Alaíde Costa em belo disco confessional, canta os que os seus calos dizem sobre ela

“Alaíde Costa, cantora de voz dolente, com um profundo sentimento dos ritmos brasileiros”, o elogio é de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, ou melhor, Donga (1889/1974), um dos autores do controverso Pelo Telefone (com Mauro de Almeida), um dos pais do samba, em 1954, à revista Radiolândia. Na mesma revista, no mesmo ano, uma nota elogiosa à novata, contratada da Rádio Mundial: “Uma moça simples, tímida, modestamente vestida – primeira impressão. Quando ela canta a gente esquece tudo. Só sabe que ali está alguém que canta loucamente, maravilhosamente”.

Alaíde Costa, carioca do Méier, estreou em disco em 1956, pelo selo recifense Mocambo (da gravadora Rozenblit), com Nosso Dilema (Hélvio Costa/Hamilton Andrade), e Chega (Guido Medina/Mário Teresópolis). No ano seguinte foi contratada pela Odeon. Porém o primeiro LP só viria cinco anos mais tarde, Gosto de Você, pela RCA Victor. Estava com 24 aos. 63 anos depois, com 87 anos incompletos (aniversaria em 8 de dezembro), Alaíde chegou ao 23º álbum. O que pode parecer pouco pela longa carreira da cantora, porém é muito pela maneira discreta com que ela administrou sua trajetória. O nome do disco diz muito do seu conteúdo, O Que Os Meus Calos Dizem Sobre Mim (Samba Rock Discos).

Um trabalho produzido por Marcus Preto e Emicida, com direção musical de Pupillo, que também toca bateria e percussão: “Nossa ideia inicial era fazer um álbum que sublinhasse a grandeza de Alaíde Costa não apenas como intérprete ligada à Bossa Nova, movimento que surgiu para o Brasil ao mesmo tempo em que a própria artista no final da década de 1950. Mas, sobretudo, como a voz que transitou, quase sempre à margem do grande público, pelos mais nobres ambientes da nossa música popular”, esclarece Marcus Preto, em texto feito para divulgação do álbum.

Um disco de concepção inovadora, e conceitual. As canções do repertório foram compostas não apenas com o objetivo de formar um repertório, mas também de que dialogassem entre si, e também que fossem pessoais e intransferíveis. Músicas para serem cantadas por Alaíde Costa. “O meu caminho eu mesma fiz / não foi ninguém que me apontou / eu me virei sozinha / comi o pão todinho / que o Diabo amassou”, versos de Aos Meus Pés, de João Bosco, com o filho, Francisco (única que já havia sido gravada, foi da trilha da novela A Lei do Amor, de 2016). A letra carrega nas tintas, mas se Alaíde Costa não chegou a comer do pão do demo, passou por muitos percalços para chegar a este estágio da vida, reconhecida e prestigiada por uma geração que a reverencia com este disco, o mais burilado de sua discografia.

Em 1971, Alaíde Costa cantava numa modesta boate paulistana, a Casa Forte, estava sem gravadora, e sem contrato com emissora de TV. Foi lembrada por Taiguara para defender, no Festival Internacional da Canção, a sua Corpos Nus. Em 1972, ela sai do ostracismo, ao qual foi injustamente relegada, cantando com Milton Nascimento, um samba de Monsueto (e Ayrton Amorim), Me Deixe em Paz, no álbum Clube da Esquina. Incensado neste 2022, como o Melhor Disco da história da música brasileira, porém nem todo mundo se lembrou da participação de Alaíde, aliás, a única mulher neste clube do bolinha.

 O título do álbum vem da faixa Aurorear, de Joyce Moreno e Emicida: “O que os meus calos dizem sobre mim/saudar o bem-te-vi/dançar no contratempo/se ver na própria mão/aurorear”. A canção, apropriadamente, fecha o disco, com Alaíde Costa fazendo um fraseado que lembra Billie Holiday, entre soberbos arranjos de metais de Antonio Neves. Apropriada também é a abertura com Turmalina Negra, de Céu e seu irmão Diogo Poças: Pedra preciosa/turmalina negra/meu canto assiste/a busca da delicadeza/de um mundo melhor”.

 A ideia do disco veio a Marcus Preto a partir de uma live, produzida por Thiago Marques Luiz. Essa live foi realizada no auge da pandemia, quando uma das poucas opções de trabalho para os artistas da música foram apresentações ao vivo, principalmente no Youtube; Nessa live Alaíde Costa interpretou uma série de canções do amigo Johnny Alf. Preto gravou a peça de divulgação do show no whatsapp, e compartilhou com amigos. Solicitou composições para um disco de Alaíde Costa.

As canções foram chegando numa quantidade que daria para mais de um projeto. Fátima Guedes mandou Nenhuma Ilusão, que tem arranjos de sopros de Henrique Albino. Parcerias foram encetadas para este disco, que promove um encontro de gerações diferentes em torno de Alaíde Costa. Erasmo Carlos fez a primeira canção com o novato Tim Bernardes, o bolero Praga, em que ecoam sons dos dancings, aonde homens iam para dançar com moças que recebiam por cada cavalheiro que levasse ao salão. Alaíde Costa foi crooner do célebre Dancing Avenida, no Centro do Rio. Guilherme Arantes assina Berceuse, Ivan Lins e Emicida fizeram Pessoa-Ilha. A própria Alaíde contribui com o repertório com Tristonho, parceria inaugural com Nando Reis. A cantora autora vem de longe. Alaíde Costa lê partitura, estudou com o maestro Moacir Santos, e tem como parceiros, entre outros, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Geraldo Vandré, ou Hermínio Bello de Carvalho.

A voz aparentemente frágil, já entrou e saiu de todas. Encarou desde música medieval, sob a batuta do maestro Diogo Pacheco, ouriçados públicos de festivais. Foi estranha no ninho da bossa nova, feita por brancos, de classe média, na Zona Sul carioca, sendo negra, pobre e da Zona Norte. Assim é sem dificuldades que interpreta este repertório. Não é, por exemplo, a primeira vez que canta Erasmo Carlos. Em 1971, ela incluiu Jesus Cristo, de Erasmo e Roberto, no seu repertório de shows.

O Que Os Meus Calos Dizem Sobre Mim é um dos melhores da obra de Alaíde Costa, e o disco mais seu, no mais amplo sentido do pronome possessivo. Alaíde é pedra preciosa, turmalina negra neste trabalho impecável.

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