Nelson Gonçalves há 60 anos lançava Nós e a Seresta, batendo de frente com a bossa nova

O que é que falta para nossos cineastas se interessarem em fazer um filme sobre o gaúcho Nelson Gonçalves (1919/1998)? O cantor teve uma das trajetórias mais bem sucedidas da música brasileira, e uma vida pessoal conturbada, incluindo uma badalada prisão por tráfico, em 8 de maio de1966. O cantor, pego com 12 gramas de cocaína, foi levado para a Casa de Detenção de São Paulo, com algumas regalias, a exemplo de não ser obrigado a vestir o uniforme de detento. Os detentos, por sua vez, mimavam o cantor, a ponto de fazer a faxia de sua cela, ou de sugerir que a justiça o liberasse, e acrescentasse os anos de prisão dele às suas próprias penas. Com a prisão relaxada depois de 12 dias de cadeia, Nelson Gonçalves teve bastante tempo para improvisar shows para os detentos, atendendo a pedidos.
Segundo maior vendedor de disco da MPB, com 75 milhões de álbuns. Perde apenas para Roberto Carlos; com estimados 120 milhões. Foi o artista que mais tempo passou numa mesma gravadora. Ficou 59 anos na RCA.
Nelson Gonçalves se orgulhava do vozeirão, pontuado por graves que eram sua marca. Para os milhões de admiradores ele era “A Voz”, o Frank Sinatra brasileiro. Há 60 anos, como se não bastasse os problemas, com a cocaína, com as mulheres, as muitas brigas em que se metia, surgiu mais um: a bossa nova. Lançada em 1958, por um baiano desconhecido, de voz quase sussurrada, cantando sambas com uma batida estranha, Em 1962, consolidade, a BN ameaçava tornar obsoletos os intérpretes feito Nelson Gonçalves, e demais intérpretes de gogós privilegiados, até então predominantes na música brasileira.
Não apenas isso. Tornava démodé a temática passional do samba canção, sobretudo o que compunha o autor português Adelino Moreira, principal fornecedor de Nélson Gonçalves, de exacerbada passionalidade.
Em 1962, Nelson Gonçalves lançou um LP conceitual, um libelo contra a bossa nova, com um repertório que reverenciava  o que pretendia tornar passado. O álbum, Nós e a  Seresta, inteiramente composto por Adelino Moreira (três delas em parceria com o cantor, que assina umas delas sozinho). Três faixas são dedicadas à seresta, que não era um gênero em si, mas um estilo musical que se encaixava nas serenatas, em praças, diante de casas de uma namorada, ou em bares mesmo. Naquele ano, as serestas atraiam cada vez menos novos adeptos. Os tempos mudavam aceleradamente, como ratificava João Gilberto.
Seresta Moderna abre o álbum. Com uma levada de samba menos acelerada, mas não tanto quanto a BN, Adelino, que morava num casarão na Zona Norte, descreve o cenário das célebres reuniões de bossa-novistas em apartamentos da Zona Sul. “Um gaiato cantando sem voz/um samba sem graça/desafinado que só vendo/e as meninas de copo na mão/Fingindo entender/mas na verdade/nada entendendo”. O LP fecha o repertório com uma música apropriada às serestas, Mais Uma Canção, uma modinha. No entanto, Adelino Moreira e seu maior intérprete poderiam poupar a munição para um inimigo mais poderoso, o iê-iê-iê, que chegou ao auge exatamente no ano em que Nelson Gonçalves foi preso.

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