The Beatles 60 anos (10) – Do fundo do poço para o topo das paradas num período de um ano

Há 60 anos, Paul McCartney temia pelo futuro. Tinha 20 anos, parou os estudos no ensino médio. Ganhava uns trocados como músico. Tanto ele, quanto os seus colegas de banda, John, George e Pete Best vinham de classe média baixa. O pai não acreditava que o grupo em que o filho tocava fosse muito longe. No entanto, não o aconselhava a procurar um emprego convencional. Jim McCartney também fora músico na juventude, mas ganhou o sustento da família trabalhando para uma empresa de algodão.

The Beatles, o grupo de Paul, estava sendo empresariado por um comerciante abonado, dono da maior loja de discos do Norte da Inglaterra, Brian Epstein. Acreditando no potencial dos rapazes, ele empreendia viagens constantes a Londres para visitar gravadoras, e tentar convencê-las a contratar o quarteto. Conseguiu que uma delas, a Decca, fizesse um teste com The Beatles. Um teste errado, na hora errada, marcado para o dia 1º de janeiro de 1962.

No dia 31 de dezembro de 1961, o quarteto foi para Londres, com um amigo, Neil Spinall, dirigindo a van (ele seria anos mais tarde, presidente da Apple, até falecer, em 2008). Uma viagem que se fazia de carro em 3 horas e meia, levou quase seis, pelas condições atmosféricas, temperaturas muito baixas, e neve na estrada. Epstein nunca tinha sido empresário de artistas, mas levava jeito para a função. Logo de início mudara a imagem do grupo. Em lugar de roupas de couro, ternos e gravata, nada de comer sanduíches, ou fumar, no palco, nem conversar com as garotas, ou tocar músicas pedidas por elas. John Lennon foi o que mais se irritou com as normas do empresário, mas aceitou.    

O teste na Decca faz parte da história da música popular. Os Beatles foram rejeitados. “Este negócio de bandas com guitarras já era”, teria dito Dick Rowe, o produtor da Decca, que passou a ser conhecido como o homem que recusou os Beatles. Na verdade, quem não aprovou o grupo foi um produtor chamado Mike Smith, em boa parte não apenas pela performance apática do quarteto de Liverpool, mas, sobretudo, pelo repertório insosso, e escolhido por Brian Epstein. A banda queria tocar o rock and roll que apresentavam nos palcos, mas o empresário achou melhor mostrar versatilidade. Exagerou. No set-list estavam canções feito The Sheik of Araby, lançada pelo orquestra de Jack Teegarden em 1939, ou Besame Mucho, bolero de Consuelo Velasquez, gravado, em 1940, pela primeira vez por Los Cadetes del Swing. Smith reportou-se ao seu chefe, Dick Rowe. O grupo não lhe pareceu bom. A Decca precisava de um grupo beat, como tratavam então as bandas pop. Além dos Beatles, estava fazendo um teste na gravadora o grupo Brian Poole and The Tremeloes, a quem Dick Rowe deu a preferência, porque saíria mais em conta. Era de Essex na área metropolitana de Londres. Quem revelou os detalhes foi Tony Barrow, um jornalista de Liverpool, que trabalhava para a Decca. Foi Barrow quem abriu os caminhos para os Beatles na EMI. Ele entrou na folha de pagamento da NEMs, como escrevia para o Liverpool Echo caprichava nas matérias sobre os Beatles no jornal.

O teste na Decca serviria para rechear as contas bancárias das gravadoras de bootlegs nos anos 70. Existem inúmeras versões piratas desse teste, e centenas de álbuns com o repertório dos chamados Decca Tapes. As gravações seriam lançadas oficialmente na série Anthology nos anos 90.

 Dos quatro beatles o único que não tinha muito do que se queixar era o baterista Pete Best, o mais assediado pelas garotas de Liverpool, que o consideravam o mais bonito da banda, mesmo que não fosse muito sociável. George Martin, diretor artístico da Parlophone, precisava de um grupo beat para elevar as vendas do seu catálogo, em que predominavam álbuns de comediantes (uma tendência na indústria fonográfica, que teve muitos sucessos no Brasil, nos anos 60, com nomes feito Juca Chaves ou José Vasconcelos). Martin produziu vários discos de humor, e Liverpool tinha tradição em bons comediantes e cômicos. Não por acaso a estrela da Parlophone era Peter Sellers, que atuava em The Goonies, programa de humor de grande audiência, que foi uma das influências nas gags que os Beatles improvisavam nas entrevistas, com as quais desarmaram jornalistas que nutriam preconceitos contra grupos de rock.

Brian Epstein era persistente. Foi à loja de discos e aparelhos de som, HMV, e mandou passar a fita demo dos Beatles para um acetato. Um daqueles acasos que mudam o curso da história. O técnico de som, um tal Jim Foy, gostou do que ouviu, e colocou Epstein em contato com Syd Coleman, da editora Ardmore & Beechwood, que trabalhava com a EMI. Quando o empresário dos Beatles contou que levou fora de praticamente todas as gravadoras de Londres, Coleman sugeriu a Parlophone, e ligou para George Martin, que dirigia aquele selo menor da poderosa EMI. No livro Paz, Amor, e Sgt Pepper – os bastidores do disco mais importante dos Beatles (Sonora Editora, tradução de Marcelo Fróes) assinado por George Martin e William Pearson, o produtor doura a pílula. O célebre episódio da gravata, no qual Martin pergunta aos quatro rapazes se havia ali no estúdio algo que não os agradassem, e George Harrison respondeu: “Pra começar, eu não gosto de sua gravata”,  no citado livro é dito que aconteceu logo que os integrantes do grupo conheceram George Martin.

Porém, em algumas biografias, o caso da gravata teria acontecido depois do teste, quando Martin apontou as falhas do grupo, de modo severo, acenando para mais uma dispensa. Para aliviar o clima, teria feito a pergunta respondida por George, que quebrou o gelo entre eles. Com exceção de Pete Best, John, George e Paul ficaram à vontade e ganharam o produtor pelas tiradas espirituosas, que o levou, com a equipe da gravadora, às gargalhadas.

Afora isto, George Martin não achou The Beatles muito promissor, considerou as canções autorais medíocres, mas resolveu dar uma segunda oportunidade ao grupo de Brian Epstein, porque gostou da voz de Paul McCartney, segundo algumas versões. George Martin diz que foi o carisma do grupo que o conquistou. Os Beatles voltariam uma vez mais a Hamburgo, antes de reencontrar o produtor.  Um encontro que já foi contado no capítulo 9 desta série. Desta vez foram de avião. A alemã Astrud Kirchner esperava por ele no aeroporto. Contou-lhes da morte do namorado Stuart Sutcliffe, em consequência de um câncer no cérebro. Uma notícia que deixou os quatro abalados, notadamente John Lennon, o maior amigo de Stu no grupo.  Lennon que ainda sentia a morte da mãe, estava sempre batendo boca com a tia Mimi, que não o queria músico, nesta época engravidou a namorada, Cynthia (casariam em agosto de 1962). Na volta a Liverpool, o astral estava lá embaixo. Viram-se pouco durante alguns dias. John passou a exagerar na bebida. Temeu-se pelo fim da banda. O teste na Parlophone aconteceu em março, o convite para o contrato foi firmado no início de junho, e a gravação do primeiro compacto no dia 6 daquele mês. Sem Pete Best, cuja defenestração foi pedida por George Martin. Brian Epstein foi o encarregado de dizer a Pete que ele estava fora dos Beatles.

Ringo Starr tampouco agradou na gravação de Love me Do e P.S I Love You. Mais uma vez George Martin achou que o baterista não se garantia, e trouxe um músico para substitui-lo na regravação das duas canções. A versão com Ringo foi lançada nas primeiras tiragens na Inglaterra, a versão com Andy White saiu nos EUA. No álbum Love me Do tem Ringo na bateria. As duas canções eram antigas. Love Me Do fora composta quatro anos antes. É um skiffle muito simples, enriquecido pela gaitinha tocada por Lennon. Como não acreditava ainda nas composições autorais de Lennon & McCartney, queria que o grupo gravasse uma canção de um autor profissional, How Do You Do it (de Mitch Murray). Recusada pelo por John e Paul. Mesmo assim o grupo gravou a música, que permaneceu oficialmente inédita até ser incluida num dos álbuns da série Anthology em 1995.

Porém, Martin tinha razão. Lançada, em 1963, por Gerry and the Pacemakers, How Do You Do It? Chegou ao primeiro lugar nas paradas britânicas. Enquanto Love Me Do alcançou um mero 17º lugar, e vendeu, coincidentemente, 17 mil cópias. Boa parte em Liverpool, onde os amigos incensavam o disquinho na imprensa local. O jornal Mersey Beat foi o único que anunciou que Love Me Do tinha chegado ao primeiro lugar nas paradas. Foi um prenúncio. Chegaria em 1964 ao topo nos Estados Unidos. Em 1982, quando completou 20 anos, a EMI promoveu um relançamento especial da canção. Love Me Do alcançou o quarto lugar nas paradas inglesas.  

Talvez ontem, 18 de junho, quando completou a simbólica idade de 80 anos, Sir Paul McCartney tenha recordado os acontecimentos do primeiro semestre de 1962, quando os Beatles chegaram no fundo do poço, e saíram de lá para se tornar a banda mais bem sucedida da história da música pop

(foto reproduzida do jornal Liverpool Echo, edição de 18 de junho de 2022).

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