Crônica – O romance da minha geração acabou no infinito

Num e-mail aqui, um site que acadêmico, me pergunta se sou eu o autor do livro Organização Estrutural de um Macaco Hidráulico. Acho que não. Não entendo nada de macacos hidráulicos. Na verdade, eu não sei o que é macaco hidráulico. Talvez seja daqueles com que se enchem pneus de carro. Nem sei mais se ainda se enchem pneus de carro. Penso que não, porque nunca mais vi ninguém tomando banho de mar agarrado à câmera de ar de pneu. Tinha muito disso. Cada vez mais a gente diz “tinha muito disso”.

Tô cada vez mais socrático, “só eu sei que nada sei”. Veja que outro dia, uma minha seguidora do Instagram quis saber se sou autor deum livro chamado Rumo ao Infinito. Considerei que não fosse, mas feito o do macaco hidráulico, fiquei na dúvida. Consultei Inêz da Editora Bagaço sobre esse livro. Sim, eu o escrevi. Ela gentilmente me mandou alguns exemplares. Li-o pra ver do que se tratava, e eis que me deparo com o romance da minha geração, só que decupado e adaptado para o público Sessão da tarde. Aliás ainda mais ameno. Porque na Sessão da Tarde rolam palavrões e safadeza que, nesse Rumo ao Infinito são apenas insinuadas.

Lá pelo fim da década de 80, quando ainda acreditava que seria escritor, comecei a escrever um romance que ia do regime militar à anistia. Termina no comício da volta de Arraes do exílio, que aconteceu no largo de Santo Amaro. Os personagens principais são uma moça forte, e um moço fraco, com um namoro iniciado na infância, farto em desencontros.  Gastei uns três anos nesse livro. Depois veio o pior de escrever, que é reler e dar umas guaribadas no texto, um saco. Fui mexendo no bicho em doses homeopáticas. Aí por volta de 2000, por um desses lamentáveis equívocos que acontecem a todos nós, o original foi, por engano (claro) parar no lixo. Perdi-o. Quem não perdelu alguma coisa na vida? Entre outras, eu perdi o romance da minha geração.

Tinha uns três ou quatro capítulos transcritos pro computador quando ele se foi. Tentei continuá-los, mas não deu. Tenho mais ou menos uns 20 livros infanto-juvenis pela Bagaço, e esse Rumo ao Futuro é um deles. A gente não controla a escrita, alguma entidade controla. Porque relendo o supracitado, constatei que inconscientemente resumi o romance da minha geração nesse livrinho, que está sendo descoberto por uma geração pra quem os episódios da história devem lhe parecer dos tempos de Brucutu, Ulla e do Rei Gus, se é que tem ideia de quem sejam os personagens de quadrinhos que, neste 2022, completam 90 anos.

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