Valsa dos Cogumelos é o inventário da psicodelia pernambucana da década de 70

Sombra e Algas Frescas, Andrômeda, Licá, Mão de Obra, Baleia, Eva, Crucifixo, Porta Larga Band, Creme Mágico. Pouquíssimos pernambucanos sabem o que são os nomes citados. Todos integravam as hostes da cena udigrudi da Região Metropolitana do Recife, ou psicodelia, como chamam agora, e estavam escalados para se apresentar no Concerto Chaminé lendário festival realizado no pátio do Mosteiro de São Bento, em Olinda, produzido por Marconi Notaro, em agosto de 1974. Além dos citados, Ave Sangria, Cães Mortos, Don Tronxo e Zé Ramalhos também figuravam na programação do Chaminé.

Creme Mágico, Licá e Andrômeda foram os únicos que conseguiram tocar. Na terceira atração no palco, desabou um temporal, que levou o dono do equipamento, o não menos lendário Maristone, a retirá-los para não ser inutilizado. A chuva apagou a chaminé. Mas o pessoal da plateia, nem aí, virou protagonista, e ficou pelo pátio em grupinhos, tocando violão e acendendo suas chaminés particulares.

A história desse e de outros festivais acontecido nos anos 70 em Pernambuco, mais discos e a carreira de quem os gravou, estão no livro Valsa dos Cogumelos – A Psicodelia Recifense 1968/1981, de Rogério Medeiros, que será lançado nesse sábado, a partir das 15h, na Passa Disco, no Espinheiro (Rua da Hora, 345). O livro é o desenvolvimento de um projeto de conclusão do curso de jornalista de Medeiros, publicado em livro, que é basicamente a transcrição do TCC. Na pandemia, ele ocupou o tempo preenchendo as lacunas do texto original, e o tornou o melhor relato de uma fase muito rica na música pernambucana, numa pesquisa e relatos minuciosos, de leitura fácil e agradável.

Escrito por mim, para uma série de livros sobre MPB, coordenada pelo crítico carioca Tárik de Souza, para a Editora 34, de São Paulo, o Do Frevo ao Manguebeat, é um resumo da história da música pernambucana, até então solenemente, com poucas exceções, ignorada fora do estado. Se o próprio frevo, o gênero mais badalado de Pernambuco, emplacou poucos sucessos nacionais, mas era um ilustre desconhecido para boa parte dos brasileiros, imagine-se a psicodelia, uma cena à frente do seu tempo até mesmo se tivesse acontecido no Rio ou São Paulo. Dediquei um capítulo aos principais nomes do, vá lá que seja, movimento. Não passou de um relato sucinto, focado nos discos e em eventos , como o citado Concerto Chaminé. Um teaser, que deflagrou a atenção para essa música e músicos que o os pernambucanos e o país desconheciam. Hoje ela está pelo mundo, e muito bem historiada em Valsa dos Cogumelos.

Rogério Medeiros situa seu início nos idos de 1968, quando eclodiu no Recife e Olinda (com extensões a João Pessoa e Natal) um tropicalismo à pernambucana, e vai até 1981, quando a psicodelia dava seus últimos suspiros, até com boa cobertura da imprensa (sobretudo por Geneton Moraes Neto, que começou a escrever sobre ela ainda adolescente).

No texto exemplifica-se o descaso da grande maioria dos conterrâneos por aquela turma de cabelos longos, e ideias extradimensionais, num episódio acontecido no festival Vamos Abraçar o Sol, realizado em 1976, na praia de Boa Viagem. Quando Flaviola e o Alegre Bando do Sol se apresentaram, o cantor lançou o seu recém-lançado LP para a Plateia. Algumas pessoas devolveram os álbuns, lançando-os de volta no palco.    

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