SaGrama e Gonzaga Leal na trilha de Mário de Andrade

“Quando ainda não se apresentara como poeta, antes do “futurismo” existir e de ser elle um dos pães dessa nossa mal baptisada escola, Mario de Andrade já tinha um nome entre os de sua geração, e um bonito nome, como crítico musical”, de Os de Hoje – figuras do movimento modernista brasileiro, de Nestor Victor. Um comentário que ratifica a importância da música  na obra de Mário de Andrade. Sobretudo porque ele fez muito pela música do povo brasileiro, ao contribuir para registrar manifestações populares que, certamente, iriam ser esquecidas.

O livro citado foi publicado, 1938, coincidentemente o ano da histórica Missão de Pesquisas Folclóricas, patrocinada por Mário de Andrade, quando era diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo. A equipe da pesquisa colheu material pelo Norte e Nordeste, e voltou à capital paulista depois de coletar 689 objetos, tirar 751 fotos, e registrar 1.295 fonogramas.

Parte desse material fonográfico ganhou mais um disco: Na Trilha de Uma Missão, do grupo SaGrama e o cantor Gonzaga Leal, que lança o álbum com um concerto neste sábado, às 20h, no Teatro de Santa Isabel. São 17 faixas, todas de domínio público, muitas delas integram a o inconsciente coletivo do brasileiro. Trechos dessas emboladas, loas de bumba-meu-boi, cocos, foram utilizados no cancioneiro do país, muito na MPB, a exemplo da Toada Chamada do Sapo Cururu, gravada por Jorge Mautner. Já em Mandei Cortar Capim, uma das estrofes foi usada pelo foliões recifenses na estreia do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, fundado em 6 de janeiro de 1889: “Se esta rua fosse minha/eu mandava ladrilhá/com pedrinhas de brilhante/para o meu bem passá”.

 A canção Vamos Nessa, Meus Amigos é particularmente interessante aos Recifenses. Era o canto dos carregadores de piano, felizmente preservado, quando já não existia o ofício. Os pianos passaram a ser transportados por caminhões, conforme conta Eduardo Magossi, em texto no encarte. O pessoal da missão encontrou ex-carregadores, que não se lembravam bem do canto. Foi preciso reunir alguns para carregar um piano pelas ruas do Recife a fim de que relembrassem a música, incluída neste disco. O repertório do álbum foca a música que foi recolhida em Pernambuco pelos pesquisadores paulistanos há 84 anos.

Na Trilha da Missão o apuro que caracteriza as discografia solo de Gonzaga Leal, e a do SaGrama. As canções pinçadas da pesquisa da missão, ganharam novas e requintadas reinterpretações, que se aproximam das ideias de Mário de Andrade de uma música erudita brasileira tendo o folclore como fonte temática.

O projeto foi viabilizado por um edital do Funcultura, o que garantiu que Gonzaga Leal e o SaGrama contassem com uma grande equipe para tocar o projeto, que teve produção e direção musical de Cláudio Moura, concepção, direção artística e pesquisas, de Gonzaga Leal, consultoria de Carlos Sandroni, uma equipe para transcrever as letras das canções, e arranjos de Cláudio Moura, Sérgio Campelo, Maurício Cezar, Rafael Marques e Laís de Assis, fotos do encarte de Hans Von Manteuffel, e muita gente participando do coro, entre outros, Ciel Santos, Arthur Philipe e Isadora Melo.

Gonzaga Leal concedeu entrevista ao Telestoques sobre Na Trilha de Uma Missão. Vamos a ela:   

– Por que incursionar pela Missão de Mário de Andrade agora? Já pensava nisso há mais tempo?

Gonzaga Leal – Não sabia do Mário de Andrade, até meu pai me dar de presente de aniversário o livro da correspondência entre ele e Manuel Bandeira. Foi um assombro. Palavras fortes e benditas. E assim fui pouco a pouco descobrindo o universo do Mário, sobretudo a poesia e as danças dramáticas

– Como foi a pesquisa pra chegar ao repertório do disco? Mário de Andrade reforça seu projeto posto em prática teorizando em livros como Evolução Social da Música Brasileira (1939), ou em Música, Doce, Música. A missão de 1938 reuniu mais de 20 mil documentos, entre textos, fotos e gravações musicais. Material gravado em 115 discos. Vocês recorreram aos livros, a caixa com seis CDs, lançada em 2006 pelo SESC SP, ou foram in loco, pesquisar no material original em São Paulo

Gonzaga Leal – O universo do Mário é Caudaloso, sobretudo, a Missão. Esse foi o nosso grande desafio, para sistematizar a nossa abordagem. E assim, resolvemos fazer o recorte da passagem dele( da Missão) por Pernambuco. Recorremos aos discos contidos no box do SESC, e além dos livros citados por você, consultamos Poesias Completas, Pequena História da Música, Aspectos do Folclore Brasileiro.

– Na época falava-se numa “arte pura brasileira”, inspirada no folclore. Você acredita que isso ainda seja possível?

Gonzaga Leal – Acredito sim… a meu ver, no folclore há uma inocência imbatível que nos levar a vivenciar estados de paixão.

– Como surgiu a parceria com o SaGrama?

Gonzaga Leal – A minha relação com o SaGrama é de quase 20 anos, quando Cláudio Moura, o violeiro do grupo passou a cuidar da minha carreira,  enquanto diretor musical. Quando fui gravar o disco E o Nosso mínimo é prazer, Edu Lobo me apresentou a música A Permuta dos Santos, uma parceria dele com Chico Buarque. Não tive dúvida em gravar. Convidei o SaGrama para produzir a faixa. Isso foi em 2010.

– A música do folclore é quase sempre ligada a dança, ou encenações. Qual a ligação com a dança no espetáculo?

Gonzaga Leal – Impossível não relacionar esse universo ao corpo. As canções, as músicas produzem estados D’alma que nos levam a no mínimo, suscitar um gráfico corporal que nos leva a dança e a dançar, sobretudo tendo por base uma ação corporal de ordem ritualesca. Esse todo, as camadas que o envolve, tem proporcionado verdadeiramente estados de graça. Isso está presente nos ensaios , regidos por sons, regiões de silêncio e um campo ritual. O show cumpre essa função precipitada pelos ensaios e legitimada pelo diretor de cena, o extraordinário bailarino e encenador Ciro Barcelos.

– Você considera este projeto o mais ousado que já idealizou, ou tem algum que ainda pensa em por em prática?

Gonzaga Leal – Movido pela suposta presunção, com 65 anos , tantos palcos, tantas viagens, achava que não tinha mais nada a aprender, ridículo da minha parte. Esse projeto é o mais desafiador, o mais pleno,  o mais profundo que vivenciei até então. Através dele, me tornei mais patriota e Brasileiro.

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