Forma, pequena gravadora de grandes discos, tem história contada em livro

Coincidências boas e oportunas, todas em torno da gravadora Forma, e de dois dos mais importantes discos do seu catálogo, Coisas, de Moacir Santos, que recebeu uma regravação de sete dos seus temas, pelo maestro Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz (disco já comentado em Telestoques.com) e do Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, respectivamente de 1965 e 1966. Aliás, o Afro-Sambas recebeu uma homenagem recente de Toninho Geraes e Chico Alves, com o disco Aluayê- Os Novos Afro-Sambas.

 A Forma foi fundada em maio de 1964, pelo alemão Peter Keller, e o carioca Roberto Quartin; Em agosto daquele ano, Keller vendeu sua parte para Quartin, então com apenas 20 anos. Logo este se associava ao músico Wadi Gebara, que viabilizou financeiramente a gravadora, inaugurada oficialmente em 27 de novembro de 1964, com um coquetel no Leme Palace Hotel. 

A trajetória da Forma é contada pelo jornalista e pesquisador Renato Vieira, no livro Tempo Feliz – A história da gravadora Forma (Kuarup), que primava pela qualidade, como atestam os dois LPs citados, ambos obrigatórios em qualquer discografia básica da MPB. O autor pontua a atuação da Forma, administrativamente conturbada, detalhando seus principais discos. E aí se ressalte o bom gosto, e o desprendimento, de Roberto Quartin em lançar álbuns com  poucas probabilidades de alcançar as paradas ou tocar no rádio. Discos depois lendários como o citado Afro-Sambas, de Baden e Vinicius chegaram à gravadora por mero acaso. 

“Em dezembro de 1965, durante uma viagem do Rio para São Paulo para acompanhar um recital de  Baden Powell no Teatro Paramount, que seria gravado para dar origem a um disco da Forma, Wadi Gebara dirigia, e dava carona a Baden Powell. O violonista falava sobre ritmos com os quais vinha trabalhando, marcados pela perspectiva dos sons  da África, com letras de Vinicius de Moraes. Quero fazer um disco para vocês com essas músicas, sem cobrar nada”, conta Vieira em seu livro. Os afro-sambas (o “afro” é uma redundância proposital) foi o nome que Vinicius de Moraes deu às composições compostas em parceria com Baden Powell, por sua vez, influenciado por um disco de sambas de roda e pontos de candomblé que o compositor baiano Carlos Coqueijo enviou para o poetinha. 

Renato Vieira vai aos jornais da época, que receberam o LP da Forma entre tapas e beijos. Sylvio Túlio Cardoso, um dos mais respeitados críticos musicais de então,  levou o Afro-Sambas às alturas, enquanto o irascível José Ramos Tinhorão fechou sua resenha com a impagável sentença: “As sete composições inéditas de Baden Powell, como música popular deram em coisa muito chinfrim”. Para Tinhorão, faixas feito Tristeza e Solidão “eram sambas molengas e banais”. Tinhorão à parte, o Afro-Sambas tornou-se unanimidade, um dos discos fundamentais da MPB.

Apesar de problemas internos, a Forma reuniu um catálogo formidável, promovendo, por exemplo, a estreia do Quinteto Villa-Lobos, em 1966, que começou a gravação em setembro de 1965, quando Roberto Quartin já se afastara da gravadora

“Rosinha de Valença toca violão por uma cidade inteira”, elogio do jornalista Sérgio Porto, que assina a contracapa do LP Rosinha de Valença ao Vivo. Esclarecendo a frase, o nome de batismo da violonista era Maria Rosa Canellas, nascida em Marquês de Valença (1941/2004), daí o nome artístico Rosinha de Valença, que lhe foi dado pelo citado jornalista.  Numa época em que as mulheres, em sua maioria, se limitavam a cantar, ela era estrela solitária no instrumental da MPB. Quando gravou seu disco pela Forma, tinha uma carreira curta, mas sólida, com passagem pelos Estados Unidos, onde gravou com o flautista e saxofonista Bud Shank, no álbum Bud Shank and his Brazilian Friends (1965).

Este álbum é mostra que as coisas desandavam na forma. Com um grupo de craques, Paulo Moura (sopros), Osmar Milito (piano), Dório (contrabaixo), Edison Machado (bateria) Rosinha de Valença gravou um disco reinterpretando clássicos da música brasileira, com alguns temas menos conhecidos, incluindo uma peça autoral (Vou Pra Valença). Lançado no final de 1966, o LP é um caçado pelos cultuadores de vinil.

Não apenas pela qualidade, mas devido às confusões na confecção do disco e da capa.

As músicas listadas na contracapa não batiam com a ordem no disco, nela se omitia a faixa Água de Beber (Baden/Vinicius), e acrescentava A Banda (Chico Buarque), que não estava no LP que foi pras lojas. Porém entrou numa prensagem de poucas cópias, uma delas chegou à imprensa. Foi feita uma resenha do álbum com A Banda.  Como se não bastasse, vários discos foram vendidos com defeito de fabricação, fazendo com que a agulha do passa-discos pulasse em algumas faixas. Os erros foram atribuídos A CBD (Companhia Brasileira de Discos), com a qual a Forma encetou uma parceria.

Foi feita uma nova edição, mas os erros continuaram. Um tema de Murillo Pessoa, dedicado a Luiz Eça, saiu com dois nomes. Na etiqueta ficou Tema Para Luizinho, e na contracapa Tema Para Luiz Eça. Upa neguinho foi grafada também como Upa Negrinho, Lamentos de Pixinguinha saiu também como Lamento.

O seleto catálogo, no entanto, não vendia o suficiente para cobrir as despesas da gravadora. A partir de 1965, houve duas novidades na música brasileira que mexeriam no mercado fonográfico. O estouro do iê-iê-iê, e da geração dos festivais, ambos impulsionados pelos diversos programas de TV. Wadi Gebara vendeu a Forma em 1967 à CBD (que pertencia à holandesa Phillips), em 1971, ela passou a ser mais um selo da Phillips. Roberto Quartin, em 1995, organizou uma compilação em CD, com 42 faixas. Pensava em reeditar os títulos da Forma, mas em 2004 faleceu vítima de um infarto. Wadi Gebara morreu em 1ª de julho de 2019, em consequência de um câncer. O valioso catálogo da Forma pertence atualmente a Universal Music.

(na foto Roberto Quartin entre Baden Powell e Stan Getz)

2 comentários em “Forma, pequena gravadora de grandes discos, tem história contada em livro

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  1. JT Tarde delícia, na foto: Rosinha de Valença e ? Tarde de Toques, aiaiai, enlouquecida fã, a fazer: “bolinhas de sabão” sentada… a desvairar, devanear com sua Arte de crítico. Grata, ‘garotinho’ Deweras (lógico s/esperar retorno, eu q.dia desses volto ao deleite dos ‘toques’.) Inté!

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