Paul McCartney escreve autobiografia minuciosa em Lyrics -1956 to the Present

Paul McCartney – The Lyrics: 1956 to the Present (As Letras: 1956 Até o Presente) tem um título que pode enganar, afastar leitores mais interessados em conhecer a vida e obra dos mais de 60 anos de carreira do mais popular artista da música do planeta. Não é um livro apenas com as letras, e anedotas ou curiosidades. É a sua mais aprofundada biografia. Mais reveladora do que Paul McCartney: Uma Vida, escrita por Phillip Norman, Many Years From Now, de Barry Miles, afora dezenas de outras, de mais ou menor importância. The Lyrics é a mais minuciosa história da vida e da música de McCartney, com detalhes que não contaria a um biógrafo, porque este geralmente está mais interessado no que considera ser o mais importante do biografado,  passando por cima de recortes da colcha de retalhos que formam uma existência.

Por ordem alfabética Paul esmiúça cada canção, indo ao cerne de sua criação, muitas das quais ligadas a episódios que constam de livros ou matérias jornalísticas. Um exemplo é And I Love Her, uma dos primeiros standards que McCartney legou ao songbook da música popular. A inspiração veio de uma ida sua ao teatro com a namorada Jane Asher, no início de 1964. Para evitar assédio, o casal sentou-se num local menos visível, mas foram descobertos pelos fotógrafos, de flashes ligados, interrompendo uma declaração de amor que Paul começava a fazer. Na casa de Jane, cujos pais o convidaram a morar lá, ele compôs a música. Mas não fica por aí. No texto sobre a canção, ele retorna à Liverpool, à casa humilde do pai, representante de uma firma algodoeira, e a mãe enfermeira. Comenta até o sotaque irlandês de Mary, a mãe, de como o pai fazia ele o irmão cumprimentarem, levantando os bonés, ao passar por uma mulher na rua. Da música, particularmente, confirma que ela não seria a mesma sem o riff criado por George Harrison no estúdio, ou uma sutil mudança de tom na ponte entre a primeira e segunda parte, feita por George Martin.

O caráter biográfico está em canções mais recentes, em algumas até mais do que nos sucessos. Ao comentar as letras, Paul revela que durante o fim da adolescência, entrando pelos 20 anos, frequentava mais livrarias do que lojas de instrumentos. Devorava literatura desde a infância, e muito do que apreendeu está nas letras, assim como está também o cinema. Ele e Lennon eram ávidos cinéfilos. Quem ligaria Eleanor Rigby ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock? O arranjo de cordas de George Martin foi inspirado na musica incidental de Bernard Hermann para a cena em que Vivian Leigh é esfaqueada enquanto toma banho: “E, claro, havia uma maluquice ligando Eleanor Rigby, uma velha numa situação esquisita, como a mãe mumificada em Psicose”, comenta McCartney. Quem suspeita da presença de Shakespeare na faixa The End, de Abbey Road?: E no final/o amor que você recebe/é igual ao amor que você concede”, os versos inspiram-se num couplet encontrado em MacBeth.

Canções pouco conhecidas, como Confident, de Egypt Station (2018) têm letras repletas de significados que um biógrafo não extrairia do biografado. Um escaninho cita que na música remonta a quando morava num conjunto habitacional no bairro de Speke, em Liverpool, enquanto os versos “Serpentes transformam-se em cordas de guitarras”, vem de um comentário do Maharish Mahesh Yogi, em 1968, a alguém que fazia parte da comitiva que foi com os Beatles à Índia. Ele temia serpentes, tinha visto uma. O verso foi exatamente o que o Maharishi disse para acalmá-lo.

Uma menos populares canções do grupo, Your Mother Should Know provavelmente não seria composta se McCartney não tivesse nascido em sua família. Quando estava com24 ou 25 anos, a tia Jin veio de Liverpool para conversar com o sobrinho sobre os malefícios do uso da maconha (os tabloides fazia constantemente ligação entre os Beatles e drogas). Ele agiu com a tia como se estivesse em Liverpool nos anos 50. Toma café, conversa amenidades, toca ao piano um ragtime, a música do tempo do seu pai, ou dos tios, escutadas nas reuniões de família. Muito da estrutura daquela música dos anos 20, está na música dos Beatles. McCartney quando se prepara pra compor, sobretudo nos discos das ultimas três décadas, costumava revolver as memórias, boa parte das canções são autobiográficas, e não poucas saem de trivialidades, como é o caso de When I’m Sixty Four, a começar de ser um music hall, estilo anos 30, composta quando Paulo estava com 16 anos. Para explicar a letra é quase necessário um glossário. Há versos inspirado num humorista de então, Louis McNeice, as costumeiras pequenas sacanagens que ele e John incluíam nos versos. “Doing the Garden/digging the weed”, grosso modo, “Cuidando do jardim/retirando a erva daninha”. Porém na época “dig” era curtir, e “weed” maconha. Ou seja, “cuidando do jardim/ e curtindo um baseado”. Há citações da série O Homem do Rifle (que foi ao ar de1958 a 1963), um programa da BBC intitulado Point of View, é praticamente uma colagem.

LENNON

Ao divagar sobre as letras de músicas, Paul McCartney aprofunda revelações de seu relacionamento com John Lennon com viés psicanalítico. Revela que às vezes se sentia como o padre da paróquia aconselhando um fiel. O sarcasmo, não raro grosseiro, de John eram motivados, analisa, por insegurança. Quando foi convidado para entrar para o Quarrymen, a banda colegial, liderada por John, soube do convite por Peter Shotton, um dos integrantes. Uma forma de Lennon não receber pessoalmente uma resposta negativa. Lennon tentava ocultar a insegurança agindo não raro com agressividade e excesso de ironia (o que pode ser constatado claramente no documentário The Beatles Get Back, de Peter Jackson) .

Lennon está em muitas das canções de McCartney, mesmo muito tempo depois do fim do grupo, e da sua morte. We Get Married, do álbum Flowers in the Dirt (1989), foi inspirado, inconscientemente em John Lennon e Chynthia Powell, que se casaram às pressas, em agosto de 1962, quando ela engravidou. Enquanto Too Many People, de Ram (1971) é mais uma da série “lavação de roupa suja em público”, com que os dois ex-amigos trocaram farpas e acusações logo depois do fim dos Beatles. Ao comentá-la McCartney volta a esta época, sem dourar a pílula: “Fui capaz de aceitar Yoko no estúdio, sentada num lençol diante do meu amplificador. Deu trabalho pra concordar com aquilo. Então a gente se separa, todos ficamos zanzando, e John tornou-se um sacana. Não sei bem o motivo. Talvez porque crescemos em Liverpool, onde se tinha que desferir o primeiro soco numa briga”.

The Lyrics – 1956 to the Present (Livelight Publishing Co) traz as canções, de Paul McCartney em ordem alfabética, mas pode ser lido aleatoriamente. Certamente o ex-beatle mantém um fã-clube fiel com gente disposta a encarar as 1.150 páginas do livro, que tem ainda o inconveniente do preço salgadíssimo. Impresso, em capa dura, custa R$ 428,87, a edição digital custa R$ 215,25   

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