Discos de 1972: LP da Zabumba Caruaru causou estranheza à crítica, mas foi sucesso de público

1972 foi um ano especial para a música popular brasileira, apesar da censura feroz, lançaram-se alguns dos discos fundamentais, celebrados em 2022, quando completam 50 anos. Um desses, no entanto, embora com grande repercussão na época, não figura em nenhuma das listas publicadas em jornais, revistas, blogs, sites: o LP Bandinha de Pífanos, com a Zabumba Caruaru, produzido pelo compositor, e cantor, também caruaruense, Onildo Almeida, e direção musical do paraibano Abdias, responsável pelo setor de música nordestina na CBS.

Criada em 1924, portanto, há dois anos do centenário, o grupo ainda está em atividade, em São Paulo, com o nome de Banda de Pífanos de Caruaru. O “zabumba” do nome original, porque era como, em Pernambuco, se chamavam os ternos de pífanos. Havia umas variantes usadas eventualmente “isquenta Muié”, ou “quebra resguardo”.  A banda poderia ter continuado até os tempos atuais em Caruaru. Mas o grupo, formado por integrantes da mesma família, os Biano, teve uma mudança de rota com coordenadas traçadas pelo acaso.

Em maio de 1967, Gilberto Gil veio ao Recife para cumprir uma temporada de 15 shows show no Teatro Popular do Nordeste (TPN). Passou mais ou menos um mês na capital pernambucana, fez amigos e influenciou pessoas. Foi levado para conhecer a cultura popular da Zona da Mata – ciranda, cavalo marinho, maracatu rural etc – e do agreste, mais precisamente Caruaru, a 139 km do Recife. Foi lá que conheceu a Zabumba Caruaru, que fez uma apresentação especial para o baiano. A conjunção da música pura da banda de pífanos com o pop experimental dos Beatles formou a centelha que impulsionaria as ousadias estéticas que recebeu o nome de Tropicália.

O primeiro show de Gilberto Gil no Brasil, quando voltou do exílio londrino, aconteceu no Teatro do Parque, no Recife. Gil voltou à Caruaru para rever a Zabumba Caruaru, e decidiu abrir o álbum Expresso 2222 com o terno pífano dos Biano tocando o tema Pipoca Moderna (que mais tarde receberia letra de Caetano Veloso). Esta participação fez o nome do grupo ecoar país afora. Desde A Feira de Caruaru, de Onildo Almeida, gravada em 1957, por Luiz Gonzaga, a cidade não era tão citada país afora.  O prefeito convocou o citado Onildo Almeida para que fosse gravado um disco da Zabumba Caruaru. Almeida entrou em contato com Abdias, marido da cantora Marinês, a quem ele fornecera vários sucessos, e ficou acertada gravação do LP de estreia do grupo, com um repertório que ia além do tradicional, com composições de Onildo Almeida e de Janduhy Finizola (outro fornecedor de música para Luiz Gonzaga, potiguar, mas que viveu a maior parte da vida em Caruaru).

A recepção o álbum pela imprensa, ficou entre a estranheza, total desconhecimento do que se tratava, e elogios rasgados.  Carlos Renato (jornalista e jurado do programa de Flávio Cavalcanti) contestou o repertório, e o texto de Luiz Queiroga na contracapa do LP, não entendendo o que estrelas da MPB feito Gilberto Gil ou Edu Lobo teriam a ver com a Zabumba Caruaru, desconhecendo os contatos de ambos com o grupo (Edu Logo foi à Caruaru em 1972). O comentário de Zé Renato foi publicado no carioca O Jornal, com mais cinco opiniões. Algumas elogiando, outras, sem assimilar o que escutava pela primeira vez, destilando sarcasmo e ironias: “Conheço um cara, o Nélio Leal Bastos, que logo aos primeiros sons começou a passar mal. De qualquer maneira, fico imaginando o sucesso da bandinha nos forrós dos coronéis de fazendas. À beira do fogo. Para encerrar, por ser inquebrável o disco continua nas imediações da minha discoteca, onde a entrada de coisas como esta será proibida”, de Dudu Castro.

 No Tribuna da Imprensa, Roberto Moura, então um dos críticos mais importantes do país, sugere que o interesse dos jovens pela bandinha de pífanos seria porque eles não queriam ficar por fora. Refere-se às apresentações do Zabumba Caruaru no Museu de Arte Moderna, no Rio, para plateias entusiasmadas, e no Teatro Opinião.  Aliás, não foi a primeira vez que um terno de pífanos se apresentou no Rio. 12 anos antes, Mestre Vitalino, o célebre artista do barro, foi levado ao Rio para expor seu trabalho, e ilustrou a mostra com o som de um grupo de pífanos liderado por ele.

DISCO

É arrebatadora a intepretação do Zabumba Caruaru de A Briga do Cachorro com a Onça, a complexidade da percussão de pratos, zabumba e tarol deixou críticos embasbacados: “O tarol bate em vários ritmos ao mesmo tempo o que, por milagre dá à composição um certo charminho. Mas é só”, do citado José Renato, que entendeu que a percussão foi invenção de estúdio, e não arranjo da própria zabumba. Creditado no disco a Sebastião Biano, o tema é de domínio público com cada banda de pífanos criando sua própria interpretação. Até então a música de manifestações populares eram gravadas basicamente por pesquisadores, e assinadas como de “domínio público”. Mas Sebastião prova que é bom compositor no frevo de rua Segura o Passo, Zé, um primor na adaptação do instrumental da zabumba para uma música até então quase sempre tocada por orquestras,

Que o forró deve muito às bandas de pífanos é ratificado na versão de A Feira de Caruaru, parte da música é cantada, melhor seria se fosse apenas instrumental, que no disco soando como um autêntico tema dos zabumbas. Vozes caem melhor em Bloco das Flores, de Onildo Almeida, originalmente um frevo de bloco, tocado à maneira da Zabumba Caruaru. Para quem a escutou a banda de pífanos pela primeira, a música deste disco deve ter soado esquisita, fora dos padrões da MPB que se tocava na época. Isquenta Muié (grafado no rótulo do disco como Esquenta Mulher) tem a mesma estrutura da música indígena dos caboclinhos do carnaval recifense, o que provavelmente causou ainda mais estranheza.

Meio século depois o álbum de estreia da Zabumba Caruaru continua atual, Carlos Malta e o Pife Muderno que o digam. Infelizmente fora de catálogo há décadas, e não se encontra nas plataformas de música para streaming, mas está disponível no Youtube. Sugiro uma ida ao site: forroemvinil.com     

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