Gilberto Gil chega aos 80 trafegando a mais de mil

Gilberto Gil completa 80 anos. Ao me lembrar do aniversário, neste domingo, 26 de junho, passou um filme pelas minhas retinas cansadas. Em 1972, pirralho, mais liso do que cabelo de japonês, fiquei “apiruando” no hall do Teatro do Parque, pra ver se dava ao menos pra escutar o primeiro show dele no Brasil, depois da volta do exílio. Por sorte faltou energia, abriram o portão pra quem quisesse sair, oportunidade pra eu entrar. Vi pouco, mas pra mim foi muito.  1976, no Sesc em Santo Amaro. Um dos melhores shows a que já assisti na vida. Era a turnê Refazenda. Gil, com Dominguinhos na sanfona, e uma grande banda, tocou durante três horas e tantos sem parar. No final enveredou pelos rock de Chuck Berry e Little Richard. Eu a turma (alô, Antonio Miranda) voltamos pra casa a pé, de madrugada. Com lenço e com documento, era outro Recife o de então. Pegamos autógrafos. Eu, num cartaz de um show de Astor Piazzola e Quinteto Violado, no Geraldão.

Naquele mesmo ano, Os Doces Bárbaros no Geraldão. Até hoje não perdoo o guarda que não me deixou ficar com o ingresso. Eu já subia os batentes pra entrar nas arquibancadas, e ele praticamente me tomou o ingresso das mãos. Um ano depois, também no Geraldão, Gilberto Gil com Rita Lee, na turnê Refestança. Em 80, Gil e Jimmy Cliff, pra um Geraldão lotadíssimo. De lá pra cá, foi muito Gil. Até no Palácio do Planalto, no lançamento de um Projeto Pixinguinha, de que fui um dos curadores. Gil era Ministro da Cultura. Lula, presidente de primeiro mandato. E veio o PercPan, festival de percussão de Salvador, durante umas três edições ele e Naná Vasconcelos foram os mestres de cerimônia e, entre uma e outra atração, criavam vinhetas ad lib no palco. Geniais. Teve o Tropicália 2, showzaço em São Paulo, Gil e Caetano esticando o repertório por umas duas horas, ou mais, de carnavália no Anhembi.

Muito show. Acho que levei falta em poucas turnês de discos. Não sei em qual, no Teatro Guararapes, ele, de repente, canta o frevo de bloco Valores do Passado, de Edgard Moraes. Não sei quantas vezes entrevistei Gil. Várias. Dos, digamos, medalhões, o único que não se esquivava às entrevistas por telefone, ou pedia que lhe mandassem perguntas por e-mail.

Em 2010, acompanhando uma turnê Europeia da Spokfrevo Orquestra, encontramos Gilberto Gil no final. Ambos, a orquestra e ele, foram escalados para encerrar a edição daquele ano do festival de jazz de Marciac, uma cidadezinha medieval, no Sul da França, que quintuplica a população nos dias do evento. Tem apenas mil habitantes. Chegamos com antecedência ao local do Jazz in Marciac. Batíamos um papo genérico, eu, maestro Spok e Gil no backstage. De vez em quando aparecia alguém e pra tirar uma foto com Gil. Pediam-me que tirasse. Lá pras tantas, no meio da conversa, ele se virou pra mim e ordenou, baianamente: “Dispa-se de suas vestes de jornalista, e vamos tirar uma foto juntos”. Alguém da orquestra de Spok tirou, nunca vi esta foto. Gostaria de vê-la. Uns parabéns pra Gilberto Passos Gil Moreira, lá na Europa, onde ele inteira os 80 trafegando a mais de mil.

3 comentários em “Gilberto Gil chega aos 80 trafegando a mais de mil

Adicione o seu

  1. Como sou mais véio do que tu, começo histórias com Gil em 1967, quando iluminei o show primeiro show dele, o Viramundo, no TPN, sob a direção de Roberto Santana e produção de Guilherme Araújo. Também fui cicerone deles, pilotando o carro da minha família, e/ou uma kombi do teatro, pelas ruas do Recife, na ciranda da Lia em Itamaracá, até a feira de Caruaru, numa daquelas quatro semanas de estada deles na capital. Tudo para divulgar o lançamento do Louvação, primeiro LP do GG. Naquela estada em Caruaru ele conheceu a Banda de Pífanos tocando na feira, logo os chamou “os Beatles de Caruaru”, e voltou de lá com o movimento Tropicalista alicerçado na mente.
    Sim, e você esqueceu de falar que foi me representando no Jazz in Marciac, hein?!

    Curtir

  2. Tô ligado nessa dívida minha. Assim que eu colocar o bloco do ekit educacional pras crianças na rua, retomarei os escritos do Brazilian Driver nas Estradas da MPB!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: