Brian Wilson, o chapeleiro louco da música pop, é mais um na turma dos oitentões

Brian Wilson, dos Beach Boys, completou 80 anos nessa segunda-feira, 20 de junho.  Uma data redonda menos celebrada do que a do contemporâneo Paul McCartney (que fez 80 na sexta-feira, 18 de junho). Cita-se McCartney porque os dois amigos foram rivais, durante algum tempo na década de 60. Uma saudável rivalidade, que leva os Beach Boys a querer superar os Beatles, e vice-versa.

Os Beach Boys até meados dos anos 60, faziam a música do sonho americano, da Califórnia paradisíaca. Cantavam sobre moças bonitas, carrões, praia, surfe. No universo da banda não havia imperfeições. Brian Wilson era o principal compositor dos Beach Boys, formado por ele, os irmãos Carl e Dennis, o primo Mike Love e o amigo Al Jardine.  O clima idílico acabaria em 1964, com uma revolução importada da Inglaterra, e iniciada pelos Beatles, que reciclou a música pop americana, o blues, com mais agressividade, cabelos longos, roupas diferentes.

Rubber Soul, o álbum dos Beatles, de 1965, levou Brian Wilson a entender que a temática dos Beach Boys estava ultrapassada, embora as canções continuassem belas. O rock chegara à idade adulta. Maioridade promulgada por um americano, Bob Dylan.  Brian Wilson praticamente passou a viver no estúdio, de onde saiu, em 1966, com o álbum que é considerado sua obra prima: Pet Sounds, aclamado como um dos marcos da música pop do século 20.

Em sua biografia Wouldn’t it Be Nice: My Own Story (1991), Brian Wilson conta que ficou tão impressionado ao escutar Rubber Soul, que sentou ao piano e compôs God Only Knows, a primeira canção do que seria o álbum Pet Sounds. Paul McCartney a considera a melhor canção já composta. God Only Knows é ousada já no título. Há 56 anos citar Deus, Jesus em música pop. Brian Wilson confessa que temeu que a música fosse censurada. Não foi.

God Only Knows é uma parceria com o inglês Tony Asher (parceiro em outras faixas de Pet Sounds). Foi criada em 45 minutos, de várias fontes de influencias e inspiração, de Stela by Starlight (Victor Young, 1945), a peças de Bach, que escutava na época. O repertório foi concluído em pouco tempo. No entanto, Brian para criar os arranjos, acrescentando vários instrumentos, feito trompas francesas, (french horn), harpsychord, e sintetizadores, teremim.

Paul McCartney foi convidado para o coquetel de audição do álbum, e foi sua vez de se impressionar. A influência de Pet Sounds está em composições que ele faria naquele ano, uma delas é Here, There and Everywhere. No recente The Lyrics – 1956 to the Present, Paul McCartney admite que a compôs influenciado por God Only Knows. Pet Sounds surpreendeu pelos arranjos, pelas sonoridades, pelas canções progressivas, pela ausência da frivolidade surfística no disco. Não se entenda “frivolidade” como uma crítica.

Brian Wilson tem um dom de melodia engenhosas e cativantes comparável a Paul McCartney. Canções como Don’t Worry Baby, In My Room, Little Deuce Coupe, I Get Around, Little Rhonda, Wendy, todas anteriores à invasão pop britânica, são obras primas, mesmo com a temática adolescente da maioria, com harmonias vocais primorosas.

Com problemas psicológicos, ansiedade sobretudo, Brian Wilson abandonou as turnês em 1966, coincidentemente, os Beatles tomaram a mesma decisão pouco tempo depois. Brian tornou-se um mago dos estúdios, o que seria sua glória e sua derrocada. Quando os Beatles fizeram o Sgt Pepper’s Lonely Heart Club Band, quis superar os “rivais”, com um projeto batizado de Smile, no qual se perdeu, e acabou arquivando quase tudo que gravou.

Em 1968, o rock caiu na psicodelia, tornou-se mais pesado, progressivo, tribal. Os festivais tornaram-se gigantescas celebrações hippies, e os Beach Boys não se encaixavam nesse cenário. Os discos da banda interessavam cada vez menos aos seus antigos fãs. O álbum Friends, de 1968, influenciado pela meditação transcendental do guru Maharish Maheshi Yogi, só alcançou um 126º lugar nas paradas. Os Beach Boys só voltaram a marcar ponto nas paradas e nas vendas, com a coletânea Endless Summer. Ao longo de todos esses anos, Brian Wilson submeteu-se a diversas formas de terapias, mas chegou aos 80 anos, intercalando período de introspecção, de se afastar de tudo, a momentos de lucidez em álbuns solo elogiados

SUCESSOS.  

Celebrando os 60 anos dos Beach Boys e as oito décadas de Brian Wilson, a Capitol relançou Sounds Of Summer: The Very Best Of The Beach Boys, tida como a melhor coletânea do grupo. Em 2003, quando foi lançado o álbum trazia 30 faixas. A reedição foi turbinada por mais meia centena de canções. No formato físico é uma caixinha com uma trinca de CDs, ou com seis LPs. Também relançou a caixa original, porém apenas em edição digital. Esses discos ratificam a genialidade de Brian Wilson.

NO BRASIL

 Curiosamente, um grupo que vendeu mais de cem milhões de discos, nunca emplacou nas paradas brasileiras. Mesmo a turma da Jovem Guarda fez pouquíssimas versões de músicas dos Beach Boys. Os Incríveis gravaram Don’t Worry Baby, mas a partir da versão em italiano, com o título de Nosso Trato faixa do LP Para Os Jovens que Amam os Beatles e os Rolling Stone (1967).  A mesma canção foi gravada pelos Golden Boys, como Não Chore Baby, mas somente em 1986. Quem primeiro gravou Beach Boys por aqui foi The Jordan, que incluíram Surfin in the USA, no LP Surfin With The Jordans, em 1964. Em 1996, Fun,Fun, Fun (1964) foi incluída no disco da trilha de Malhação Vol.3.

Além desses, há gravações de Ultraje a Rigor (Fun,Fun, Fun, 2005), Luciana Souza (God Only Knows, 2007), e Fabiana Passoni (Darlin’, 2007).

Artistas das mais variadas gerações e estilos fizeram vídeo para celebrar o aniversáraio de Brian Wilson, veja:

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