Guerra: o que a vodca tem com as calças?

Há 470 anos, o tzar Ivan IV, o popular “O Terrível” ordenou a abertura da primeira “kabak” (taverna pertencente ao estado) na Rússia. O tzares eles próprios entornavam profissionalmente. Pedro I, O Grande, morreu aos 53 anos em boa parte em consequência dos barris de vodca que ingeria. Pedro, cujo epíteto “O Grande” deve ter vindo tanto da sua estatura (tinha uns dois metros), quanto da sua imensa sede. Sustentam seus biógrafos, ingeria 20 copos de vodca por dia, mais ou menos dois litros do precioso líquido, que costumava incrementar com pimenta.   

O russo e a russa bebiam tanto (e ainda bebem) que, em 1886, foi promulgada uma lei que podia levar à prisão os patrões que pagassem o salário dos trabalhadores, ou parte dele, em vodca que, em 1894, então monopólio do estado, era comercializada em estabelecimentos que não vendiam alimentos. Assim o cidadão e cidadã compravam vodca para entorná-la onde lhe aprouvesse. Começaram a concorrer com o governo fabricando vodca clandestina, a maioria no fundo do quintal, cada fabricante tinha sua própria fórmula

A história da vodca na Rússia é fascinante, porque não se trata apenas de um drink, faz parte da cultura de um povo, embora a Polônia reivindique para suas cores a invenção da bebida. Passaram anos discutindo, Rússia e Polônia a paternidade da bebida. A pendenga foi resolvida, pelo menos oficialmente, em 1982. Os dois países promoveram uma pesquisa história oficial para se determinar a origem da vodca. O historiador W.W Phoblehkin participou da pesquisa e chegou á conclusão de que a bebida era mesmo russa, e tem como data de nascimento (também oficial), a década de 30 do século 15. Phoblehkin, algum tempo depois, foi encontrado morto, assassinado, no apartamento em que morava num subúrbio de Moscou. Teorias da conspiração apontam para um matador polonês inconformado por a Rússia ter sido vencedora da disputa.

 Os estoques de vodca que abasteciam as tavernas do governo eram armazenados em imenso galpões em que havia milhares de barris. Em 1812, quando Napoleão e suas tropas ameaçaram invadir a Rússia, ordenou-se que se esvaziassem todos os barris do galpão. Viu-se então uma cena dantesca. Ruas próximas ao local tornaram-se rios de vodka, com o povão timbungando nele para beber o quanto pudesse e fosse possível.

Sem ter nada a ver com batalhas, a vodka se vê agora envolvida numa guerra que não começou. Como observou Millor Fernandes (não exatamente nessas palavras): “O bêbado é o bicho mais pacífico do mundo. Nunca se viu cem mil bêbados de um país numa guerra contra cem mil bêbados de outro país”. Eis que a vodca entrou na lista de sanções implantadas em retaliação a invasão da Ucrânia por soldados de Putin. E como em toda estas ações, há um monte de iniquidades acontecendo. Na Inglaterra viu-se donos de pubs derramando o conteúdo de garrafas de Stolichnaya na rua. Não sabem eles que esta marca de vodca é de uma empresa do Luxemburgo, e fabricada e engarrafada na Letônia.

Vários estados americanos puseram em prática o boicote contra o preciosos líquido que pode ter nascido na Rússia, mas é fabricado nos mais diversos países.  Apenas 1,5% da vodka que os americanos entornam vem da Rússia. A vodca se tornou a bebida destilada mais bebida no mundo, pela sua maleabilidade. Sem cheiro, sem sabor, e sem congelar em temperaturas abaixo de zero grau, ela cai bem com quase tudo: abacaxi, maça, morango, laranja, talvez até com pitomba. Americanos consomem 76,9 milhões de litros anuais de vodka– um negócio de quase oito bilhões de dólares a os que exportam para os States. Quem mais leva dinheiro deste comercio é a França, com uma fatia de 39% do mercado nos EUA (com as marcas Grey Goose, Cîroc, Gallant e Mont-Blanc). Vêm em seguida, Suécia (18%,) Holanda (17%), Letônia (10%), Inglaterra (5%) e Polônia (5%).

Enquanto isto, cá no Brasil continuemos ingerindo nossa Smirnoff. A marca é originalmente russa, mas Vladimir Smirnoff escapuliu da Rússia na década de 1920, e estabeleceu sua fabricar de vodca na Europa Ocidental.  A marca hoje pertence à inglesa Diageo, e é fabricada mundo afora, menos na Rússia. Aliás, uma grande besteira o boicote ao precioso líquido. Mais besteira que isso só a guerra. Em lugar de estarem na terra deles, conversando potoca e entornando uns shots de votca (como pronunciam), estão os soldados russos metendo bala sem saber o motivo, em gente que desconhece.

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