Sebastião Biano, último dos fundadores da Banda de Pífanos de Caruaru, morre aos 103 anos

Em maio de 1966, Gilberto Gil veio ao Recife para uma temporada de shows no Teatro Popular do Nordeste, na Conde da Boa Vista, passou mais de um mês na cidade, onde fez amigos e influenciou pessoas. Foi levado à Zona da Mata para conhecer maracatu rural, ciranda, e outras manifestações da cultura popular. Viajou também para Caruaru. Ali sofreu um choque cultural, ao assistir uma apresentação da banda de pífanos Zabumba Caruaru, da família Biano.

“Avisaram que a gente ia tocar prum pessoal de fora, e nós fomos. E ali numa sala tava o prefeito, mais um bocado de gente, com Gilberto Gil, que eu não sabia quem era. Nós então começamos a tocar as músicas da gente”, recordou Sebastião Biano, que faleceu nesse sábado, 27 de agosto, aos 103 anos, em Ribeirão Pires, na região metropolitana de São Paulo.

Voltando a 1966.  Para Gilberto Gil a Zabumba Caruaru era a peça que faltava no projeto que lucubrava para revitalizar a música popular brasileira. Voltaria para São Paulo convicto do caminho para a MPB sair do beco sem saída em se metera: manter os Beatles e a Zabumba Caruaru no mesmo diapasão. O grupo dos irmãos Biano foi a espoleta que disparou o movimento, que passaria à história com o nome de Tropicália.

Quatro anos depois Gilberto Gil, ao voltar do exílio, em Londres, escolheu o Recife para realizar o primeiro show no Brasil, no Teatro do Parque e, mais uma vez, foi à Caruaru, onde reencontrou a banda dos Biano. No álbum Expresso 2222 incluiu o grupo na faixa Pipoca Moderna, atraindo a atenção da imprensa do Sudeste para o grupo caruaruense (a música, dois anos mais tarde, receberia letra de Caetano Veloso, no disco Joia).

 A badalação em torno da Zabumba Caruaru durou pouco. O grupo passou a fazer menos apresentações, inclusive na própria cidade onde os integrantes moravam. Chegou a ponto da Ordem dos Músicos do Brasil importunar a banda exigindo carteira da entidade aos seus músicos. Decidiram, pois, se mudar para São Paulo. O que pode parecer uma manobra radical para quem não conhece bem as bandas de pífanos, por natureza, nômades.

A Zabumba dos Biano (Zabumba era como se chamavam os ternos de pífanos, conhecidos também como Isquenta Muié) surgiu em 1924, em Santana de Ipanema, Alagoas, fundada por Manoel Clarindo Biano, com instrumentos rústicos zabumba de tronco de imburana, pífanos de talos de taquara, caixa de pau-pereira com pele de couro de bode. Sebastião Biano começou a aprender pífano com cinco anos. Em 1926, Clarindo partiu com a mulher e os filhos com o objetivo de chegar ao Juazeiro do Padre Cícero, no Ceará. Era o início de uma longa peregrinação até se estabelecerem a Caruaru.

 Fizeram uma parada, duas semanas depois, em Sítio dos Pintos, subúrbio do Recife, na época zona rural da capital. Era Semana Santa, com preceitos rígidos naquele tempo. Não se podia tomar banho, rir, comer carne, e muito menos tocar. A família permaneceu por três anos ali, trabalhando na lavoura. Depois a família rumou para Triunfo, no sertão do Pajeú. Moraram por dois anos na cidade, e em seguida foram para Bonito de Santa Fé, na Paraíba, fronteira com o Ceará.

De Bonito de Santa Fé, em vez de ir para o Juazeiro do Norte, dirigiram-se para Garanhuns, no agreste pernambucano, e se instalaram num povoado chamado Poço Comprido, distrito de Correntes, onde, aliás, se realiza o festival da Macuca. Ali permaneceram até 1934, quando foram para Buíque, logo depois para Pesqueira trabalhar na lavoura de tomate (na cidade havia uma grande fábrica de produtos derivados do tomate, a marca Peixe). Não eram mesmo de ficar muito tempo no mesmo lugar. Logo estavam em Belo jardim. Em 1939, finalmente, conheceram em Caruaru, depois de São Paulo, a cidade em que moraram por mais tempo.

Com a badalação feita pelos baianos, a Zabumba Caruaru finalmente estreou em disco, em 1972, produzida pelo compositor Onildo Almeida, que assina quatro faixas do disco, incluindo A Feira de Caruaru, sua música mais conhecida.  Em 1976., logo depois do terceiro LP, Banda de Pífano de Caruaru (Continental), alegando falta de apoio, na chamada Capital do Agreste, a família Biano fixou residência em São Paulo, onde a família criou raízes. Sebastião Biano tinha uma vitalidade rara. Aos 96 anos, em 2015, lançou o primeiro disco solo. Em 2019, ao completar 100 anos, ele participou do São João de Caruaru, quando recebeu o título de cidadão caruaruense. Curioso é que ele faleceu um dia depois de as bandas de pífanos de PE, em cerimônia realizada em Caruaru,  serem reconhecidas como patrimônio cultural imaterial, a partir da pesquisa: Pífanos de PE – Do mapeamento à salvaguarda, realizada pela Página 21.  A Banda de Pífanos continua na estrada, formada por filhos e netos e dos fundadores.  Completará um século daqui a dois anos.

2 comentários em “Sebastião Biano, último dos fundadores da Banda de Pífanos de Caruaru, morre aos 103 anos

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  1. Telestoques se conseguires/ler: arretada escrita sobre Biano/Banda de pífanos. Cumpriu tempo exato/pela Bíblia na Terra e seu som eterno catálogo de arrepios nas almas dos ouvintes, espalhou Paz e nela fica. Grata!

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