TBToques – Ary Toledo já foi subversivo

Ary Toledo, paulista de Martinópolis, 85 anos em 2022,  é mais conhecido como o humorista que contava piadas cabeludas no programa de Silvio Santos. Sob sua chancela, com foto e nome na capinha vendiam-se nas bancas revistinhas com piadas pesadas,  geralmente politicamente incorretas e de mau gosto.

Mas existiu outro Ary Toledo, o humorista da esquerda nos anos 60. Seu primeiro LP, Ary Toledo no Fino da Bossa (RGE), de 1966, gravado ao vivo no teatro da TV Record, é provavelmente o primeiro álbum de humor de protesto (nunca relançado em CD). O repertório tem parceria rara de Gilberto Gil e Augusto Boal (Testamento do Padre Cícero), Vinicius de Moraes e Carlos Lyra (Pau de Arara), Chico de Assis e Carlos Castilho (Descobrimento do Brasil), César Roldão Vieira (O Anúncio), e algumas adaptações feitas pelo próprio Toledo, As Virgens Rezadeiras, Incelença, Os Ovos que a Galinha Pôs.

Tiradentes, a música que ilustra a postagem é parceria de Ary Toledo com Chico de Assis (dramaturgo, ator, compositor, ativista, muito atuante nos anos 60 e 70). Na letra e nas inflexões da interpretação há referências à conjuntura política da época, quando o Brasil entrava no segundo ano do regime militar. Uma pena que Ary Toledo no Fino da Bossa nunca tenha sido lançado em CD, reeditado em vinil, ou mesmo disponibilizado nas plataformas de música digital. Toledo continuou nessa linha durante a década de 70. Os discos com músicas de duplo sentido, e piadas de sentido explícito ele começou a gravar nos anos 80, e tornou-se sua marca, popularizada pela TV. Lembrando que Ary Toledo é também ator. Participou a primeira versão do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna,  dirigida por George Jonas (filmado em Pernambuco), e de Esse Mundo É Meu, de Sérgio Ricardo, ambos nos anos 60. Voltaria às telas somente em 1984, em Tentação na Cama, de David Cardoso.    

NO PALCO

Pau de Arara é uma música que integrava o repertório do musical Pobre Menina Rica, de Carlos Lyra, Dulce Nunes e Vinicius de Moraes (também um com um LP muito raro). A canção não destacou até 1965, quando foi lançada por Ary Toledo, a interpretação e o subtítulo, Comedor de Gilete (“gilete” na época era gíria para bissexualismo) levaram Pau de Arara aos primeiros lugares das paradas país afora. O LP de 1966 fez cada vez mais sucesso, à medida que o regime recrudescia. Ary Toledo circulava pelos palcos das principais cidades do país, com o espetáculo A Criação do Mundo Segundo Ary Toledo (roteiro de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri) que chegou ao Recife em 15 de fevereiro de 1967, já com 400 apresentações, pelo Brasil, todas de casas lotadas. No Recife o palco de Ary Toledo foi o do Teatro Popular do Nordeste, na Conde da Boa Vista. Na capital pernambucana não foi diferente: O espetáculo estendeu-se até o dia 26 de março, sempre de teatro lotado. Em 29 de março foi publicado nos jornais locais o encerramento da temporada devido a força maior: a censura. “Os espetáculos da Crianção do Mundo Segundo Ary toledo foram cancelados na última semana, uma vez que os cortes feitos pelo Serviço de Censura Federla da Delegacia Regional Tornaram Impossível sua realização”. Abaixo anunciava-se a peça que o substituiria: Um Inimigo do Povo, de Ibsen.

Ressalte-se que um espetáculo emoldurado pela política, com críticas ao regime, até então circulava livremente, numa época de baixa polarização, ou pelo menos, da aceitação de ideias divergentes. No fatídico 13 de dezembro de 1968. Ary Toledo continuava com seu show político, mas neste mesmo dia sofreu a primeira prisão, por contar uma piada sobre os desmando do AI-5. Seria preso mais duas vezes. Numa dessas, o coronel era seu fã, e foi liberado. Ficou famoso o trocadilho que causou uma da suas idas ao Dops: “Quem não tem cão caça com gato. Quem não tem gato cassa com ato”.  

Em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, Ary Toledo cantando Tiradentes, a primeira música que gravou, lançada em compacto em 1965:

2 comentários em “TBToques – Ary Toledo já foi subversivo

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  1. Botou pra torar, Teles, mais uma vez! ôh sorte!!!
    O TBD fez seu primeiro trabalho profissional,como iluminador, nessa temporada de 25 shows do Comedor de Gilete, no TPN, em 1967. Ganhei um dinheirinho bom na época, viu?! Lembro que minha mãe não gostou nada daquelas bufunfas de $ nas minhas mãos, toda semana! Era um tal de Cuba Libre, Montilla com Coca-cola, arrmaria!!!

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