Tarcísio Pereira, um livreiro brasileiro que entrou para o Livro Guiness dos Recordes

Nunca houve uma mulher feito Gilda, nem um livreiro feito Tarcísio Pereira, cuja biografia será lançada nesta quarta-feira, 27, no Paço do Frevo, às 19h com direito a assinatura do jornalista Homero Fonseca, o autor. O livro intitula-se Tarcísio Pereira – Todos os Livros do Mundo, com selo da CEPE Editora. O Brasil que, num título de um DVD de Chico Buarque, é chamado de “País da Gentileza Perdida”, perdeu o que lhe restava de gentileza e civilidade com a morte de Tarcísio, vítima da covid-19, em 2021.

Frequentei a Livro 7 desde que funcionava num casarão na Sete de Setembro, ainda estudante de Ciências Contábeis (até hoje não entendo bem como fiz vestibular pra este curso), mas só me tornei contumaz quando a livraria se mudou para um galpão, vizinho, que até entrou pro livro Guiness dos recordes como a “maior livraria do Brasil”. Pra lá convergia todo mundo que apreciava ler, ou escrevia livros. De repente, você podia dar um esbarrrão em Gilberto Freyre, Hermilo Borba Filho, Mauro Mota, Gilvan Lemos, ou os de fora que vinham conhecer a livraria, Maitê Proença, Miúcha, Eduardo Galeano, Edu Lobo (que até tomou um chope no bar vizinho, sem ser importunado).

 Os lisos podiam sentar em um banco da livraria e ler o que lhe interessava, sem problemas. Muitos deixavam um marcador pra voltar à leitura. Tarcísio lançou um cartão de crédito, o Credisete, pra estudante, que deveria entrar também pro Guiness, pela quantidade de inadimplentes.

Eu ia quase todos os dias, com exceção do domingo, à Livro 7, que aos sábados, pela manhã, servia uma batida, acho que de caju. Isto a partir de meados dos anos 80, quando começamos, eu, Ral e Bione, a publicar o Papa-Figo, o jornal mais esculhambado e anarquizado do Recife. Tarcísio foi anunciante de primeira hora. A cada vinte exemplares a gente reunia todos e lançava uma revista, o Papa-Figão. Todos os lançamentos realizados na Livro 7, desanimado pela Banda Pão com Banha (era tempo de Mel com Terra, Mastruz com Leite, Caviar com Rapadura, e outras excrescências sonoras). O grupo era formado por nós do Papa-Figo (sem Ral), com participações, ou melhor, como se diz hoje em português, featuring Clériston e Laílson.

Tarcísio era sócio-efetivo da nossa disputada mesa no bar Calabouço, mas não tão assíduo por causa da administração da livraria. Acho que Tarcísio foi a única pessoa que nunca vi gritar ou falar alto. Nem mesmo pra corrigir um comentário equivocado da turma. Feito na célebre noite de autógrafo do romancista Sidney Sheldon. A fila pra pegar o autógrafo do americano batia a dos que estão indo à Caixa pra pegar a grana do auxílio vote em mim, do governo federal. A gente tomava umas e várias outras na nossa mesa do Calabouço quando Sidney Sheldon passou em nossa frente acompanhado por um rapaz louro, de uns vinte anos.

Alguém da mesa comentou: “Deve ser o boy dele”. No dia seguinte, Tarcísio veio à mesa, e alguém perguntou se o boy era o caso de Sheldon. E Tarcísio: “É o filho”, só isso.

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