André Mussalém incorpora o Capitão Melancolia em disco inspirado pela possibilidade do fim

As Memórias do Capitão Melancolia, quarto álbum de André Mussalém, lançado no final de maio, nas plataformas de música digital, não estava nas previsões do cantor e compositor pernambucano. Em meados de 2021, ele compunha para mais um álbum. No entanto, em setembro recebeu a noticia de que teria que se submeter a uma operação melindrosa: “Uma cirurgia cardíaca de grande porte, para substituição da válvula aórtica, e parte da artéria. Isso implicaria em abrir meu peito e parar meu coração e meus pulmões. Assustado com o porte da cirurgia, comecei a fazer planejamentos para caso o pior acontecesse”, revela Mussalém.

Entre os planos veio a ideia de outro disco, um trabalho que se encaixasse na situação em que se encontrava, e que teria de ser feito com urgência. Um panorama meio Dom Casmurro, uma, quem sabe, obra póstuma: “Comecei a trabalhar em sambas que evocassem lembranças importantes para mim e coisas que eu gostaria de dizer, caso não estivesse mais aqui. Passei de outubro a dezembro compondo, arranjando (com Rafael Marques, meu maestro) e imaginando a estética de um álbum com uma sonoridade antiga”, conta.

 O grupo que o acompanharia nessas gravações ganhou o apropriado nome de Regional da Tristeza que Balança. E o Dom Casmurro, o personagem que traduziria essa tristeza, tão ligada ao mundo do samba, foi batizado de Capitão Melancolia. Explicado, pois o conceito do álbum. Lembrando que discos assim têm um precedente em David Bowie, cujo álbum Black Star, de 2016 foi feito enquanto ele perdia a batalha contra um câncer. O disco seria lançado dois dias depois de sua morte (em 10 de janeiro de 2016)

O álbum de Mussalém acena para uma possibilidade de fim, ou como melhor define o artista: “Eu vejo esse disco como um interlúdio. Uma espécie de passagem para uma nova fase mais pessoal. As músicas me mostram hoje como o medo da morte pode ser um motor para composição e elas, de certa forma, me soam atuais justamente porque continuam me lembrando da minha finitude”.

Mas, talvez por ser o fim, inevitável, a única certeza que todos temos, o álbum torna até menos melancólico do que o título indica, como é o caso da faixa Marinheiro Só/Chegança, um contagiante samba de roda. Em Samba da Solidão (parceria com Rodrigo Pinto) parafraseia-se os versos, usados por Raul Seixas em Prelúdio: “Sonho que se sonha só/é só um sonho que se sonha só/mas sonho que se sonha junto é realidade”.  Tornam-se Samba que se samba sozinho/é mais que um samba que se samba só/é um certo coração sem ninho/no desencanto está pedindo alguém”.

André Mussalém faz música alinhado à corrente da MPB surgida nos anos 60, e que foi definitivamente formatada nos anos 70. É palpável a influencia, por exemplo, de Chico Buarque em Diário de Bordo, dedicada à Cartola. O disco traz canções em que letra e música obedecem a um rigor estético, hoje quase relegado a segundo plano. As evocações variam de poema de Manuel Bandeira (Belo Belo II, no samba Quero-Quero), a Caetano Veloso de 50 anos atrás (You Don’t Know Me, do LP Transa, em As memórias do Capitão Melancolia), até A Noite dos Cristais (Kristallnacht), episódio vergonhoso da Alemanha Nazista, uma série de agressões à comunidade judaica, mas inspirado pela proliferação de grupos neonazistas que vem acontecendo no Brasil.

Já Capitão Melancolia, que abre o disco, tem a ver com Mestre Jonas, do álbum de estreia do trio de rock rural Sá, Rodrix & Guarabyra (Terra, 1973).

Das oito faixas , sete foram compostas para este projeto. A citada Samba da Solidão já existia antes dessa mudança de rota. O álbum foi gravado no estúdio Carranca, em janeiro de 2022 com arranjos pensados com Rafael Marques. André Mussalém está muito bem acompanhado nesta empreitada por um quarteto formado pelo citado Rafael Marques, mais (bandolim), Márcio Silva (bateria), Rubinho França (violão de oito cordas), Alexandre Rodrigues (clarinete). Um compositor que o Brasil precisa conhecer, um disco que o brasileiro precisa escutar.

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