Edmilson do Coco, um poeta do cotidiano, estreia em disco com Eu Sou Verdadeiro

“Não leio e nem escrevo minhas composições. A queda de um coqueiro me fez esquecer as letras. Componho por meio da oralidade e pelas entoadas nas sambadas de coco do bairro e região, ritmo que conta com mais de 100 anos de tradição no Amaro Branco. Venho cantando coco há 30 anos. Gosto da brincadeira, gosto de coração. Comecei a cantar coco, gostei da brincadeira e sigo até hoje”. Palavras de Edmilson do Coco, que lançou o disco de estreia, aos 71 anos. Inusitado um coquista cair de um coqueiro? O inusitado acompanha Edmilson do Coco. Ele conta que seu irmão, o coquista Ferrugem não queria que ele cantasse coco, deveria se limitar a tocar em seu grupo. Chegando em casa, conta Edmilson, estava passando a novela O Clone veio-lhe a inspiração de compor um coco, pra mostrar a Ferrugem que tinha jeito pra coisa: “Mas menina eu não sou clone/eu sou verdadeiro”, o refrão.

O Clone é uma das seis faixas do EP Eu Sou Verdadeiro, de Edmilson do Coco, um dos mestre coquistas do Amaro Branco, o bairro de Olinda rico em vários ritmos, onde vivem e viveram alguns dos grandes do coco de roda, uma tradição do local, que passa de pai ou mãe pra filhos ou filhas. No caso de Edmilson veio do avô, João Francisco da Luz. O coco de Edmilson flui despretensioso, na base do canto e resposta, com um método inusitado de criação: “Tenho vários cocos, muitos estão escritos lá no pneu (no Amaro Branco). E não esqueço de nenhum. A turma fica em pé porque eu não sei escrever, mas eu faço coco, vou dormir e no outro dia canto. Passa um ano e canto do mesmo jeito. Quando faço coco, às vezes estou dormindo. Quando acordo, ele está pronto, então eu canto e já boto na nota”. O “pneu” a que se refere é a Sambada de Coco do Pneu, que acontece mensalmente no Amaro.

Edmilson Bispo dos Santos, o Edmilson do Coco, faz música do seu cotidiano, às vezes ações triviais, como um corte de cabelo do neto pode acabar num coco. O neto costumava chorar quando ia cortar o cabelo. Edmilson prometeu-lhe que faria uma música para ele (que se chama Guilherme), se este não chorasse durante o corte. O garoto não chorou. O coco prometido é uma das faixas do EP, na verdade com mais de seis cocos, pelo par de pot-pourris que incluiu. Num deles canta galo da Madrugada, Maca Como Cheira e Dedo Mindinho. Noutro reúne os cocos O Trem de Carga, Dengue e Cupim Comeu. Aliás, o coco Dengue bem que poderia ser utilizado pela prefeituras numa campanha institucional contra o aedes aegypt, o mosquito que transmite a dengue. Edmilson do Coco é um contador de histórias uma das melhores do disco é o Cupim Comeu, que lembra o poema Os Três Mal Amados, de João Cabral de Melo Neto: “O cupim comeu/começou na cumeeira/comeu tudo o que era meu/comeu meu guarda-roupa/ele comeu minha cadeira/comeu a espreguiçadeira/comeu a cama que dorme eu”. O cupim pode ser tão devastador quanto o amor, segundo o poeta pernambucano: “O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus (…)”. 

O disco de Edmilson do Coco, lançado nas plataformas de música para streaming, foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc, produzido pela Aluar – Laboratório Cultural (Luanda Maciel e Laís Cabral). Foi gravado no Estúdio 1, no Varadouro, em Olinda. No afinado coro que canta com Edmilson, estão Caillany Barbosa (sua neta), Edilene Santos (sua filha), Marcela Souza e Ceci Medeiros. Raiani Anunciação, no ganzá, Isaac Souza e Márcio Melo (seu neto) nas percussões.

(foto da capa: Bruno Carvalho)

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