Discos de 72: Caetano Veloso conseguiu, com Transa, fazer um álbum experimental e popular

Transar há 50 anos não tinha o sentido de fazer sexo. Podia ser parceria, negócio, lucubrações, participar de alguma ação. “Ele agora está transando um novo som”, por exemplo. Expressão da moda, transa, substantivo, e transar, verbo, possuíam muitos significados. Em 1972, de volta de Londres, para onde foi, m 1969, depois libertado da prisão, com Gilberto Gil, durante o regime militar, Caetano Veloso transou o que, para muitos, é o seu melhor disco que, não por acaso, recebeu o título de Transa. O “transa”, abertura para muitas possibilidades.

Onipresente no cotidiano do brasileiro. Todos a usavam, até o poeta Carlos Drummond de Andrade. Na crônica Oito em Um, publicada pelo poeta no Jornal do Brasil, no mesmo ano do Transa de Caetano Veloso: “(…) Não tenho nada com esta transa de Petit Galerie, que reproduz 100 vezes em acrílico um modelo único. Não sou de acrílico, sou matéria viva, pulsante (…).

Há uma versão que explica o álbum ter sido batizado de Transa. Quando os militares permitiram a vinda de Caetano Veloso ao Brasil, em 1971, para participar da celebração do aniversário de 40 anos de casamento de seus genitores, tentaram convencê-lo, em vão, a compor uma música para a rodovia Transamazônica, um dos orgulhos do regime, motivo de muita propaganda instititucional do regime. Um ano mais tarde, Caetano deu ao país uma transa, mas nada amazônica.

Foi um disco gravado ainda na Inglaterra, em 1971, inicialmente visando o mercado europeu. Foi produzido por Ralph Mace, um cara que tocou sintetizador Moog no álbum The Man Who Sold The World, de David Bowie, e produziu discos de Henry Mancine, Tomita e Cleo Laine. Transa foi gravado em apenas quatro dias. Não foi lançado primeiro na Europa, porque o cantor recebeu o sinal verde para voltar ao Brasil: “Era o segundo que eu fazia lá em Londres, e tinha intenção de lançá-lo lá e no mundo. Mas como o louco Brasil deu sinais de que eu podia voltar pra cá, eu, que sou louco por este louco, nem tive dúvidas de que escolheria vir”, comentário de Caetano Veloso em matéria ao Estado de São Paulo, sobre os grandes discos de 50 anos atrás (assinada por Júlio Maria).

Transa foi o disco mais aguardado de 1972. Notícias sobre o álbum começaram a aparecer no início do ano, a gravadora, CBD/Phonogram, alimentou a ansiedade pelo atraso no lançamento. Culpa da capa, um prisma que se podia armar, assinado por Álvaro Guimarães. A boa intenção terminou provando-se, na prática, uma má ideia. As dobras de papelão não aguentavam muito manejo, e a capa acabava esfacelando-se. Já quando aterrissou nas lojas, compradores reclamavam de defeito na penúltima faixa do lado B, Neolithic Man.

Em seu primeiro show no Brasil, depois da volta do exílio, no Teatro João Caetano, no Rio, Caetano Veloso seguiu um roteiro assemelhado ao do disco Transa, com colagens, fragmentos, canções interligadas, bilíngues. Antecipou canções que permaneceriam inéditas por algum tempo, a exemplo de Conteúdo (gravada em 1974, por Edy Starr e pelo proprio Caetano), reverenciou Roberto Carlos em Quero Que Tudo Vá Pro Inferno, foi um show de reencontro com o Brasil, e o público. Lotados, os 1300 lugares do teatro, muita gente aceitou assistir a Caetano em pé. Mesmo assim do lado de fora as pessoas insistiam em entrar. Em dado momento, caetano Veloso foi à janela lateral e cantou para os que não conseguiram ingressos. As portas do João Caetano acabaram sendo abertas, e todo mundo entrou, mesmo que a maioria pudesse apenas escutar o show do hall do teatro.

Transa foi bem aceito numa época em que as pessoas tinham a cabeça aberta para o novo. Embora traga um repertório com várias canções conhecidas, Transa é um álbum experimental, numa estética alheia ao que era a MPB de então, e até mesmo aos discos que Caetano Veloso fizera até então. Numa entrevista à revista Bondinho (de 1972, concedida a Hamilton Almeida), Caetano confirma a semelhança entre o show e o disco, e conta como nasceu o conceito do álbum, criado por ele, Jards Macalé, Moacir Albuquerque, Áureo de Souza, Tutty Moreno, os músicos com que gravou Transa (com participação na gaita da então desconhecida Ângela Rô Rô na faixas Nostalgia (That’s What Rock ‘n’ Roll Is All About). Gal Costa tem participações em três faixas.

  Ainda na entrevista à Bondinho, Caetano comenta como foi se formando o repertório e o conceito de Transa: “(…) ao mesmo tempo apareciam convites para nos apresentarmos em diversos lugares da Europa, Suíça, França e a própria Inglaterra, e isso foi transformando o que a gente tava ensaiando num espetáculo. É muito parecido com o espetáculo, o disco”. Enquanto o primeiro LP que gravou na Inglaterra seja triste, impregnado de banzo, no segundo a luz verde da volta já era esperada. Essa probabilidade, levou Caetano Veloso a curtir mais Londres, mais os Beatles. Viu Lennon & Yoko, assistiu aos Rolling Stones:

“(…) Não tenho muito o que falar de Londres, porque é um negócio que ficou meio vazio na minha cabeça. Teve coisas que foram bacanas. Por exemplo, eu fiquei ouvindo melhor as músicas, as letras, reouvi os Beatles direito, porque eu não conhecia realmente direito, entende?”. Depois de elogiar o álbum solo de John Lennon (de1970, mas que só foi liberado no Brasil em 1974): “Vi o Lennon cantar uma vez. Vi os Stones duas vezes. Foi ótimo pra mim. E todo aquele relaxamento de que falei no início tá relacionado com a minha estada em Londres. Quer dizer, fiquei fora sem compromisso nenhum, e isso me deu possibilidade de me reaproximar da música brasileira de uma maneira assim, bem linda, sabe?”.

DISCO

Transa é um disco muito mais próximo de Hélio Oiticica (de cuja obra Tropicália veio o nome do movimento musical deflagrado em 1968) do que os discos tropicalistas. É mais ousado do que, por exemplo, o álbum de 1968. You Don’t Know Me abre o repertório, com citações a Maria Moita (Carlinhos Lyra e Vinicius de Moraes, e A Hora do Adeus, de Onildo Almeida e Luiz Queiroga (coincidentemente, Gilberto Gil gravaria Sai do Sereno, de Onildo Almeida, em Expresso 2222). Nine Out of Ten, a faixa seguinte, lançou o reggae na música brasileira, fruto das caminhadas do compositor por Portobelo Road, point de jamaicanos, e caribenhos em geral. Ressaltando que, coincidentemente, em 1972, o mainstream americano se voltava para o reggae. Johnny Nash emplacou um hit mundial com I Can See Clearly Now (com participação do emergente Bob Marley), e Paul Simon incursionou pelo gênero, em Mother and Child Reunion, no seu primeiro álbum solo depois da separação da dupla com Garfunkel (em 1965 ele lançou um disco sozinho).

Em Triste Bahia, trechos do poema de Gregório de Matos (1636/1696) que Caetano musicou, há o enxerto de temas de capoeira, o paranauê entrando pelo afoxé, samba de roda, folclore, terreiro de candomblé. A canção vai do litoral ao recôncavo, na faixa mais longa do álbum, com quase dez minutos. Também a mais empolgante do álbum, fechando o lado A no LP.

It’s A Long Way cita os Beatles numa melodia à Beatles, logo ruma à bossa nova, o título repetido, até chegar a Sodade, Meu Bem, Sodade, de Zé do Norte (1957), Lenda do Abaeté, de Dorival Caymmi, Água com Areia, Jair Amorim e Jacobina, Consolação, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, para terminar com a melodia do inicio (ainda citando A Long and Winding Road, dos Beatles). Depois do entrelace de informações musicais de origens e anos diferentes. Vem o sambão carioca de Monsueto, Mora na Filosofia, que se tornou o sucesso do disco, tocou bastante no rádio (até hoje está no repertório dos cantores de barzinhos). Neolithic Man é a faixa experimental do álbum, se é que alguma não o seja. Estaria bem no disco seguinte, Araçá Azul (em que voltou a cantar Monsueto, com Eu Quero Essa Mulher) Assim Mesmo). O disco é encerrado com Nostalgia, um rock básico, meio bluesy, em inglês, totalmente anticlímax, com participação de Gal Costa, e a citada gaitinha de Ângela Rô Rô. Transas é um desses raros discos que merecem o adjetivo “perfeito” para defini-lo.

Porém como nada é perfeito, teve o famigerado prisma, que tentou tornar a capa num objeto de arte, o “discobjeto” , e ausência de nomes de músicos nos créditos (na época não era um fato incomum), o que levou Jards Macalé, que assina a direção musical do álbum, a passar um bom tempo estranhado com Caetano Veloso. Edições posteriores repararam o lapso.

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