TBtelestoques: A saga do Bode Cheiroso, o caprino vereador de Jaboatão

Em 1988, o macaco Tião, do zoológico do Rio, recebeu 400 mil votos para vereador. A revista Casseta e Planeta foi o maior cabo eleitoral do macaco, um voto de protesto do eleitor carioca. Antes de Tião, outro animal eleito, mas que não tomou posse, foi Cacareco, um rinoceronte, fêmea, do Zoológico de São Paulo. Na eleição de 1959, Cacareco recebeu 100 mil votos dos paulistanos foi a vereadora mais votada. O segundo colocado chegou a 95 mil. Cacareco tornou-se conhecida internacionalmente, diz-se que no Canadá até fundaram um partido inspirado na Rinoceronte, o The Rhinoceros Party, que existiu até 1993.

Mas nisto de votar em bicho, O Recife também é vanguarda. Em 1955, em Jaboatão, o Bode Cheiroso não teve tantos votos para vereador quanto o macaco e a rinoceronte, em compensação até o New York Times deu matéria sobre ele. Assim como Tião e Cacareco, o Bode Cheiroso entrou na eleição de gaiato, ou por gaiatice. Um pessoal do Jaboatão Jornal mandou imprimir alguns cartazetes com a efígie do bode, e o “candidatou” a vereador, com a frase: “Queremos Cheiroso”.

Esse bode era bastante conhecido no Jaboatão Velho, vivia solto, vez por outra cismava de passear de trem até Cavaleiro, também circulava por Tejipió. Nos dias atuais perigava virar churrasco ou  buchadinhas. Mas eram tempos mais civilizados. Realizada a eleição de 1955, quando foram apurar os votos, quatro deles sufragaram o Bode Cheiroso (as tais cédulas que imprimiram por brincadeira).

Porém, bem antes da eleição, o Bode Cheiroso foi notícia nos jornais pernambucanos, quando um vereador de Jaboatão queria processar ou prender o caprino por causa de sua fedentina (que lhe deu o nome), e por distribuir chifradas entre os pirralhos que o perturbavam

Depois das eleições, o bode badalado foi insuflado por uma matéria no Diário da Noite (do grupo Jornal do Commercio) em que os 4 votos passaram a 400. Os políticos condenavam a exploração e o sensacionalismo da imprensa, mas aí já era tarde. O dono do Bode Cheiroso passou a prendê-lo em casa, e cobrar por fotos e entrevistas. O Bode chegou a ser entrevistado numa rádio, seus berros levaram a audiência da emissora às alturas. Foi notícia no jornais do Sudeste, o que chamou a atenção do correspondente do New York Times. Foi assim que o Bode Cheiroso foi parar nas páginas do mais importante jornal do planeta.

Mas a história do bode não teve final feliz, embora tenha sido escrito até folheto tendo o bode como tema, além de poema publicado no jornal de Jaboatão e do Recife. Em 22 de outubro de 1957, o Diário de Pernambuco saiu com esta manchete: “Caminhão em Disparada Esmaga o Bode Cheiroso”. O atropelamento deu-se em frente à igreja do Barro, na Avenida José Rufino.

O Bode Cheiroso morreu mais ficou imortalizado nos versos de Benedito Cunha Melo (pai do poeta Alberto Cunha Melo), que os assinou com o pseudônimo de K.Olho: “Ser como tu, nesta vida, pouco homem, Cheiroso, pode/pois foste vereador/sem deixar de ser bode/tua Câmara era a rua/de que era dono e senhor/com aquele pose de bode/cheirando a vereador/tu não morreste Cheiroso/estás em todo jornal/teu nome chegou à história/e berrou: sou imortal/teu nome ficou na história/e todo mundo sacode/morreste, vereador/foste maior como bode.

O célebre caprino jaboatonense ganhou também música de sucesso, Lançada por Aventino Chapéu de Couro, em 1959, Bode Cheiroso (Elias Soares/M.Fernandes), porém fez sucesso com Luiz Wanderley, é faixa do álbum Baiano Burro Nasce Morto (1960). Um trecho da letra: Olhe como é que pode me diga doutor/um diabo de um bode ser vereador/foi na eleição de Jaboatão que o Bode Cheiroso se candidatou/quando foi na hora da apuração/a maior votação o bode levou/veio o promotor falar com Cheiroso/e o bode manhoso estendeu a mão/chorou de emoção/posou pra revista/ e deu entrevista na televisão.

DESCENDÊNCIA

Bonito e famoso, o Bode Cheiroso fazia sucesso entre a mulherada caprina. Aventa-se que deixou muitos descendentes. Um desses seria a cabrita Bita, também conhecida como Vermelha, por ser arruivada, presa na feira de Cavaleiro, bairro jaboatonense. Surgiu mais uma polêmica. A cabrita seria ou não filha de Cheiroso? Um senhor do Pina garantia que pertencia a ele. Um PM de Cavaleiro arvorou-se a dono da cabrita, e afirmou que ela era realmente descendente do Bode Cheiroso, mas não era sua filha, e sim sua neta.

 Como não havia ainda teste de DNA. Nunca se soube se a cabrita pertencia à prole do famoso bode. O casa da cabrita aconteceu em novembro de 1962, as matérias nos jornais, no entanto, não esclarecem porque foi presa.

Mais uma vez o Bode Cheiroso tornou-se noticia nacional. Bita ganhou matéria em duas das mais lidas revistas do país, O Cruzeiro e Manchete. O Departamento de Produção Animal pediu para a Delegacia de Investigação e Captura, na qual estava a cabrita Bita, fizesse um exame para saber a idade do animal. O PM dizia que a criava há três anos. No exame ficou constatado que Bita tinha três anos, portanto seria mais provável que pertencesse mesmo ao policial militar. Até porque rapaz do Pina ofereceu 15 mil cruzeiros pela cabrita famosa. Mas o PM não quis saber de negócio. Naquele ano de 1962, Bita foi a grande atração da Exposição de Animais.

O nome do Bode Cheiroso continuou a frequentar os jornais. Em 1964, em Vitória de Santo Antão, um pai de santo conhecido por Miro Xangozeiro desentendeu-se com um tal Bertino, porque este, que não acreditava na religião de Miro, disse que o guia do Pai de Santos era o Bode Cheiroso. Ficaram intrigados, até que certo dia encontraram-se, e Miro desferiu uma peixeirada fatal em Bertino.

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