Paul McCartney conta que compôs Michelle a partir de um acorde de “fá demente”

The Lyrics – 1956 to the Present, é como aponta o título um livro de letras escritas por Paul McCartney. Todas. Já postei sobre The Lyrics neste blog, e no Instagram (@telestoques), porém sem ler o livro todo. Vou consumindo aos poucos, como a gente faz com um queijo fino, um chocolate, ou um vinho idem. Ao se aproximar da emblemática idade de 80 anos, Paul faz uma prestação de contas de sua obra, e revela mais sobre ele mesmo do que o que se sabe de suas muitas biografias. Pinço do livraço dois trechos. Um de como ele compõe, revelado quando comenta a canção Old Siam, Sir, e como surgiu Michelle, uma das suas mais belas baladas, do álbum Rubber Soul (1965.

COMPOSIÇÃO

“Noventa e oito por cento das minhas canções vêm de uma ideia musical, não uma ideia de letra, e é provável que esta canção comece com uma frase. As vezes a letra simplesmente surgem quando estou criando uma música, sobretudo se é em torno de uma frase, e ela se encaixa com a música e começo e cantar.

Só me lembro de uma canção em que escrevi a letra primeiro. Foi All My Loving, porque a gente fazia uma turnê de ônibus. Geralmente eu me sento com o instrumento, e assim começa

Mesmo Eleanor Rigby começou com um mi menor. Então penso em possibilidades a partir daquele acorde. Daí, ou faço algo suave e melódico, ou fico em pé e grito – o que me parecer mais apropriado. As vezes as palavras fluem e aí você tem algo como Old Siam, Sir (n- do álbum dos Wings, Back to the Egg, 1979).

Lá atrás, no início, quando eu e John escutávamos discos, a gente não se ligava muito em letras, só na sonoridade. As pessoas podem perguntar e tal letra? Então a gente se dava conta de que nem prestou atenção nas nuances que viam na letra. E dizíamos, ‘ah, sim, é mesmo”. Tem uma canção chamada Just Walk on By com Jim Reeves, que fez sucesso no comecinho dos anos 60,e me lembro de um padre achando que era sobre divórcio, ou um cara tendo um caso. A gente se perguntou: ‘Ele tá maluco?’ Nunca prestávamos muita atenção nas letras. Não tínhamos ideia sobre o que falavam, a gente apenas gostava da sonoridade da música.

MICHELLE

Sendo mais velho que eu, e da Escola de Arte, John me levava para as festa da turma de Arte. Lembro que ficava num canto, com meu pulôver preto de gola rolê, tentando parecer interessante para aquela pessoal mais velho. Tinha um violão e tocava uma música que parecia francesa, com timbre gutural. Meio que torcendo que achassem que eu era um intelectual francês. Foi aí que surgiu, da minha memória aquela falsa canção francesa, que deve ter sido influenciada por Milord, de Édith Piaf, um grande sucesso em 1959.

Milord era interessante por ser fora da curva. Enquanto outras canções você sabia a que gênero pertencia. Em Milord, Piaf se vale do velho truque de desacelerar o andamento da canção.

Outro elemento estava no fato de que George Harrison e eu gostávamos de aprender novos acordes e dar um jeito de encaixá-los nas canções. A gente conhecia um cara chamado Jim Gretty, que trabalhava na Hessy’s, uma loja de guitarras em Liverpool. Adorávamos ir a essa loja, embora a gente não tivesse grana, claro, compramos nossos instrumentos a prestação

Jim Gretty geralmente ficava atrás do balcão tocando guitarra, como os caras que trabalhavam nessas loja tanto fazem. Admirávamos as habilidades dele. Ele sabia muito mais do que nós. Um acorde que nós o ouvimos tocar era particularmente exuberante, e ele pra ensinar à gente. Era um acorde de fá, um simples acorde de fá, mas Jim usava dois dedos nas duas primeiras cordas no quarto traste, o que se tornava um lá bemol e um mi bemol. Havia um componente extra no acorde de fá. O bom é que quando ele nos ensinava alguma coisa nova, ou George me lembrava como era, ou vice-versa. Nós batizamos aquele acorde de Gretty de fá demente.

Uma época em que a gente estava compondo novas canções, John me perguntou se eu ainda me lembrava daquelas coisas francesa que eu tocava nas festinhas da turma de arte. Logo depois disso aconteceu de me encontrar com Ivan Vaughan, que foi provavelmente meu melhor amigo na escola. Nesta época ele no University College London estudando os clássicos. Ele e Jan, sua mulher, moravam em Islington, e eu costumava visita-los. Jan ensinava francês, e lhe pedi uma rima para Michelle. Ele disse “ma belle”. E como eu diria “estas palavras vão juntas em francês? E ela me disse: “sont les mots qui vont très bien ensemble’”

Ao fá demente, que deveria ter algum nome oficial, nona aumentada, ou algo assim, acrescentei mais um acorde maluco, sem saber o que era – talvez um ré diminuto. Peguei este da música Along Came Jones, de The Coasters. Peguei esses acordes e cantei feito um francês gemendo, e assim foi feita Michele.  

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