Zélia Barbosa: 90 anos de uma cantora que marcou época em Pernambuco

A história da cultura brasileira e contada a partir do Rio e São Paulo (e do pais em geral), portanto nos jornalões do Sul certamente não consta nenhuma matéria nesta segunda-feira, 28 de março, sobre a cantora pernambucana Zélia Barbosa, que completaria 90 anos hoje (faleceu em 2017). Ela foi uma das mais atuantes artistas do Recife nos anos 60 e parte dos 70, com um primoroso disco gravado na França, Brèsil – Sertão & Favelas, produzido por Turíbio Santos, com acompanhamento de Raquel Chaves, Nelson Serra de Castro (que integrou o grupo de bossa jazz 3-D).

A partir de 1965, a MPB tornou-se uma trincheira contra o regime militar, a segunda geração da bossa nova não cantava mais barquinhos, deslizando sobre um mar de águas verdes, e sob o céu azul. Falava de fome, de pobreza e injustiças. Saiu de Ipanema e veio para o Nordeste. Zélia Barbosa, que começou no teatro no final dos anos 50, abraçou a então nascente MPB, e participou de musicais memoráveis, levados aos palcos no Recife.

 Alguns desses: Cantochão (1966), de Benjamim Santos, com Marcelo Melo (Quinteto Violado), Paulo Guimarães (um compositor de talento, falecido precocemente), Teca Calazans, José Fernandes e Naná Vasconcelos. Paroli Paroliando (1967), também de Benjamim Santos, estrelado por Zélia e Carlos Reis, acompanhados por Generino Luna (flauta), Luciano Pimentel (futuro baterista do Quinteto Violado), e pelo quase adolescente Geraldo Azevedo, recém-chegado de Petrolina.

 Em 1968, Zélia Barbosa apresentou ao Recife, o carioca Paulinho da Viola, ainda pouco conhecido fora do Sudeste, no musical O Samba, A Prontidão e Outras Bossas, com participações de Paulo Guimaraes e Naná Vasconcelos. Uma longa temporada no Teatro Popular do Nordeste, na Conde da Boa Vista.

Do mesmo ano, foi o elogiado show solo Recital Zélia Barbosa, com Sérgio Kyrillos (piano), Luciano Pimentel (bateria), Toinho Alves (contrabaixo) e Marcelo Melo (violão): “Há dois tipos de cantores. O de televisão e o de palco. Uma diferença enorme entre os dois. O primeiro faz o jogo dos empresários. Canta o que mandam. É conhecido do povo pela televisão. O outro só canta o que gosta. Exemplos deste último é Maria Bethânia, no Sudeste, e Zélia Barbosa, que ainda não assinaram com nenhuma emissora de televisão”. Zélia não assinou, mas teve presença constante nos programas da TV local, sobretudo a TV Jornal do Commercio, em cuja programação havia vários musicais, feito o Convocação Geral, apresentado por José Pimentel.

A cantora nunca se interessou em emigrar e tentar a carreira nas duas grandes vitrines do show bizz, Rio e São Paulo. Curiosamente, a gravadora Rozenblit, então no apogeu, não mostrou interesse por aquela geração de tantos talentos. Apenas Teca Calazans e Lizette, duas cantoras destacadas daquela cena conseguiram lançar um compacto simples, cada, pela empresa dos irmãos Rozenblit. A Rozenblit comprometeu-se a lançar um LP com as 12 finalistas da II Feira de Música Popular do Nordeste, na qual Zélia defendeu Chegança de Fim de Tarde, de Marcus Vinicius, que empatou no primeiro lugar com Aquela Rosa, de Carlos Fernando e Geraldo Azevedo.

 Zélia Barbosa sairia do ineditismo fonográfico, em 1967. Quando viajou para Paris, onde viveu um ano e meio como bolsista do Comitê Católico Contra a Fome. Neste período foi convidada pelo selo Le Chant du Monde a gravar seu primeiro álbum. O disco no entanto só foi lançado em 1971. O disco teve relançamento, com outras capas, e outros título. Entrou no catálogo do Smithsonian Institution, agora com o nome de Brasil: Songs of Protest – Zélia Barbosa Sings of the Sertão & Favela

 Zélia Barbosa esteve bastante ativa no início da década de 70, participando do antológico álbum Música Popular do Nordeste e, em seguida, Frevo ao Vivo (gravado no Teatro de Santa Isabel), ambos com selo da Marcus Pereira. Em 1984, participou do musical Capiba seus Poemas e seus Poetas, no Teatro de Santa Isabel, que resultou num disco oferecido como brinde pela Bandepe. Depois de quase duas décadas sem gravar, em 2002, Zélia Barbosa lançou seu último disco, Para se Viver um Amor Maior, produzido por seu filho, Pedro de Souza.

Na foto, de 1967, Zélia Barbosa e Edy Souza (depois conhecido como Edy Starr)

O álbum Brazil: Songs of Protest- Zélia Barbosa Sings of the Sertão & Favels está disponível nas plataformas de músicas por streaming.

Um comentário em “Zélia Barbosa: 90 anos de uma cantora que marcou época em Pernambuco

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  1. Mais um show de emoções Teles!
    Fiz iluminação e dei assistências às produções aos shows da Zélia, e dos demais citados, nos anos 60 no TPN. Desde o primeiro show no teatro, em 1966, O Comedor de Gilete, de Ary Toledo, ao Viramundo, primeiro show solo de Gilberto Gil, estreado nacionalmente no teatro da Av. Conde da Boa Vista. Ôh sorte!!!

    Viva ZÉLIA BARBOSA!!!

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