África Negra, banda de São Tomé, ganha antologia

O continente africano como terra dos tambores é um clichê reducionista da música que se faz nos países africanos. Cabo Verde de mornas, coladeiras, funaná, têm percussão, mas como complemento do acompanhamento, nesses e outros ritmos do arquipélago prevalece a melodia, o que acontece na África lusófona. Conhece-se por aqui um pouco de Cabo Verde e Angola, e nada de Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.  Pois bem, o selo francês Bongo Joe Records manda o terceiro disco de compilações da música afro-lusófonas, desta feita de São Tome, África Negra Antologia 1.

O álbum reúne doze músicas do grupo África Negra, selecionadas pelo DJ francês Thomas Bignon, ou Tom B. Há 50 anos entrou em cena com o nome de Conjunto Milando. Os colonizadores não permitiram que se chamasse África Negra. Em 1975, com a independência de Portugal, o grupo assumiu o África Negra, cuja música  é um amálgama de ritmos do afoxé brasileiro, ao semba angolano, merengue, coladeira, soukou caribenho e o eu mais vier, o que resulta num caldeirão sumarento, e revigorante, uma mistura que chamam de “puxa”.

 Como um dos mais importantes produtores de cacau do mundo, São Tomé e Principe recebem gente de muitos países africanos, que vão acrescentando suas influências ao caldeirão rítmico das ilhas, onde há até um “forró criolo”. Mas não se trata simplesmente de mais uma feliz fusão de gênero musicais com a ilha tem afinidades. África Brasil, mesmo tendo sofrido mudanças ao longo de 50 anos, conservou do rock do anos 70, wah wah e outras distorções nas guitarras, ou levadas de funk clássico. As harmonias vocais também são muito boas, as vozes azeitadas e, em algumas faixas, bastante carnavalescas.

O África Negra somente estreou em disco em 1981. A faixa que abre o disco, Vence Vitoria, um grande sucesso, celebra a independência de São Tomé e Principe. O pan-africanismo do grupo é compulsivo. Em Qua Na Bua Nega Fa, o puxa é robustecido com elementos de coladeira, compas haitiano, e afoxé. O trabalho de guitarras são dançantes e complexos, soam como conjuntos de iê-iê-iê brasileiros de meados dos anos 60.

Parte do disco vem dos anos 90, quando com muitas modificações, acréscimos de ritmos cubanos, e caribenhos, certamente influências das turnês que o África Negra está constantemente empreendendo.   África Negra Antologia 1 ganhou uma remasterização que tornou ainda mais palatável a música do álbum. Os discos do grupo foram gravado no estúdio da Rádio Nacional STP, único da ilha, e com muitas deficiências técnicas. Partes dos discos nos 90 tiveram edição só em cassete. Mas aqui as coisas foram postas em seus devidos lugares, ajustados graves e agudos. Um disco para se constatar que a música africana vai muito além dos estereótipos.

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