Leila Maria leva a música de Djavan para a África

Em meio ao popularesco, tendências e modismos, há pouco espaço para o refino de arranjos engenhosos, melodias complexas, e vozes singulares. Estas características permeiam Ubuntu (Biscoito Fino), sexto disco da cantora Leila Maria. Chega a ser irônico que nas citações mais recentes sobre ela na imprensa lembrem que Leila participou do The Voice Brasil 2021, com canções que ao distinto telespectador global devem soar muito estranhas, a exemplo de Night and Day, de Cole Porter (1891/1964). Leila Maria começou no final dos anos 90, numa época em que o Rio ainda mantinha prestigiadas casas noturnas onde o jazz era a trilha, Jazzmania ou Mistura Fina.

Ubuntu é o primeiro disco de Leila desde Tempo, de 2018, em que exercitou a canção autoral. Neste novo álbum ela incursiona pelo repertório de Djavan, projeto sugerido pela produtora Ana Basbaum, da Biscoito Fino, e abraçada pela cantora, que foi produzida por Guilherme Kastrup. Mas não se trata simplesmente composições consagradas do alagoano, na voz de uma das grandes intérpretes do país. A música de Djavan recebeu roupagem africana, porém sem os clichês percussivos, que a África não é só de tambores, usam-se harmonias sofisticadas no continente.

Na manjada Oceano, uma levada de música tuaregue Saara permeia a canção, com a guitarra do congolês Zola Star, e do descendente de congoleses François Moleka. Ubuntu é um álbum pan-africano-brasileiro, com convidados de Moçambique, Milton Gula, Otis Selimane, e a moçambicana Selma Uamusse (voz em Asa). Do Mali vieram o maestro Ahmed Fofana e Assab Drame tocador de ngoni, instrumento de cordas, comum no Norte da África. E ainda o Vocal Kuimba, formado em São Paulo por estudantes angolanos.

 De brasileiros de ascendência afro, que está em nossa população inteira, independente do tom da pele: Beth Beli e Jackie Cunha nos tambores (do grupo Ilu Obá de Min), a cantora e pianista Maíra Freitas (filha de Martinho da Vila), o violoncelista Jonas Moncaio. a baixista Ana Karina e o naipe de sopros formado pelo casal Richard Fermino e Sintia Piccin. Por fim, mas não menos importante, a participação de Maria Bethânia, declamando na faixa Seca (com o piano de Maíra Freitas).

O lugar comum passa por longe de Ubuntu. Meu Bem Querer, uma das mais regravadas de Djavan, ganha vocalizações sul-africanas à Ladysmith Black Mambazo (do disco Graceland, de Paul Simon). A roupagem afro faz parecer nova, o samba Flor de Liz, a favorita dos músicos de barzinho. Ubuntu traz nove faixas assinada por Djavan (e parceiros, entre estes Chico Buarque, em Tanta Saudade), mas com inserções de trechos de canções, como Tobina, em Soweto, com participação de Zola Star, um ponto de Exu e Fato Consumado em Aquele Um (parceria com Aldir Blanc), ou na citada Tanta Saudade, de Bolingo Na Nagai, de Zola Star, que participa da faixa.

 “Esperamos que esse projeto contribua para o entendimento da importância fundamental da cultura africana na nossa formação. E que nossa sociedade aprenda a respeitar e valorizar os corpos negros em toda a sua beleza e sabedoria”, pondera o produtor Guilherme Kastrup. E a valorizar também o talento de Leila Maria, além de aprender que as nações africanas, reiterando, são muito ricas em percussão, mas também em melodias, vocais e instrumentos harmônicos, feito o supracitado ngoni.

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