Música brasileira tem história contada através dos seus álbuns em quatro livros da Edições SESC

O termo “álbum”, em relação a disco, vem dos anos 40, quando predominava o bolachão de 78 rotações (com uma música em cada face). De tempos em tempos, reuniam-se esses bolachões num estojo em que cabiam de oito a dez deles, assemelhava-se aos álbuns de fotografias. Os primeiros LPs lançados no Brasil (também chamados de álbum) são compilações de sucessos de determinados artistas, lançados anteriormente em discos avulsos.Vieram o CD e a música digital. Continuaram sendo denominados de álbum, desde que traga mais de cinco músicas (até esta quantidade é o EP, ou extended-playing).  

O jornalista Pedro Alexandre Sanchez, que milita na crítica musical desde os anos 90 (Folha de São Paulo, Carta Capital, site Farofafá), começou a traçar a história da música brasileira através sua discografia no livro Álbum 1 – 1950 a 1972 – Saudade, Bossa Nova, e as Revoluções dos 1960 (Edições SESC). Serão quatro volumes, o último deles alcança os tempos atuais.    

o autor não começa pelo primeiro LP lançado no Brasil, Carnaval em “Long-playing”, de janeiro de 1951 com selo Sinter/Capitol, uma compilação de sambas e marchinhas cariocas. Até porque a relevância desse álbum limita-se ao seu pioneirismo. Opta em iniciar a história pelo antológico álbum em que Aracy de Almeida canta Noel Rosa, uma espécie de grandes sucessos em uma trinca de 78 rotações. Meses mais tarde, foi lançado um Noel Rosa 2 com a mesma Aracy, e mesma quantidade de canções. O primeiro projeto refinado da indústria fonográfica no Brasil, com capa de Di Cavalcanti, orquestrado e arranjado por Radamés Gnattali, com textos assinados por Fernando Lobo  e Lúcio Rangel. Um álbum que livrou o compositor de Vila Isabel do esquecimento. 13 anos depois de sua morte, não se encontrava discos de Noel nas lojas, e Aracy de Almeida era das raras intérpretes que continuavam cantando suas composições. 

Pedro Alexandre Sanchez esclarece o conceito do livro: “Tenta abranger alguns discos inquestionáveis, ditos clássicos (muitos deles extremamente populares em seus tempos e, ou, no decorrer da história), mas não se esquece daquilo que virou garimpo de diamantes entre os mais fanáticos dos admiradores do formato. Preza o sucesso de alguns e o insucesso de outros porque sabe que a história, tal qual os velhos discos de vinil, não existe sem o lado B – neste caso, tampouco sem os lados C, D etc., e sem toda a matéria prima que constitui o interior de uma esfera”. 

Sanchez promove alguns resgates de artistas outro grupos caído no esquecimento, como o Trio Surdina, acrescentando o LP, de dez polegadas,Trio Surdina Interpreta Noel Rosa e Dorival Caymmi (Musidisc), de 1953. O surdina foi um supergrupo formado pelo violonista Garoto (que morreria dois anos depois deste álbum), Chiquinho do Acordeom e o violinista Fafá Lemos. Está aí uma raridade que os caçadores do vinil perdido deveriam correr atrás. Poderiam correr atrás também de A Voz de Leny Eversong (Copacabana), de, claro, Leny Eversong, e de Cantando Para Você, com Cascatinha e Inhana, ambos também esquecidíssimos, todos incluídos nesta história. 

Quarto país a produzir o então discos de vinil, o Brasil produz desde o início álbuns formidáveis, como o LP, de dez polegadas, Canções Praieiras (Odeon, 1954), de Dorival Caymmi, um disco conceitual, que antecipa em um ano o In the Wee Small Hours, de Frank Sinatra, considerado o primeiro álbum em que as canções estão ligadas a um tema, ou conceito, neste caso, solidão e dor de cotovelo.  Caymmi gravaria, em 1957, mais um álbum de canções marinhas, Caymmi e o Mar, este com 12 faixas. 

A História do Nordeste na Voz de Luiz Gonzaga (1955, RCA Victor) marca a entrada de Gonzagão no vinil, com uma coletânea de sucessos. Sanchez contrapõe Lua a Caymmi, um cantor do mar, outro do sertão. Se bem que ambos têm obra circunscrições mais abrangentes.  

A lista de discos não é dividida por décadas mas por fases. O primeiro capítulo intitula-se A Velha Guarda Tenta se Acostumar ao Formato LP, e vai até 1958. O capítulo seguinte vai de 1959 a 1963, quando a bossa nova e o rock são as danças da moda. Ebuliente, a década de 60 é focada em três fases, a que vai até 1963, de 1964 a 1967, e de 1968 até 1970, este último ano, com direito a dois capítulo, 1970 e 1970 a 1972. 

Na década de 60 eclodiram mudanças rápidas e drásticas. Mas o autor não se limita às facções  que a dominaram, Jovem Guarda e Tropicalismo, tampouco somente aos discos obrigatórios. Volta-se, por exemplo, para a desdenhada Pilantragem, um quase movimento, que não apenas fez muito sucesso, como exerceu bastante influência em sua época. Era integrada por nomes como Carlos Imperial, Nonato Buzar, A Turma da Pilantragem e, sobretudo, Wilson Simonal. 

Sanchez faz justiça a discos importantes que caíram em injusto esquecimento, entre estes Brasil – Do Guarani ao Guaraná (1968), de Sidney Miller, Marília Medalha, no álbum epônimo (1969), o subestimado Paulo Diniz, pioneiro do soul brasileiro, em seu antológico álbum de 1970, Quero Voltar Pra Bahia, cujo repertório foi criado no lendário Solar da Fossa, com os eflúvios psicodélico do local. A canção Ponha um Arco-íris na Sua Moringa é um mote de Paulo Leminsky, inquilino do solar. 

Inclui o totalmente fora da curva o alagoano Luiz Wanderley,  metamorfose ambulante do forró, no álbum O Mundo Girou Com Luiz Wanderley (1968). 1972, teve mais do que os clássicos Clube da Esquina, Elis, de Elis Regina. É também o ano de Vinicius & Toquinhos, e seus sambas de baixos teores, de Os Incríveis, de apoio explícito ao regime militar, ou o início da relação de Clara Nunes com o samba.  

A história da MPB através de seus LPs poderia ter discos de astros da turma do bolero. Waldik Soriano é incluído em seu disco de 1972, com Ele Também Precisa de Carinho (RCA), que pega carona no sucesso Eu Não Sou Cachorro Não, uma música atípica no repertório de Waldik (ou Waldick), intencionalmente apelativa, numa época em que ele fingiu ser bibelô d ricaças do Rio e São Paulo. Pegaria bem algum LP de Anísio Silva, Orlando Dias ou Silvinho, cantores imensamente populares na primeira metade dos anos 60, que continuaram a ser consumidos pelo Brasil real, indiferentes à bossa nova ou à Jovem Guarda. Ironicamente, foi a Tropicália, que se pretendia sem preconceitos, e  abraçou a cafonice, que colocou pra escanteio os ídolos do bolerão.    

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