Valsa dos Cogumelos conta a história da psicodelia pernambucana dos anos 70

O que hoje é conhecido por udigrudi pernambucano, ou psicodelia pernambucana foi um quase movimento acontecido de final de final de 1969 até meados dos anos 70, quando os eflúvios da contracultura americana, através de filmes, livros e discos, aportaram ainda timidamente por aqui. Foi detonado em 1970, com o festival de Woodstock. Garotos entraram no Cine São Luís pra assistir ao documentário de Michael Wadleigh, e saíram do cinema dispostos a montar uma banda, ou adaptar o som da banda em que já tocavam para o que viu na tela. Logo chegariam ao Brasil os cinco LPs com a música de Woodstock (um triplo, outro duplo).

Surgiram no Recife o Phetus, Zé da Flauta, Paulinho Rafael e Laílson, Tamarineira Village (depois Ave Sangria), Almir, Ivinho, Agricinho, Rafael Semente e Marco Polo, Lula Côrtes e Kátia Mesel colocando o caos na ordem, Marconi Notaro, Flaviola, Zé Ramalho, grupos e intérpretes de carreiras fugazes. Essa turma, mesmo ignorada pelo grande público, deu flores e frutos. Discos que trafegavam na contramão da MPB, e da música em geral que se praticava no país. O único a chegar a uma gravadora grande foi o Ave Sangria, que gravou na Continental. Com o LP censurado, o grupo debandou.

Mas o desbunde artístico não rolava apenas em shows e discos. Em 1971, um grupo formado por músicos e atores, pernambucanos, cariocas que moraram no lendário Solar da Fossa, no Rio, outros voltando de Londres, apresentaram um musical muito louco no Teatro Popular do Nordeste, Arame farpado no Continente Perdido: “Não somos hippies, nem temos definição. Somos”, definiam-se. O crítico de teatro Valdir Coutinho deu matéria, no Diário de Pernambuco (4/3/71), de mais de página na pré-estreia do musical, num texto meio escrita livre:

“São várias cabeças para dirigir o espetáculo que não tem direção. Eles não sabem informar quase nada à reportagem. Falam pouco. Nada dizem, a não ser a sua presença que, por si só, nada explica. São músicas de Roberto Carlos, Gil, Macalé, Luiz Gonzaga, Phlavvy, Lula Côrtes e uma de Bobby di Melo, um mulato pernambucano que se integrou ao grupo aqui mesmo no Recife. Tudo poderá acontecer nesse espetáculo sem texto no TPN. Só música, som, texto já era”. Depois desse musical, Phlavvyu, ou Flaviola formou o grupo Arame Farpado, que tinha Robertinho do Recife na guitarra. O Bobby di Melo, trazido por Flaviola para o grupo, passou a se chamar Di Melo quando foi para São Paulo.

O udigrudi continuou até, aos trancos e barrancos, até o ano 80, com alguns compactos, entre estes o do Aratanha Azul. O ciclo discográfico independente se fecha em 1980, com Caruá, de Zé da Flauta e Paulinho Rafael (ambos já tocando com Alceu Valença). Pois bem, esses discos caíram no esquecimento. Venderam pouco, podiam-se encontra-los nas calçadas da Avenida Guararapes, entre outros discos e livros usados, nos sebos que até os tempos atuais se improvisam no Centro da Cidade. Custavam uma ninharia, e eram poucos os que compravam. O mais fácil de se encontrar era o Marconi Notaro no Sub-Reino dos Metazoários, de 1973. O LP original hoje vale um bom dinheiro.

Em dezembro de 2000 lancei o livro do Frevo ao Manguebeat, pela Editora 34, de São Paulo, que teve ótima repercussão na imprensa, sobretudo a do Sudeste. Dediquei um capítulo à psicodelia pernambucana, que não figurava em nenhum compêndio sobre música brasileira. Foi esse capítulo que desencadeou o interesse pelo udigridi PE. Os discos lançados nos anos 70, se valorizaram, fora de catálogo no Brasil, foram relançados na Europa e EUA.  Um revival que continua no século 21, com documentários, teses acadêmicas, matérias em revistões do “Sul”, o escambau.

VALSA DOS COGUMELOS

Este introito todo para contar outra história da mesma história. Em 2004 Rogério Medeiros transformou sua tese de conclusão de curso no livro Valsa dos Cogumelos – A Psicodelia Recifense dos anos 70. O primeiro especificamente sobre o (quase) movimento. Agora, 18 anos depois, com o texto revisto e aumentado, ele está com uma campanha de crowdfunding, novo nome pra uma “vaquinha”, para financiar a edição do livro, rebatizado de Valsa dos Cogumelos – A Psicodelia Recifense 1968/1981. Quem estiver a fim de contribuir com esta obra que certamente enriquecerá a história da música pernambucana, e brasileira, eis o link: https://www.catarse.me/psicodelia

(foto: parte dos integrantes do musical Arame Farpado no Continente Perdido, copiada do DP) .

       

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