Abilio Manoel não foi bafejado pelo hype na era do vinil

A revalorização do vinil contribui para a valorização de artistas que no seu tempo podiam até tocar bem no rádio, mas eram considerados cafonas, ou pairavam no limiar desta classificação, como é o caso de Benito de Paula, com seus impagáveis samboleros, um brega prêt-à-porter feito Sidney Magal, ou a psicodelia zero ácido de Ronnie Von. O hype tem seus caprichos, nem todo mundo é bafejado pela sorte para cair nele. Um bom exemplo é Abílio Manoel, de quem ninguém se lembra mais.

Refrescando a memória. Em meados dos anos 70, Homem, uma revista masculina (na época Playboy no Brasil, só importada), trouxe numa edição um encarte intitulado A MPB se Debate uma revista que transcrevia um papo sobre música popular brasileira entre Caetano Veloso, Aldir Blanc, Chico Buarque e Edu Lobo. Eles discutem vários aspectos do mercado, de música de novela, à fabricação de artistas na mesma linha de alguém bem sucedido. Roberto Carlos teve Paulo Sérgio, Odair José, Martinho da Vila foi Jorginho do Império, e por aí vai.

 “Conheço um que trabalha muito mais do que nós porque tem que mudar de personalidade a cada três meses. Tem época que é Chico. Tem hora em que é Jorge Bem”, o comentário é de Edu Lobo. Sem o corporativismo que tomou conta da MPB, e da cultura em geral, ninguém mais critica ninguém, Edu Lobo dá o nome ao boi: Abilio Manoel. Que surgiu na época dos festivais muito na cola de Chico Buarque. O LP de estreia, que tem seu nome por título (Odeon) seria um bom disco, não fosse Chico Buarque ter surgido antes. Segue o mesmo clima do Chico da época, com letras que convergem para os mesmos temas.

Dois anos depois, Abilio Manoel lançou Pena Verde. Não por acaso Jorge Bem (muito antes do “Jor”) era o autor da vez. Enfileirava hits nas paradas, como intérpretes e por vários intérpretes. Abilio Manoel preferiu emplacar hits à Jorge Ben compostos por ele mesmo. Se deu bem, Pena Verde emplacou uns quatro sucessos. O maior deles o que deu nome ao álbum. Uma música legal, se não fosse tão assemelhada ao que Jorge Be fazia. Só que vendeu e tocou no rádio tanto quanto Jorge. É curioso que Pena Verde não tenha sido integrada ao repertório dos cantores de barzinhos.

Abilio Manoel Robalo Pedro nasceu em Lisboa, em 1947, cresceu no Brasil. Até sentir firmeza com o sucesso de Pena Branca dedicava-se à faculdade, onde cursava Física. Já bastante badalado ele foi um dos artistas que viajaram ao México para levantar o moral da seleção e dos torcedores. Fez sucesso no país, de onde voltou com algumas composições novas, entre elas Luiza Manequim, que chegou às paradas rapidinho. Para sua surpresa, Pena Branca estava no topo das paradas, atropelando Let It Be, dos Beatles, Foi Um Rio que Passou em Minha Vida, e outros clássicos.

Abílio, para usar uma expressão carioca da época, estava por cima da carne seca, e encarou um bate-boca com o crítico Sérgio Cabral, então um dos mais importantes do país (pai do desditado governador que tem seu nome). Sérgio falou mal do disco. Abilio alegou que ele só entendia de samba do morro. Independente da qualidade da música, que podia ser derivativa de outros compositores, não era ruim (em relação à grande parte do que se faz hoje, então), Abilio Manoel era carismático, mas o hype passou por ele sem prestar atenção. Ou ele não montou o no cavalo do hype quando este passou. Enfim, nunca foi descoberto pelo pessoal do vinil. Abílio Manoel morreu em 2010.

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