Milton Nascimento: encontro, despedidas e alto astral na Arena PE, no show A Última Sessão de Música

“A dignidade tranquila, sem concessões ao público. Sem concessões a ninguém, aliás. Não ri, nem chora, canta e toca sereno, positivo, como se rezasse. É altivo e imperturbável, nem o êxito o comove. Parece um filho de rei”, o comentário é da escritora Rachel de Queiroz, sobre Milton Nascimento, uma crônica publicada em 1967, quando ele ganhou o prêmio de Melhor Intérprete no II Festival Internacional da Canção, em que foi revelado com Travessia (parceria inaugural com Fernando Brant), segunda colocada na fase brasileira.

Com exceção do “toca”, poderia estar descrevendo a apresentação de Milton Nascimento, nesse domingo, quando ele passou pela Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, com a turnê A Última Sessão de Música. Aliás, também com exceção do “filho de”. Milton, sentado do começo ao final do show, não era filho de um rei. Era o próprio rei, um orixá, uma entidade. Debilitado, ele não tocou, apenas cantou, a voz, claro, já não é a mesma, tornou-se mais grave, sem o brilho metálico que a torna tão original. Porém suficiente para interpretar suas canções. São bonitas as canções. Muito bonitas.

 Milton passeou por um repertório de 55 anos de discografia (contados a partir do citado festival). Set-list pontuado por canções que acenaram para o adeus aos palcos. Cantou acompanhado por uma banda formada por Wilson Lopes (guitarra e violão, e direção musical), Lincoln Cheib (bateria), Ademir Fox (piano), Widor Santiago (metais), Zé Ibarra (vocal e violão), Ronaldo Silva (percussão), Alexandre Primo Ito (arcos), Frederico Heliodoro (baixo e vocal). Músicos de gerações diferentes, assim como o público. A direção artística assinada por Augusto K.Nascimento.

Milton, que completa 80 anos em 26 de outubro, foi curtido por fãs de primeira hora, e os que o descobriram pelo álbum, cada vez mais incensado, Clube da Esquina, que completou meio século neste 2022. Zé Ibarra que abriu o show, mostrou repertório próprio, e ainda pouco conhecido, e alguns covers, músicas gravadas com a Dônica (que formou com Tom, filho de Caetano Veloso), e da banda Bala Desejo, badalada atualmente no Rio (participou do recente FIG). Foi simpático, mas não levantou o público. Teria desempenho melhor durante o show. Simone foi a cantora certa no lugar certo. Depois de Elis Regina, que praticamente descobriu Milton, ela é a outra grande intérprete de Bituca nos anos 70.

OBJETO NÃO IDENTIFICADO

Quando Milton Nascimento surgiu em meados da década de 60, a MPB engajara-se contra o regime militar. Para alguns autores, a letra era até mais importante do que a melodia. Cantavam sobre um mundo mais justo politica e socialmente, porém situado no futuro: “Ainda transformo este mundo/em festa, trabalho e pão”, de Viramundo, de Gilberto Gil (com José Carlos Capinam), ou “Vim de longe, vou mais longe/quem tem fé vai me esperar/ escrevendo numa conta/pra junto a gente cobrar No dia que já vem vindo/que esse mundo vai virar (ei, vai virar)”, de Aroeira, de Geraldo Vandré.

A música de Milton Nascimento não se parecia com nada que se fazia então. Nem nas sequencias de acordes surpreendentes e difíceis de cantar, nem no ritmo, tampouco nas letras. Nem tinha raízes na bossa nova, nem no baião. Enfim, Milton era um óvni não se encaixava no cenário em que se transformara a MPB, mescla de política com competição, dando vida a um subgênero: a música de festival. Ele não estava interessado em ingressar naquele universo, em concurso musical. Entrou por causa do cantor Agostinho dos Santos, que inscreveu três canções do carioca/mineiro no II FIC. As três foram classificadas, Morro Velho, Maria Minha Fé e Travessia (cujo título inicial seria Vendedor de Sonhos. Recebeu o batismo definitivo, com uma palavra pinçada do romance Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa).

Morro Velho é uma alusão ao racismo, Maria Minha Fé, o cotidiano do trabalhador, e Travessia, confessional, uma canção pontapé inicial de carreira. Passaram a querer conhecer as parcerias da dupla. Só havia Travessia. Então partiram para a segunda. Escreveram Outubro (incluída no repertório do show na Arena). A música de Milton soava estranha a ouvidos acostumados a acordes mais convencionais (em 1967, as dissonâncias da bossa nova já tinham sido assimiladas). Ele só alcançou um público maior com os álbuns Minas (1975) e Geraes (1976), que atrairia mais atenção ao álbum Clube da Esquina (reverenciado por ele no domingo, na Arena).

É certo que esse álbum teve canções bem tocadas na época, sobretudo Nada Será Como Antes, porém com Elis Regina. Talvez porque ficou entre o hermético Milagre dos Peixes (1973), e Minas, cujo carro-chefe foi Fé Cega Faca Amolada. Engraçado é que a turma da esquerda mais raiz abominava rock, mas abraçou Fé Cega Faca Amolada, uma das canções mais rock ‘n’ roll de Milton (letra de Ronaldo Bastos). Para quem acompanha sua carreira desde os primeiros álbuns, chegava a ser surpreendente ver os jovens da plateia na Arena se jogarem no coro de Para Lennon e McCartney, San Vicente, a citada Fé Cega Faca Amolada e, claro, Maria Maria, Coração de Estudante, e Travessia.

A cada vez que Milton dirigia-se à plateia despedindo-se com palavras ou canções, me vinha à mente um show dele no Geraldão, em 1977 ou 78, acho que da turnê Geraes, O estádio lotado, a público estava ali não apenas para curtir a música, mas igualmente para compartilhar a liberdade que espetáculos como aquele proporcionava. Domingo pairou este clima na Arena. Estava estampada no rosto das pessoas a alegria de viver um momento de comunhão, todo mundo agindo civilizadamente. Show e ato cívico.

P.S – Fui impedido de entrar no estádio com um guarda-chuva que trazia na mochila. Deixei num cantinho onde havia outros objetos de igual periculosidade. Achei que não o encontraria na volta. Ledíssimo engano.  Na saída, os guardas não estavam mais lá. Meu guarda-chuva estava.  Em cidades europeias seria uma trivialidade, por aqui ainda não.

3 comentários em “Milton Nascimento: encontro, despedidas e alto astral na Arena PE, no show A Última Sessão de Música

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  1. Estava lá e fiquei muito emocionada, afinal, Milton faz parte da minha vida, desde a adolescência. Saí absolutamente feliz por ele e por mim e por nós e pelo Brasil. Ver aquela quantidade de pessoas num show de Milton , confesso, me deixou mais
    animada quanto ao futuro da música no Brasil, há de haver uma reviravolta, como Maria, tenho fé! Quanto ao guarda chuva, não esperava coisa diferente vindo do público que ama a música de Milton. E viva Mil Tons!

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