Crônica – Caetano Veloso transcendentalmente cinematográfico em show da turnê Meu Coco

Vendo Caetano Veloso, no show que tem como lastro o repertório de Meu Coco, seu disco mais recente, de repente, a cada música, como se diz que acontece aos que se afogam, vi passar o filme da minha vida. Baby foi de quando eu quase vi Caetano e os Mutantes, nos idos de 1968, em Campina Grande. Naqueles tempos não havia esta coisa de turnê. Todo mundo seguia o padrão cantor de rádio, ou seja, fazia apresentações avulsas, geralmente em clubes sociais, ou nas emissoras de rádio ou TV. Nesse ano Caetano Veloso veio pela primeira vez ao Recife. Cantou com os Mutantes na sede do Sport. Acho que foi o único show dele aqui que não vi.

O primeiro que fez no Geraldão depois de voltar da ida (sic) obrigatória para Londres, eu vi. Ele deu o maior carão que já testemunhei um cantor dar na plateia. E com razão, por conta de um comentário de um otário, quando cantava Asa Branca, na versão do primeiro disco londrino. Vi depois com Os Doces Bárbaros, também no Geraldão. O dream team da baianidade, Caetano, Gal, Bethânia e Gil. O ginásio lotado. Daí em diante o show bizz brasuca normatizou-se segundo o modelo dos países do primeiro mundo, (ainda se pode dizer primeiro mundo?). Disco lançado, turnê na estrada.

Aí vi todas as turnês de Caetano. Até final dos anos 80, como fã, depois como jornalista. Acho que foi no show do Bicho Baile Show, que ele me autografou um exemplar do livro Alegria, Alegria, compilação de entrevistas e textos seus organizado por Waly Salomão. Não me lembro, mas acho que foi nesse show, do álbum Bicho, que sugeria que o pessoal dançasse, no sentido estrito, que Caetano mandou ver mais um esporro no palco. Um cara gritou “Viado”, ele parou o show e pediu que o gaiato se mostrasse. Não se mostrou.

Universitário de esquerda odiavam Odara. A palavra, grosso modo, alto astral, num dialeto africano, aprendida por Caetano numa viagem à Nigéria, virou sinônimo de alienação, porque flertava com a disco music, e o funk (nada a ver com o subgênero que atualmente é assim denominado). A partir dos anos 90, passei a cobrir os shows, e a entrevistar Caetano Veloso pro Jornal do Commercio, foram muitas entrevistas. Pessoalmente ou por telefone. Numa delas, não me lembro mais de qual álbum, num hotel em Ipanema, cheguei depois da coletiva. Foi até bom, porque me deram a gravação completa, com ótima qualidade sonora . Tá no meio dos muitos cassetes que guardo. Num deles um show no Teatro do Parque, acho que esse de que falei, que me foi repassado por Geneton Moraes Neto.

Dos anos 90, um que vi sem cobrir foi O Tropicália 2, no Anhembi em São Paulo, ele e Gilberto Gil. Nessa sexta-feira foi a primeira vez que vi Caetano cantar Araçá Azul ao vivo. Talvez tenha cantado em shows que vi e não me recordo. Não sei se houve shows do Araçá Azul, que muita gente estranhou na época. Foi um dos discos mais devolvidos às lojas da história da MPB. No show Meu Coco Caetano relembrou as bandas com que tocou. Com a banda C, o Zii e Zie vi, pela primeira vez, gente saindo no meio do show. Zii e Zie não é um disco fácil.

Vi de tudo em show de Caetano, no Recife, Rio, Salvador, e São Paulo.  No Teatro Guararapes, em 2012, na turnê Abraçaço, uma moça arrastou-se pelo palco, feito uma serpente até alcança-lo. Muito estranho. O que nunca vi em show de Caetano, vi nessa apresentação de ontem, sexta, 27 de maio de 2022. Um timbu passear pelo palco e roubar o show. Com a minha miopia, astigmatismo, e ignorância zoológica, achei que o animal fosse um guabiru. Me corrigiram. Foi mesmo um timbu, o Didelphis albiventris., no registro de nascimento, ou N-A-U-T-I-C-O, pros Aflitos.  

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