The Beatles 60 anos (8) – O “estágio” em Hamburgo, e a procura por uma gravadora

Uma dos episódios acontecido no teste que os Beatles fizeram, na Parlophone, para o produtor George Martin foi o da gravata. Martin perguntou aos quatro rapazes se havia alguma coisa ali de que não gostavam. George Harrison prontamente respondeu: “Eu não gosto da sua gravata”. Logo em seguida seriam contratados e o resto é história contada em milhares de livros. Na realidade, a resposta de Harrison foi providencial. Quebrou o gelo de um clima tenso. Momentos antes o grupo estava prestes a receber mais uma dispensa. Depois de tocar para o produtor e técnicos no estúdio da EMI que tornariam célebre, localizado numa mansão em Abbey Road, os Beatles não agradaram. Martin não gostou do repertório, sobretudo do autoral, considerou muito ruins as composições assinadas por Lennon & McCartney. Não gostou do desempenho como um todo. Particularmente do baterista Pete Best. Viu potencial na voz de Paul, só.

 Depois de mais ou menos uma hora de uma hora de comentário e admoestações veio o episódio da gravata. Em seguida os quatro entabularam uma conversa informal com George Martin e seu assistente, que foram conquistados, porque os rapazes, além de muito espirituosos, contaram histórias hilárias, que levou George Martins e o pessoal do estúdio às gargalhadas. O aparentemente sisudo produtor gostava e entendia de humor. Produziu vários discos de humoristas ingleses, muitos de Liverpool. Era o filão do Parlophone, um selo menor da EMI, sem nenhum artista de sucesso, mas foi o último que restou ao empresário Brian Epstein, depois de ter seus contratados recusados por todas as gravadoras que procurou.

Já o destino de Pete Best foi selado em 5 de fevereiro de 1962. Nesse dia o grupo faria um show no The Cavern. Best avisou que não estava se sentindo bem, e não poderia comparecer. Naquela noite ele seria substituído por Ringo Starr, da Rory Storm and The Hurricanes que não tinha show na data. Era a banda mais bem sucedida de Liverpool na época. Ringo Starr voltaria a tocar com os Beatles no The Cavern em 19 de agosto daquele ano, agora como integrante fixo do grupo. Pete Best foi demitido por Brian Epstein, o que provocou tumulto na estreia de Ringo como um beatle. Best (“melhor”) é um sobrenome que fazia, em parte, jus a Pete. Era considerado o mais bonito da banda, o que mais tinha fãs. Na Confusão daquela noite, George foi ao banheiro, forçou caminho para passar, o clube era escuro, de repente alguém lhe deu uma cabeçada no rosto, que o deixou com um olho roxo.

Porém, Ringo Starr só aceitou entrar nos Beatles pelas 25 libras semanais que lhe foram prometidas. Um bom dinheiro então. Apenas com o curso primário, ele já estava com 22 anos, quando recebeu o convite. Não foi para um grupo chamado Dominoes, porque com os Beatles ganharia cinco libras a mais. Mas a acreditar no destino, o lugar de Ringo Starr era nos Beatles. Em Hamburgo, ainda com a banda de Rory Storm, num dia em que Pete Best fora ao Centro da cidade comprar baquetas, os outros beatles estavam num pequeno estúdio fazer uma gravação, bancada pelo empresário que os trouxe à Alemanha, Alan Williams. Ringo estava no estúdio gravando com Rory Storm and the Hurricanes, e gravou com John, George e Paul, três standards americanos, Fever (Eddie Cooler/Otis Blackwell), September Song (Kurt Weill/Max Anderson), e Summertime (George e Ira Gershwin e DuBose Heiward).

Os Beatles tocaram em Hamburgo entre 1960 e 1962. O empresário Allan Williams, dono do Jacarandá, melhor clube de Liverpool, descobriu que havia espaço nas casas noturnas do porto de Hamburgo, destruído pelos aliados na Segunda Guerra, recuperado e movimentadíssimo. Os grupos de músicos muitos jovens, desempregados tocavam, por ninharia, em média oito horas por noite, divertindo marinheiros bêbados e prostitutas. Valia tudo. Num desses clubes, Kaiserkeller, o dono notou a ausência de John Lennon no palco, e mandou o leão de chácara procurá-lo. Lennon estava com uma moça num dos sanitários. O segurança, Horst Facher (que mais tarde seria um produtor bem sucedido na Alemanha), encheu um balde com água, deu um banho nos dois, e mandou que Lennon fosse para o palco. Ele alegou que não poderia tocar com a roupa encharcada. Facher vociferou um “Te vira”, e partiu pra cuidar dos seus afazeres. Por pouco tempo. Foi conferir o que motivava a gritaria no salão. Deparou-se com John Lennon tocando apenas de cueca, com um assento de vaso sanitário no pescoço.

A viagem a Hamburgo foi fundamental para compor as peças do quebra-cabeças iniciado em 1956, com o nome de The Quarrymen. Na cidade portuária alemã o grupo testou os limites que podiam estender enquanto se apresentavam. Não poucas vezes pessoas subiram no palco provocado por algum dos integrantes, sobretudo John Lennon, que costumava gritar slogans e fazer a saudação nazistas. Em Hamburgo foi adotado o corte de cabelos que chamaria atenção no início do sucesso. Foi também lá que o grupo blindou-se com uma autoestima que levou seus integrantes a perseverar até alcançar o estrelato, e a se impor depois disto.

A gravação que fizeram com o cantor Tony Sheridan, incluindo a primeira autoral, Cry for a Shadow, instrumental de Paul e George, não chegou a ser um sucesso internacional. No entanto tamanha foi a quantidade de adolescentes procurando pelo disco na NEMS, a principal loja de discos em Liverpool que levou seu dono, Brian Epstein, a assistir aos Beatles no The Cavern, e contratá-los, sem nunca ter sido empresário de artistas. Hamburgo foi a graduação do quarteto que começou em clubes de segunda, dormindo num velho cinema, sendo até deportados do país. Na última temporada, já com Ringo Starr como baterista, hospedaram-se num dos melhores hotéis da cidade, e tocaram no melhor local, o Star Club.

Os quatro músicos, eram muito jovens para enfrentar as feras do show bizz, mas quando se tornaram o grupo mais quente do planeta, sabiam do seu potencial, e de que os empresários dependiam mais deles do que vice-versa. O jornalista Larry Kane, autor de algumas biografias setorizadas dos Beatles (uma delas sobre as turnês americanas. Viajou com o grupo em todas elas), conta um episódio ocorrido em Kansas City, entre John Lennon e um poderoso figurão do entretenimento, Charles O. Finley, dono do clube de baseball local, e contratante do show dos Beatles.

Depois da apresentação com o estádio lotado (com duração de mais ou menos 40 minutos), Finley ofereceu dinheiro para a banda tocar mais algumas música. Recebeu um “Não” de Lennon, diante de um constrangido Brian Epstein. O milionário aumentou a oferta. “Por dinheiro algum”, foi o que ouviu de John Lennon. Ofereceu mais dinheiro, e aí John perdeu a esportiva: “Não Chuck, por porra nenhuma”. O empresário saiu do camarim irritadíssimo. Um mortificado Brian Epstein só faltou se ajoelhar para que os Beatles cantassem ao menos uma canção. Foi atendido. Os Beatles tocaram Kansas City, de Little Richard. Foi a única vez em todas as turnês que deram um bis.  

Certamente a performance que causou má impressão a George Martin tenha sido causada por dois episódios recentes. Cynthia a namorada de John Lennon engravidara (casaram-se em agosto), e na última viagem a Hamburgo, a primeira de avião, a alemã Astrud Kirchherr os esperava no aeroporto. Viera não apenas receber os amigos, mas lhe dar uma péssima notícia: Stuart Sutcliffe, que deixou os Beatles para viver com ela em Hamburgo, morrera, vitimado por um câncer no cérebro. Tinha 22 anos. Na verdade, ele também saiu do grupo por se desentender com Paul McCartney. Chegaram a se engalfinhar em pleno palco. Segundo biógrafos, amigos próximos à banda, existia uma ciumeira de McCartney à amizade entre John e Stuart, colegas de turma no colégio de arte em Liverpool. Paul nega, garante que queria Stuart fora do grupo pela sua inépcia no contrabaixo. Ele assumiu o instrumento com a saída de Stu.

Em sua biografia Pete Best confessa que ele e os outros beatles estavam nervosos quando fizeram o teste na Parlophone. A performance foi morna, sem a energia dos shows em Liverpool desde quando ainda se chamavam The Quarrymen. O The Beatles foi adotado em agosto de 1960. Antes foram Johnny and The Moondogs (por pouquíssimo tempo), depois The Silver Beetles. O “beetles” (“besouros”), veio tanto dos Crickets (“grilos”), o grupo de Buddy Holly, quanto do filme O Selvagem (The Wild One, de László Benedek, 1953), com Marlon Brando. Nele uma das gangues de motociclistas denomina-se The Beetles. Concordam todos que o “a” de “Beatles”, foi ideia de John Lennon. O “beat” de beat generation,  a geração de escritores que revolucionou a linguagem da literatura americana nos anos 50. Tornaram-se, pois, The Silver Beatles, e finalmente The Beatles.

(na foto, Stu Sutcliffe e John Lennon, no Top Ten, em Hamburgo, em 1961)

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