Miranda), canto da etnia Parakanã do Pará tem a voz de André Gabeh, e Áurea Martins lendo o poema Vô Madeira, da poeta Julie Dorrico, do povo Macuxi, versos que preconizam os desrespeitos à demarcação de terra indígenas, e a violência que isto suscita.

Senhora Santana tem origem medieval e refere-se à avó de Jesus, traz um trecho da Incelença de Nossa Senhora com vozes e das Cantadeiras do Souza. Em Me Curar de Mim, obra prima de Flaira Ferro, Fred Ferreira toca tudo, viola, viola caipira, viola de gamba e guitarra.  Por fim, Banho de Manjericão (João Nogueira (Paulo César Pinheiro), lançada por Clara Nunes em 1979. Áurea Martins nos deu seu disco mais diferente, e um dos melhores de sua discografia irrepreensível.

A produção e direção musical é de Lui Coimbra arranjos de Luiz Coimbra, Fred Ferreira e Alfredo del Penho, foto da capa de Sergio Cadah.

      

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