Cannibal (entrevista): “Tema social na música, no Brasil, é atemporal, independente do estilo”

Marconi de Souza Santos, ou melhor, Cannibal, vocalista e baixista da Devotos, conversou com titular deste telestoques sobre Punk Reggae, o novo disco da Devotos, ativismo e otras cositas mas.  Como a entrevista ficou com um texto longo, optamos por postá-la separada da matéria sobre o álbum. Ei-la:

Telestoques – Conta aí a ideia de um disco de reggae por uma banda de punk hardcore:

Cannibal – “Chamamos Pedro Diniz, ele fez os arranjos totalmente reggae roots, percussão, backing vocal, teclados e naipe de metal, esquema reggae roots mesmo. Foi só pegar as músicas em que a gente já misturava o punk com reggae, o que tem em quase todos os nossos discos, menos o primeiro. O Agora Tá Valendo não tem reggae, mas a Devotos já fazia punk reggae há muito tempo. Não sei por que no primeiro disco não entrou, acho que porque a gente tinha tanta música sobrando, que ficou difícil fazer o repertório, tinha muita coisa pra escolher umas vinte. O critério deste disco foi este.

Telestoques – Os temas sociais, políticas, o engajamento estão em todas as faixas, o que uma marca da Devotos

Canibal – Tema social na música no Brasil é atemporal, independente do estilo punk, hardcore, metal, pagode, brega, hip hop. Você pega Gilberto Gil com a música felicidade Guerreira, que acho que é dos anos 80, parece que ele tá falando de agora (n – a música, de 1984, é da trilha do filme Quilombo, de Cacá Diegues) a música de Belchior parece tá falando de agora. Principalmente o Brasil que estamos vivendo agora, com um governo bastante excludente, que não respeita a negritude a classe lbgtqia +, não governa pra ninguém, só para os ricos. Que é contra medicina, contra a saúde, contra várias coisas, não sei como chegamos a um governo como este. A gente deu muitos passos atrás, não é que tava mil maravilhas com outro governo, mas, cara, a gente piorou muito, muito. É um governo que foi anunciado antes de assumir pelo seus discursos e pela arrogância que a gente via na mídia. Falar destes temas sociais hoje é imprescindível pra qualquer tipo de música independente de ser punk ou não. Tem que falar sobre isto, tem que debater, conversar e ocupar. A diferença daquela época pra de hoje é que a gente não ocupava, só falava. A gente vê as classes querendo ocupar, a negritude, a lbgtqia +,  quem luta contra gordofobia querendo ocupar. Por ocupar, querodizer se candidatar, isto é,  tá lá dentro do congresso, ser um deputado, um vereador, a galera tá fazendo isso, não espera alguém fazer por ele. Querer que uma pessoa que não sofreu o que você sofre que sinta aquilo é difícil. Não que não tenha alguém que não tenha sensibilidade. Tem, mas são muito poucos, e às vezes não tem tanta força. Então é importante ocupar estes lugares. Artistas que fazem isto aí, independente da classe artística, pode ser um fotógrafo, pode ser um escritor, um dançarino, qualquer um. Mas que se fale sobre isto, porque a enxurrada de fake news, que a gente vê e escuta na mídia, tá sendo muito nociva, está entrando muito fácil dentro das comunidades, no subúrbio. As pessoas que não gostam de ler, só assimilam o que vêm na televisão ou na internet, e ela pega aquilo como uma verdade. Falar sobre isto é muito importante, principalmente nos tempos em que vivemos agora.

Telestoques – A bandas de sua geração ou acabaram ou mudaram a formação. A Devotos está há mais de 30 com os mesmos integrantes, você, Celo e Neílton. Qual o segredo desta longevidade?

Cannibal – O segredo do Devotos pra não mexer no time? Cara, a gente aprendeu a tocar junto. Conheço Neílton desde os cinco anos de idade. A gente começou no jardim de infância aqui no Alto Zé do Pinho. Celo, eu conheço desde os 12 anos, das peladas da vida aqui na comunidade. A gente se conhece antes de ser músico. Cada um gostava de um estilo musical diferente. Eu entro no movimento punk, e convidei Celo pra tocar, depois um amigo chamado Anselmo, daí Neílton entra. A maior dificuldade de uma banda pra prosseguir, nem falo de longevidade, é ela ter uma identidade, senão fica igual às outras, principalmente no estilo que a gente escolheu o punk, que é muito limitado, limitado que digo é de batidas, estas coisas. Se a gente não tem um baterista versátil feito Celo, que  tem a mente muito aberta pra música, você fica mais do mesmo. Quando a gente viaja, pro Sul as pessoas piram na bateria de Celo, que acham muito diferente, ou na guitarra de Neílton, que é uma coisa muito própria dele. A gente não muda nosso sotaque. Nossa gíria é cotidiana do nosso estado, da nossa comunidade. Tudo isto a gente bota dentro, e faz questão de ser assim, e quando a gente viaja a galera pira.

Tem uma passagem que não esqueço. Quando fomos tocar na França, no festival Vive Le Punk, a gente tocou antes do GBH, que é uma das bandas de que fomos fãs até antes do devotos, eu tinha os discos. Foi em 2014. Quando terminamos, o baterista vai falar com Celo: “Cara você toca pra caralho, como é que você toca desta forma?”. Celo não tem o padrão de tocar hardcore ou punk como todos tocam. Tem o jeito dele de tocar, isto ficou muito rico na Devotos. As pessoas sacam a Devotos pelo som, pela batida. A longevidade é como um casamento, e nem todo casamento dura tanto quando a Devotos. Tem a paciência de nos entendermos. Resumindo, Se qualquer um sair da banda acaba. Se Celo sair acabar a banda, se Neílton sair acaba a banda. Não vejo a Devotos sem estes dois, não consigo tocar sem estes dois. Tenho isto dentro da minha cabeça desde que a gente se entendeu como banda. A gente consegue se suportar, também tem isso. Na alegria, e na chatice, no choro e na tristeza, se entender, perguntar como o outro tá fora da banda, saber como tá a família. Vai além da música, tocar, ensaiar, A gente não tem uma obrigação, mas a vontade de tocar juntos, como banda ou como ação social, que a gente começou aqui na comunidade.

A gente se entender muito. Não dá pra ensaiar hoje, não rola. Não tô com cabeça pra gravar, pra ensaiar, precisa dar um tempo, vamos fazer em tal dia. Quando tá na correria não tem como tirar o pé é pra tá na correria mesmo. Não tem estresse, a gente confia muito um no outro, aí está a longevidade. Nas rodas de debates, palestras de que participo perguntam muito isto. Não é encontrar o melhor guitarrista, melhor vocalista, o baterista que toca pra caralho, a parada é encontrar as pessoas que queiram aprender junto com você, que saiba o limite do outro, que saiba que essa é a hora do outro. A gente diz pra quem tá começando que procurem aprender juntos, mesmo que o cara toque pra caralho, pode não tá no clima da banda. O cara que toca pra caralho pode achar que tá acima do resto da banda. Procurem achar uma identidade, senão é mais do mesmo. Sei que midiaticamente falando tem certos estilos que as pessoas saem consumindo, mas aquilo é uma laranja que as pessoas vão chupando, no fim só vai ficar o bagaço. Quando você tem uma identidade dura pra sempre. E aí depende de você.

O disco que gravei em 2008 foi o Café Preto, sempre quis sair da Zona do Conforto, fazer outra história tocando a mesma coisa do Devotos, pra era sem noção. O reggae um ritmo que sempre curti, esmo dentro do movimento punk, que me incentivou a curtir reggae foi o guitarrista do SS20 me mostrou Gregory Isaac e outros grupos além de Bob Marley, e comecei a toar na música do Devotos. Tem uma coisa dentro de mim que é muito particular como morado do Alto Zé do Pinho, a gente não consegue ser bitolado no estilo, num bairro que tem maracatu, afoxé as duas escolas de samba, Galeria do Ritmo e Gigantes do Samba já foram daqui do Zé do Pinho, fora isso surge um monte de bandas de todos os estilos, Nanica Papaya, B.U, Faces do Subúrbio, Matalanamão, Aostenta, você não consegue ficar bitolado. Na minha discoteca, tem de tudo, de samba, a punk rock hardcore, metal, a pop, a brega, é o meu cotidiano. Fazer um projeto de reggae é o que eu tava querendo, participei de projetos de outras galera que não é punk, Monica Feijó, Otto, Nação Zumbi, participei pra caramba do show desta galera. O reggae é um estilo que tá muito perto do punk. Tematicamente falando, e se você for ver que na cadeia de festivais é um dos ritmos como o punk excluído. Você não vê festival com banda de reggae, você não vê Devotos nesses festivais que rolam no Recife. Á um apartheid cultural com o punk e com o reggae, a maioria de banda de reggae e punk surgiram em comunidades, são bandas de preto. E juntar reggae e punk the Clash já fazia isso, é uma parada muito parecida. Sempre rolou na Europa, mas no Brasil é uma coisa que causa espanto as pessoas, isto mudou muito, com estas tecnologias, mas já tem festival afro punk. Não tá na mídia mas tem uma boa visibilidade.

(Cannibal com a Café Preto, em foto de Vanessa Alcântara)

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