Agostinho dos Santos e o Yansã Quarteto, há 55 anos, foram pioneiros em gravar música africana

“Agostinho entrou num táxi, e o motorista era um fã seu incondicional, conhecia todo o seu repertório e estava de fato encantado em atendê-lo. Não só não permitiu que ele pagasse a corrida, como conseguiu convencê-lo a ir até à sua (dele, motorista) casa, para apresentá-lo à esposa: “ela vai ficar felicíssima, é doida por você, não vai acreditar que você andou no meu táxi”. A vaidade de artista falou mais alto, e Agostinho aceitou o convite, já que a casa do motorista ficava no caminho, com promessa de que seria levado ao seu destino em seguida. Chegaram à casa do taxista, que abriu a porta 

e disse para a mulher, triunfante: “olha só quem eu trouxe pra você conhecer!” Ela olhou, olhou, desconfiada, não dizia uma palavra: silêncio constrangedor. Impaciente, o marido insistiu: “é ele, pô, é o Agostinho dos Santos!” A mulher se desculpou, sem graça: “sabe o que é, seu Agostinho, é que eu não tenho visto o Santos jogar.”

O “causo” acontecido com Agostinho dos Santos está no livro Aquelas Coisas Todas – Música Encontro Ideia (Numa Editora), de Joyce Moreno.  Em meados de 1966, em Portugal, o cantor conheceu os músicos do Yansã Quarteto, um grupo da cena samba jazz do Recife, que fazia apresentações em terras lusitanas. Formado por Luca (João Paulo Moury Fernandes), Naná Vasconcelos, Sérgio Kyrillos e Camilo Amorim. O quarteto, embora bastante requisitado na capital pernambucana, não tinha acesso à Rozenblit, então no auge. Na época, os jornais locais noticiavam que o Yansã Quarteto preparava-se para se mudar para São Paulo. Provavelmente porque angariou as simpatias da cantora Sônia Delfino, sucesso nacional com o sambalanço Bolinha de Sabão (1963, Orlandivo/Adilson Azevedo), que passou a divulgar o grupo aos amigos no Sudeste.

Mas foi em Portugal que o Yansã estreou em disco com Agostinho dos Santos, com o qual gravou três compactos, e se apresentou no Teatro Monumental de Lisboa, além de aparecerem na RTP, emissora de TV estatal (também rede de rádio). Esses disquinhos poderiam ter sido “perdidos” se limitados ao mercado discográfico português, então um país arcaico, com a cultura do entretenimento fortemente controlada pela censura da ditadura de Salazar.

No ano seguinte, a Rozenblit/Mocambo reuniu a trinca de compactos (produzidos por Jorge Costa Pinto), num LP, intitulado apenas Agostinho dos Santos. O Yansã é creditado na contracapa, que estampa fotografias da banda com Agostinho. Aqui no Brasil o disco passou quase despercebido. E é fácil de entender os motivos: Em 1967, Agostinho dos Santos estava em baixa, e metade do repertório é de músicas angolanas O título do projeto em Portugal é Africa Canta Agostinho dos Santos (com selo Tecla, também lançado na França). E vem desta escolha musical a importância do disco.

Esta é, certamente, a primeira vez que um artista negro brasileiro canta música africana, e em iorubá. Uma delas. Mona Ami Zeca (com arranjo de F.Pereira, sem creditar autores) seria gravada quase vinte anos depois por Geraldo Azevedo (creditada aos angolanosTonito/Liceu Vieira Dias, no LP A Luz do Solo, 1985). Uma das melhores dessas canções angolanas, também cantada em iorubá, é Carnaval Iolo Buá (sem autor). Ressaltando que também foi nessas gravações que Naná Vasconcelos mostrou seus dotes percussivos em canções afro feito Em Luanda, Saudade de Luanda (Eleutério Sanchez, um dos mais importantes compositores angolanos).  

O repertório, segundo notas da imprensa, na época, foi selecionado por Benil Santos (produtor, e compositor de vários sucessos com Raul Sampaio), e é muito desigual.  

Mistura canções africanas com A Banda (Chico Buarque), ou Tristeza (Haroldo Lobo/Niltinho), e Vem Chegando a Madrugada (Noel Rosa de Oliveira/Zuzuca), que fizeram imenso sucesso em 1966, com canções contemporâneas angolanas, como Mulata É a Noite (vencedora de um festival da canção em Luanda em 1966. Os autores: Adelino Tavares da Silva/Ana Maria Mascarenhas). 55 anos depois de lançado, Agostinho dos Santos, o álbum, está disponível no Spotfy e demais plataformas de música digital.

(foto do Yansã Quarteto, reproduzida do Facebook de Sérjão Kiryllos)

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