The Beatles 60 anos (9) – O jornal que divulgou o novo som de Liverpool, e teve John Lennon como colunista

A primeira coisa que chamou atenção em John Lennon, quando o viu pela primeira vez, na cantina do colégio, foi o corte de cabelo D.A, popular na Inglaterra no final dos anos 50. D.A são iniciais de “duck ass”, ou “cu de pato”. Uma trunfa alta na frente que terminava afinada na nuca. Quem faz esta referência sobre Lennon é Bill Harry, um cara de Liverpool que fundou um jornal fundamental para divulgar a cena musical local, que batizou de Mersey Beat. Este também o nome do tabloide que editou entre 1961 e 1964. Mas Harry não se limitava ao jornalismo. Foi ele que acertou a ida de Brian Epstein ao The Cavern Club. Assim como John e Stu Sutcliffe, ele estudava na escola de artes de Liverpool, e poucos contemporâneos conhecem mais a fundo os primeiros anos dos Beatles quanto Bill Harry, que está com 84 anos, e ainda mora em Liverpool.

Com John Lennon, Stu Sutcliffe e Rod Murray, todos da escola de artes, ele formou o The Dissenters, um ensaio de grupo de vanguarda, que abarcava mais do que música. Esta ficaria por conta de John Lennon, Stu se ocuparia das artes plásticas, e Bill Harry e Don Murrray da poesia (muito influenciada pela geração beat americana). A intenção foi fazer música. Murray tentou construir um contrabaixo,  inacabado, que guardou pela vida inteira. Não terminou de fazer o instrumento, porque Stu Sutcliffe vendeu uma tela que pintou, com o dinheiro comprou um contrabaixo, e acabou entrando para os Silver Beatles, que se tornava muito popular em Liverpool. A única obra que se conheceu do The Dissenters foi um trecho de uma peça intitulado Cinderella Spoof (Paródia de Cinderela), encenada em 1959 em Liverpool. No texto, o estilo de John Lennon no malabarismo com as palavras. Duas páginas originais, datilografadas, foram leiloadas pela casa Christie em 2002.  

Curioso é que o “beat” no nome do jornal, que deu nome à cena não vinha de “beat” (batida), mas da frase “police on the beat” (grosso modo, “pancada da polícia”, “polícia batendo”). Logo, em Liverpool, e no Norte da Inglaterra, onde o jornal circulava, “beat” virou sinônimo de rock and roll. Ao se dizer uma beat band sabia-se que significava uma banda de rock. Não foi fácil fundar o jornal. De uma família sem recursos, Bill Harry circulou pelos muitos clubes que tocavam música ao vivo em Liverpool tentando um empréstimo. Só conseguiu em 1961. Sua namorada saiu do emprego, e lhe emprestou 50 libras, o que ganhou de indenização. A primeira edição chegou às bancas em 6 de julho de 1961, e esgotou a tiragem de cinco mil exemplares.

Na época, lembra Harry, havia cerca de 500 bandas de skiffle e rock em Liverpool. Levando-se em conta que muitas tinham vida breve, e transformavam-se em outras bandas, ele estima que existiam 350 grupos com formação fixa na cidade. Parte da edição foi entregue a uma distribuidora para ser levado para bancas e livrarias da região, parte o próprio Bill Harry entregou pessoalmente em Liverpool. Na NEMs, a loja de discos de Brian Epstein, ele deixou 12 exemplares.  Logo receberia uma ligação e Epstein, pedindo cem exemplares. Os doze que deixara na loja foram vendidos em minutos.

Reza a lenda que no dia 28 e outubro de 1961, um adolescente chamado Raymond Jones entrou na NEMS e pediu um disco dos Beatles (o que gravaram com Tony Sheridan na Alemanha). Brian Epstein ficou curioso porque não tinha ideia de quem fossem. A história está na biografia de Epstein, A Cellar Full of Noise (Um Porão Cheio de Barulho). Mas o futuro empresário dos Beatles já sabia do grupo, e dos demais conjuntos que de Liverpool, porque não apenas se tornou amigo de Bill Harry, como se tornou colunista do Mersey Beat, resenhando lançamentos. John, Paul, George e Pete por esta época eram idolatrados pelas adolescentes, sem que os adultos, feito Brian Epstein, então com mais de 30 anos, se dessem conta.

Música para jovem adulto era jazz, então em voga na Inglaterra no estilo trad jazz, o jazz de New Orleans. The Cavern não contratava bandas de rock. Contratou os Beatles pela insistência, mas proibiu que tocassem rock. O grupo tocou, e a casa lotou. Daí em diante o rock adentrou o Cavern. Brian Kelly, dono de uma casa de shows renomada na cidade, o Litherland Town Hall, foi o primeiro grande empresário local a se dar conta da dimensão dos Beatles, então se apresentando como The Silver Beatles.  “Boxing Day” é um feriado bem inglês, acontece no dia seguinte ao Natal, quando os patrões presenteiam os empregados, nos dias atuais é dedicado a eventos esportivos, sendo também o início das promoções pós-natalinas.

No boxing day de 1960, Brian Kelly pretendia produzir um baile para jovens, mas não encontrava bandas dispostas a tocar nesse dia. Falou com Bob Wooler, um dos primeiros empresários dos Beatles, que recomendou o grupo tocar no Litherland. O cachê que os músicos pediram foi de 8 libras. Kelly achou caro para um conjunto desconhecido (para ele). Sugeriu 6 libras. Valor aceito.  Em 1963, quando os Beatles já eram campeões de vendagens de discos, e no topo das paradas inglesas, Brian Kelly escreveu, no Mersey Beat, sobre a primeira apresentação da banda na sua casa de shows:

“Na primeira apresentação deles fiquei completamente de queixo caído. Eles tinham uma batida de pulsação pesada que, tinha certeza, seria grande comercialmente. Quando terminaram de tocar, coloquei leões de chácara na porta do camarim deles para evitar que outros empresários fossem lá para contratá-lo”. Kelly contratou o grupo como banda fixa da casa. Colocou The Beatles, num enorme cartaz, com luzes florescentes, na fachada do Litherland Town Hall (foi alertado por passantes desavisados sobre o “a” em lugar de mais um “e” no nome “beetles”).

O Mersey Beat é uma das fontes mais consultadas para as centenas de biografias dos Beatles, e da cena musical, as primeiras foram publicadas em 1963, na Inglaterra. Nos 90 números do jornal não apenas se registram o fenômeno pop, mas os próprios protagonistas participam do quinzenário de Bill Harris.  John Lennon escreveu publicou poemas e assinou uma coluna sob o pseudônimo Beachcomber (“rato de praia”) Um trecho da coluna de estreia, antecipando os trocadilhos, e jogos de linguagem do livro A Spanniard at Work, d 1964, de tradução difícil: “In the jumble, the mighty jumble, White Hunter sleeps tonight” (uma paródia nonsense ao hit The Lion Sleeps Tonight, com The Tokes).

Elvis Presley desencadeou a revolução musical nos anos 50, e os Beatles a levou a limites inimagináveis. Numa das edições do Mersey Beat noticiava-se que John, George, Paul e Pete Best tinham o maior cachê já recebido por uma banda em Liverpool: 15 libras por um único show. Muita gente não acreditou.  

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