Crônica – O trauma com a ginástica na escola me afasta até de academia de letras

As mídias sociais, principalmente o Instagram, parecem que foram criados pra incitar a inveja no ser humano. Toda vez que passo a vista pelas postagens do insta fico remoendo a inveja. As pessoas fotogravam-se, ou se deixam fotografar, em praias desertas e maravilhosas, entornando vinhos caros, comendo comida fantástica. Suas turmas são bonitas e sorridentes, aparentemente imunes à inveja, até porque são elas que causam inveja a nós outros.

 Sou de comer pouco, de só ir à praia a que eu possa chegar a pé, e aprecio vinho barato, não me sinto inveja dos instagramers. No entanto, não tô isento deste pecado capital. E ele me acomete quando vejo nos stories pessoas conhecidas se derretendo de tanto fazer física. É o tempo inteiro pendurando-se em barras, levantando halteres, dando cambalhotas, pulando corda, entrosando os braços numa máquina de remar, ou numa bicicleta que não sai do canto. Mas, em vez de inveja, me dá medo quando passo diante de uma academia e ouço os gritos dos acadêmicos, e o alto volume da música rebolativa que se toca pros ginastas. Claro, ninguém vai malhar ouvindo O Danúbio Azul, de Strauss.

Até me autoanalisei pra tentar descobrir a origem desta ojeriza que sinto à ginástica. Fui voltando nas décadas até chegar à Campina Grande. Estudei lá em 1968, num colégio agrícola, localizado numa cidadezinha vizinha, Lagoa Seca. Quer dizer, cidadezinha e vizinha naquela época. Hoje deve tá enorme. As duas cidades já uma dentro da outra. Esse colégio era grande e organizado. A mim, tantos anos depois, me parece com as escolas que a gente vê em filmes americanos. Aliás, o lanche que serviam lá vinha dos Estados Unidos. A caneca em que a gente tomava o achocolatado tinha o símbolo do Aliança Para o Progresso, um programa do americano pra evitar que o brasileiro se entregasse ao comunismo.

No currículo da escola tinha educação física. Quem ministrava a aula era um militar, salvo engano, que vivo salvo enganando-me, tenente do Exército. Imagino que fosse admirador de Herodes, porque o objetivo da física do tenente parecia ser o de eliminar os garotos. O colégio era misto, mas as meninas faziam física com uma professora, não sei se também da farda. Talvez fosse uma tática pra deixar a pirralhada sem energia pra perturbar na aula, ou no recreio. Tenho certeza de que foram aquelas aulas de educação física que me traumatizaram. Nunca nem pensei em me alistar pra fazer física numa academia. Até quando passo em frente à Academia de Letras me vêm à mente as dolorosas sessões colegiais de ginástica.   

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